Como a inteligência artificial chinesa desafia a hegemonia dos EUA
Start up chinesa abala a corrida dos chips e da inteligência artificial, com
sistema mais eficiente, menos custoso, aberto e gratuito, derrubando
ações de empresas norte-americanas.
Start up chinesa consegue abalar a corrida dos chips e da inteligência artificial
acirrada pelos EUA, com sistema mais eficiente, menos custoso, aberto e
gratuito
Supera o ChatGPT, requer muito menos capacidade de computação, tem
código aberto e é totalmente gratuita. Com isso, uma reviravolta sem
precedentes abalou o mercado de tecnologia nesta segunda-feira (27). A
startup chinesa DeepSeek, sediada em Hangzhou, alçou voos
surpreendentes ao lançar um assistente digital gratuito e de alto
desempenho, ameaçando diretamente os gigantes do setor. O impacto
imediato foi uma queda significativa nas ações de empresas como
Nvidia, Microsoft, Meta e Alphabet, refletindo o frenesi em torno do novo
modelo de inteligência artificial (IA) da DeepSeek, considerado um marco
disruptivo no campo.
De acordo com a análise do professor Diego Pautasso, pós-doutor em
Estudos Estratégicos Internacionais pela Universidade Federal do Rio
Grande do Sul (UFRGS) e PUC Minas, essa nova abordagem chinesa
vai muito além de inovações tecnológicas. “Indiferente aos desafios
técnicos e regulatórios pela frente, trata-se de um modelo disruptivo. É
uma IA muito mais barata e eficaz, montada com recursos módicos e
com pouca capacidade de computação, comparativamente”, opinou ele
em suas redes sociais.
A ascensão da DeepSeek e o colapso das expectativas ocidentais
Na última semana, a DeepSeek ultrapassou o popular ChatGPT, da
OpenAI, em downloads na App Store, consolidando-se como uma
alternativa viável e mais acessível. O modelo da startup promete operar
com menos dados e custos significativamente reduzidos em comparação
aos padrões estabelecidos pelas gigantes do setor. Essa mudança de
paradigma levanta questões sobre a sustentabilidade dos altos níveis de
investimento em IA por empresas ocidentais.
A DeepSeek não seguiu o roteiro tradicional do Vale do Silício. Fundada
em 2023 por Liang Wenfeng, um investidor que inicialmente não tinha
experiência direta no setor de tecnologia, a startup foi concebida a partir
de um fundo de hedge, o High-Flyer. Em 2021, Liang começou a adquirir
milhares de processadores gráficos da Nvidia, até então encarados com
ceticismo por seus parceiros de negócio. Hoje, sua visão se traduz em
um sistema de IA que, na terceira versão, já supera o GPT-4 em 20 das
22 métricas analisadas, segundo dados da própria empresa.
Geopolítica e a “falência” da batalha dos chips
A ascensão da DeepSeek também escancara os limites das sanções
tecnológicas impostas pelos EUA contra a China. Assim como os
avanços recentes dos celulares Huawei, a nova IA conseguiu driblar as
restrições que bloqueavam o acesso a chips sofisticados da Nvidia,
provando a resiliência do ecossistema digital chinês. Segundo Pautasso,
“o evento provou a falência da batalha dos chips impostas por
Washington”.
O modelo da DeepSeek, que é de código aberto e gratuito, reforça a
estratégia da China de democratizar soluções tecnológicas, ampliando
sua influência no Sul Global. Para o analista, essa abordagem desafia
diretamente o monopólio dos EUA e representa um marco na transição
sistêmica global. “Mais do que pânico nas corporações do Vale do Silício
e na elite da Casa Branca, a abordagem tecnológica da DeepSeek
desafia o domínio e o monopólio dos EUA”, pontuou.
Impactos para o Brasil e o Sul Global
Num momento de transição histórica, países emergentes têm a
oportunidade de explorar soluções tecnológicas mais acessíveis para
fomentar suas próprias agendas digitais. Nesse cenário, iniciativas como
o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial 2024-2028 surgem como
elementos-chave para integrar o Brasil à nova realidade tecnológica
global.
“Esse é o momento ideal para o Brasil e outros países do Sul Global
construírem suas alternativas soberanas, explorando parcerias com
ecossistemas inovadores como o da DeepSeek”, destacou Pautasso.
Um novo futuro para a IA
Com a chegada da DeepSeek, as regras do jogo na indústria de IA foram
profundamente alteradas. As corporações do Vale do Silício, que antes
apostavam em investimentos bilionários, precisam agora reavaliar seus
modelos de negócio. Ao mesmo tempo, a ascensão da China como um
líder tecnológico global reforça a dinâmica multipolar do sistema
internacional, oferecendo novas possibilidades para uma era de maior
diversificação e acessibilidade tecnológica.
Fonte: Vermelho

