Fraude no INSS teve início sob Bolsonaro, mas afeta imagem do governo Lula

Máquina de manipulação bolsonarista e dificuldades na comunicação
governamental impactam a opinião pública; pesquisa Quaest indica que

31% atribuem responsabilidade à atual gestão

por  Priscila Lobregatte

Publicado 04/06/2025 18:39 | Editado 04/06/2025 19:46

Coletiva de imprensa no dia 8/5 sobre Operação Sem Desconto com os
ministros Jorge Messias (AGU), Vinicius Marques de Carvalho (CGU), Wolney
Queiroz (Previdência Social) e o presidente do INSS, Gilberto Waller. Foto
Antônio Cruz/ Agência Brasil.

Apesar das fraudes no INSS recém-descobertas existirem ao menos
desde 2019, sob a presidência de Jair Bolsonaro (PL), e de somente
terem sido investigadas e combatidas no governo de Luiz Inácio Lula da
Silva, a percepção de 31% população é de que a responsabilidade pelo
esquema criminoso é da atual gestão, segundo pesquisa Quaest
divulgada nesta quarta-feira (4).
O governo anterior tem apenas 8%, mesmo percentual das entidades
fraudadoras e 14% atribuem ao INSS. Não souberam dizer ou não
responderam 26% e 12% citaram outros como responsáveis.
Quando o questionamento foi feito de maneira espontânea entre os
eleitores de Lula, a responsabilidade atribuída ao atual governo cai a
13% e ao governo Bolsonaro vai a 15%; outros 18% apontam o INSS;
10% as entidades fraudadoras. Neste caso, 30% não souberam ou não
responderam e 13% apontaram outros culpados.
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sobre fraude no INSS
Já no caso espontâneo entre eleitores de Bolsonaro, 53% jogam a culpa
para cima do atual governo e apenas 1% dizem que foi o anterior; 11%
apontam o INSS e 6%, as entidades. O percentual dos que não
souberam ou não responderam ficou em 15% e “outros” teve 14%.
Entre os que disseram ter votado branco ou nulo em 2022, 33% atribuem
a responsabilidade ao atual governo, contra 11% ao anterior e 35% não
souberam ou não quiseram informar.
Dificuldades de comunicação
Tais números parecem indicar, mais uma vez, que a guerra da
comunicação fez a diferença na compreensão sobre a fraude. Como
ocorreu na emblemática crise do Pix, no começo deste ano, agora
também há uma sobreposição de narrativas falaciosas ou deturpadas
que se propagam de maneira ampla e rápida, pelas redes sociais
bolsonaristas, e que jogam sobre a gestão Lula a culpa do esquema.
Por outro lado, como naquela e em outras ocasiões, parece faltar ao
comando político e de comunicação do governo a habilidade e a rapidez
necessárias para se antecipar e enfrentar os desdobramentos que esse
tipo de crise acarreta e fazer os fatos chegarem à maioria da população,
de maneira a neutralizar o discurso da extrema direita.
No caso da fraude do INSS — embora possa ter havido demora e
problemas de condução na pasta da Previdência já na atual gestão —, o

fato é que somente no governo Lula o esquema foi revelado, investigado
e combatido.
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explorar aposentados
A descoberta ocorreu após a Controladoria Geral da União (CGU)
identificar o aumento no número de reclamações relativas a descontos
indevidos em aposentadorias e pensões, o que levou à abertura de
apurações de âmbito administrativo já em 2023, primeiro ano do atual
mandato de Lula.
Ao encontrar indícios de crime, a CGU acionou a Polícia Federal,
solicitando a abertura de inquérito, o que levou à deflagração da
operação Sem Desconto, realizada em abril, tornando conhecida do
grande público a fraude, que consiste em descontos não autorizados dos
benefícios, com um prejuízo total que pode passar de R$ 6,3 bilhões.
Pouco tempo depois, teve início, por parte do governo, a fase de
planejamento e ação quanto ao ressarcimento das vítimas.
Início do esquema
Entre outras descobertas feitas pelas investigações está o fato de que os
descontos podem ter começado ainda antes de 2019 e se estenderam
por todo o governo de Jair Bolsonaro sem que nada fosse feito.
Conforme noticiado pela Agência Brasil, e de acordo com o novo ministro
da Previdência, Wolney Queiroz Maciel, em sessão do Senado, a Medida
Provisória 1.007, de 2019, transformada na Lei 14.438, de 2022, foi
fundamental para o aumento dos descontos indevidos.
A MP teria sido editada por recomendação do Tribunal de Contas da
União (TCU) após indícios de irregularidades no INSS verificadas ainda
em 2019. O texto previa novos controles sobre descontos em
aposentadorias, mas foi alterada pelo Congresso Nacional e sancionada
sem vetos por Bolsonaro. Com as mudanças, foi excluída a previsão de
revalidação anual das autorizações para os descontos do INSS.
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abusivas ao INSS
“Essa lei pôs fim ao instituto da revalidação que vinha sendo gestado
dentro do Congresso, a partir de 2019, para que houvesse uma
revalidação de cada um daqueles que autorizavam o desconto. Isso foi
sepultado por essa MP e por essa lei, em 2022”, disse o ministro.

Segundo ele, “entre 2019 e 2022 é que o ladrão entra na casa. Por que
eu digo que o ladrão entra na casa? Porque o fim da revalidação [das
autorizações para os descontos associativos], e a expectativa anterior de
que houvesse a revalidação, fez com que cerca de 11 empresas novas
se credenciassem. Dessas empresas, que mais tarde descobrimos,
agora, durante a operação, que eram 100% fraudulentas, a maior parte
se estabeleceu nesse período”.
Na avaliação do advogado-geral da União, Jorge Messias — em
entrevista ao programa A Voz do Brasil — “antes havia um sistema muito
restrito, poucas entidades podiam acessar a possibilidade de fazer
descontos em folha” e esse modelo acabou sendo aberto para várias
entidades. “Abriram a porta para o ladrão entrar e em que momento se
deu isso? Se deu entre 2019 e 2022, vamos falar a verdade, as pessoas
precisam entender o que aconteceu no Brasil”, frisou Messias.
Devolução
Nesta terça-feira (3), a pedido da Advocacia-Geral da União (AGU), a
Justiça Federal determinou o bloqueio de R$ 119 milhões em bens de
empresas e pessoas físicas investigadas no esquema de fraudes contra
aposentados e pensionistas do INSS.
A decisão é decorrência de cinco ações judiciais apresentadas pelo
governo para garantir a devolução dos valores indevidamente desviados
dos benefícios entre 2019 e 2024.
No entanto, o governo já deixou claro que não aguardará a devolução de
todos os valores desviados e que o ressarcimento das vítimas será feito
com recursos da União.
Também nesta terça-feira (3), o presidente Lula afirmou que “na questão
do INSS, detectamos um desvio e podíamos ter feito um show de
pirotecnia, que vira manchete, depois todo mundo esquece e o roubo
continua. Mas fizemos o que um governo sério faz: colocamos a Polícia
Federal, a CGU, para fazer uma investigação a fundo e chegar nos
culpados, que vão ser punidos”. .Ele acrescentou que “os aposentados
não podem ser punidos” e “vão receber o dinheiro de volta o mais rápido
possível”.
Fonte: Vermelho

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