Maioria dos brasileiros desaprova governo Trump, aponta pesquisa

Levantamento revela que 54% rejeitam ações do presidente dos EUA,
inclusive entre eleitores de direita. Hostilidade externa pode desgastar

bolsonarismo, por  Lucas Toth.

Bolsonaro usa boné com o slogan “Make America Great Again”, símbolo da
campanha de Donald Trump. A imagem reforça a subordinação da extrema
direita brasileira aos interesses dos EUA. Foto: Reprodução

A maioria dos brasileiros desaprova o governo de Donald Trump, de
acordo com a pesquisa Pulso Brasil/Ipespe divulgada na última semana
de março. O levantamento mostra que 54% dos entrevistados reprovam
a atuação do presidente dos Estados Unidos em seu novo mandato. A

aprovação foi de 39%, enquanto 7% não souberam ou não quiseram
responder.
A pergunta apresentada aos entrevistados foi: “De modo geral,
considerando as ações do presidente Trump com relação aos Estados
Unidos e ao mundo, incluindo o Brasil, o(a) Sr(a) aprova ou desaprova o
governo Trump até agora?”. A pesquisa ouviu 2.500 pessoas em todas
as regiões do país entre os dias 20 e 25 de março.
Ainda que a opinião pública brasileira não tenha impacto direto sobre a
política norte-americana, os resultados indicam que o alinhamento
automático à Casa Branca — prática recorrente do bolsonarismo — pode
se tornar um fardo nas eleições de 2026. O ex-presidente Jair Bolsonaro,
atualmente inelegível, tem apostado em uma retórica de aproximação
com Trump, chegando a prometer, caso retorne ao poder, a instalação
de uma base militar dos EUA em Foz do Iguaçu.
Os dados revelam que a rejeição ao republicano é ampla entre setores
diversos da população brasileira. Entre as mulheres, a desaprovação
chega a 60%, contra 49% entre os homens. O índice também varia por
região: é de 61% no Nordeste, 55% no Sudeste, 51% no Norte, 46% no
Sul e 44% no Centro-Oeste. No Sul, os índices de aprovação e
reprovação se aproximam — 45% e 46%, respectivamente — enquanto o
Centro-Oeste registra o maior número de indecisos (11%).
A escolaridade também influencia a percepção: a desaprovação é de
48% entre os que possuem ensino superior, 53% entre os com ensino
fundamental e 57% entre os que têm ensino médio.
A rejeição a Trump não está restrita a simpatizantes do governo Lula.
Entre os eleitores que aprovam o presidente Luiz Inácio Lula da Silva,
87% reprovam o republicano. Já entre os que desaprovam Lula, 30%
também reprovam Trump — número expressivo que mostra o alcance da
insatisfação com a política externa norte-americana.
Além disso, o mesmo levantamento mostra que 58% dos brasileiros
acreditam que Bolsonaro não conseguirá disputar as eleições
presidenciais de 2026, e 66% esperam que ele seja condenado por
participação em tentativa de golpe, após o Supremo Tribunal Federal
tornar o ex-presidente réu.
O distanciamento crescente da população brasileira em relação à figura
de Trump deve representar um desafio para candidatos de direita que
mantêm afinidade com o discurso ultraconservador importado dos
Estados Unidos. A imagem de um Trump abertamente hostil ao Sul
Global, com promessas de megatarifas e sanções econômicas, contradiz
a exaltação da “Pátria” promovida por setores bolsonaristas.

Historicamente associada à esquerda na América Latina, a bandeira da
soberania nacional e do nacionalismo foi apropriada pela extrema direita
brasileira na última década. No entanto, com o reposicionamento dos
Estados Unidos como ameaça comercial, o discurso de soberania tende
a se reconfigurar. Isso pode abrir espaço para uma retomada do
patriotismo popular e democrático como contraponto ao alinhamento
automático com potências estrangeiras.
O exemplo do Canadá ilustra esse movimento. Em janeiro, o candidato
conservador Pierre Poilievre liderava as intenções de voto. Dois meses
depois, diante da retórica agressiva de Trump — que chegou a defender
a anexação do país vizinho —, os liberais ultrapassaram os
conservadores nas pesquisas. O temor em relação ao imperialismo
norte-americano, que havia perdido força com a globalização, volta a
emergir como fator de mobilização política.
Se a tendência se mantiver, o bolsonarismo poderá enfrentar dificuldades
em 2026 ao tentar sustentar um discurso patriótico que, na prática, se
curva diante de interesses externos.

Fonte: Vermelho

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *