Lula ergue bandeira da justiça tributária e cobra Congresso: taxação dos super-ricos
Na Bahia, presidente defende taxação dos super-ricos, denuncia
pressão do sistema financeiro e diz que só consegue governar
recorrendo ao STF
por Cezar Xavier
Publicado 02/07/2025 15:34 | Editado 02/07/2025 15:53
02.07.2025 – Caminhada do Dois de Julho – Presidente da República, Luiz
Inácio Lula da Silva, durante Caminhada do Dois de Julho. Salvador – BA
Foto: Ricardo Stuckert / PR
Em entrevista à TV Bahia nesta quarta-feira (2), o presidente Luiz
Inácio Lula da Silva fez duras críticas à derrubada, pelo Congresso
Nacional, do decreto que reajustava alíquotas do IOF (Imposto sobre
Operações Financeiras). Diante da população nas ruas de Salvador,
que celebrava os 202 anos da Independência da Bahia, Lula dobrou a
aposta política: empunhou uma placa pedindo a “taxação dos super-
ricos”, denunciou a força do lobby financeiro no Congresso e
reafirmou a necessidade de recorrer ao Supremo Tribunal Federal
(STF) para garantir governabilidade.
“Se eu não entrar com recurso no Poder Judiciário, se eu não for à
Suprema Corte… ou seja, eu não governo mais o país, cara. Cada
macaco no seu galho. O Congresso legisla, eu governo.”
Lula responsabilizou diretamente Hugo Motta (Republicanos-PB),
presidente da Comissão Mista de Orçamento, e o senador Davi
Alcolumbre (União-AP) pelo “rompimento de um acordo” feito com o
governo. Segundo ele, havia um entendimento firmado entre líderes e
ministros na noite de um domingo, que foi desrespeitado dois dias
depois, quando a pauta foi levada a voto e o decreto foi derrubado.
“Interesses de poucos prevaleceram”: Lula aponta golpe político
e projeta 2026
Para o presidente, a queda do decreto do IOF representa mais que
uma disputa fiscal — é uma ofensiva política, articulada por setores
conservadores com foco nas eleições de 2026.
“O dado concreto é que os interesses de poucos prevaleceram dentro
da Câmara e do Senado, o que eu acho um absurdo.”
Lula acusou a pressão das bets, fintechs e bancos de influenciar a
derrubada de uma medida que, segundo ele, fazia parte do esforço
por justiça tributária, equilíbrio fiscal e correção de distorções.
“Não podemos permitir que quem lucra milhões sem pagar imposto
continue se beneficiando. Queremos que os bilionários, e não os
trabalhadores, arquem com a conta.”
Foto com placa viraliza: “Mais justiça tributária e menos
desigualdade”
Logo após a entrevista, Lula participou do cortejo do 2 de Julho,
ladeado pela primeira-dama Janja Lula da Silva e pelo governador
baiano Jerônimo Rodrigues (PT). Durante o desfile, o presidente
levantou uma placa pedindo a taxação dos super-ricos, sob aplausos
da multidão. A foto foi publicada nas redes sociais oficiais da
Presidência com a legenda:
“Mais justiça tributária e menos desigualdade. É sobre isso.”
O gesto foi interpretado como uma resposta simbólica e direta ao
Centrão, em meio ao embate institucional sobre o papel do Executivo
na definição de políticas tributárias.
Lula nega ruptura com Congresso, mas promete cobrar líderes
Apesar do embate, Lula negou rompimento com o Congresso e
afirmou que pretende conversar com Hugo Motta e Davi Alcolumbre
após sua viagem à Argentina, onde participará da cúpula do Mercosul.
“Quando eu voltar, vou conversar tranquilamente com o Hugo Motta,
com o Davi Alcolumbre, e vamos voltar à normalidade política.”
Mesmo assim, o presidente foi categórico ao afirmar que não aceita
ser colocado de lado nas decisões de governo:
“Eles têm os direitos deles, eu tenho os meus. E se os dois não se
entenderem, a Justiça resolve.”
Governo enfrenta Congresso fragmentado e mais autônomo
A crise exposta por Lula revela um novo equilíbrio de forças no
Congresso, onde deputados e senadores atuam de forma cada vez
mais independente — inclusive dos presidentes das Casas. O episódio
do IOF expôs um Parlamento com maior autonomia individual,
favorecido pelas emendas orçamentárias impositivas, o que dificulta
articulações centralizadas do Executivo.
Apesar da promessa de diálogo, Lula sinalizou que não recuará de
sua agenda de justiça fiscal. O embate com o Congresso,
especialmente diante do crescimento da influência de setores
financeiros, aponta para um conflito de longo prazo, com impacto
direto na execução do arcabouço fiscal e no próprio rumo do
governo.
“Se é pra escolher um lado, eu escolho o povo. E quem quer especular
com o Brasil, que vá prestar contas à democracia.”
Fonte: Vermelho

