Brasil desafia Trump e reforça compromisso com os Brics, diz Celso Amorim

Em entrevista ao Financial Times, assessor especial de Lula critica
interferência dos EUA, defende diversificação das parcerias
internacionais e nega viés ideológico do bloco

por  Cezar Xavier

Publicado 27/07/2025 15:15 | Editado 27/07/2025 15:16
Mauro Vieira, Lula e Celso Amorim na reunião dos sherpas do Brics (foto de
Ricardo Stuckert, PR)
O assessor especial de Política Externa da Presidência da República,
Celso Amorim, afirmou que o Brasil está decidido a “dobrar a aposta”
no fortalecimento dos Brics, em resposta direta às ameaças do
presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de impor tarifas
punitivas de até 50% a países que se alinhem ao bloco, considerado
pelo presidente “antiamericano”.
Em entrevista ao jornal britânico Financial Times, publicada neste
domingo (27), Amorim disse que as investidas do ex-presidente dos
EUA contra o Brasil estão, paradoxalmente, reforçando a
determinação brasileira de ampliar laços com os Brics e outros
parceiros globais.
“Queremos ter relações diversificadas e não depender de nenhum
país”, declarou o ex-chanceler, ao defender maior aproximação com
Europa, América do Sul e Ásia, além da continuidade dos esforços de
integração sul-americana liderados pelo presidente Luiz Inácio Lula da
Silva.
Críticas a Trump: “Nem a União Soviética faria isso”
Amorim reagiu com indignação às declarações recentes de Trump,
que condicionou a retirada de tarifas à interrupção do julgamento do
ex-presidente Jair Bolsonaro, acusado de tramar um golpe de Estado

no Brasil. Para ele, trata-se de uma interferência inaceitável nos
assuntos internos do país.
“A interferência de Trump é algo que nem mesmo nos tempos
coloniais se via. Não acho que nem a União Soviética teria feito algo
assim”, afirmou.
O diplomata foi ainda mais incisivo ao descrever o comportamento do
republicano:
“Trump não tem amigos, nem interesses, apenas desejos. Isso é uma
ilustração de poder absoluto.”
Diversificação estratégica: Brics, Mercosul e Canadá
Durante a entrevista, Amorim rejeitou a ideia de que os Brics sejam
um bloco ideológico, argumentando que a aliança — composta por
Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, além de novos membros
como Irã e Egito — tem como foco defender uma ordem mundial
multilateral diante da crescente postura isolacionista dos EUA.
Com o Brasil na presidência rotativa do bloco em 2025, o assessor
reafirmou que o governo Lula buscará expandir as relações
econômicas e diplomáticas com outros centros estratégicos.
Ele destacou ainda o interesse do Canadá em negociar um acordo de
livre comércio com o Brasil e voltou a defender a ratificação do
acordo entre Mercosul e União Europeia.
“Se a União Europeia fosse inteligente, ratificaria o acordo não só pelo
ganho econômico imediato, mas para garantir mais equilíbrio nas
relações internacionais”, argumentou.
China sim, mas com cautela
Embora tenha reconhecido que a China é o maior parceiro comercial
do Brasil, com quase US$ 100 bilhões importados em 2024, Amorim
negou que o país esteja apostando no enfraquecimento dos EUA em
favor de Pequim.

“Não é nossa intenção que a China se beneficie das tarifas de Trump.
Não buscamos um vencedor, e sim uma rede de relações
equilibrada”, explicou.
Lula rejeita imperialismo: “Trump não é imperador do mundo”
A entrevista de Amorim também repercute declarações recentes do
presidente Lula, que criticou as tentativas de Trump de interferir na
política interna brasileira.
“Trump não foi eleito para ser imperador do mundo. Se tivesse feito
no Brasil o que fez no Capitólio, estaria sendo julgado também”, disse
Lula.
Com o Brasil cada vez mais vocal no cenário internacional e disposto a
confrontar o unilateralismo norte-americano, a entrevista de Amorim
marca um posicionamento claro da diplomacia brasileira em favor do
multilateralismo, da soberania nacional e da integração regional.
A nova configuração dos Brics — e a firme resposta de Brasília —
prometem acirrar os debates geopolíticos no período eleitoral dos
EUA e em um mundo cada vez mais multipolar.

Fonte: Vermelho

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *