Lula condena ameaça de Trump ao Brics: “Não queremos imperador”
O norte-americano tenta impedir aproximações com o bloco,
ameaçando impor tarifas. O presidente brasileiro considera a atitude
pouco responsável e nada séria
por Murilo da Silva
Publicado 07/07/2025 18:01 | Editado 07/07/2025 18:05
Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante declaração à
imprensa, na Sala de Coletiva. Rio de Janeiro – RJ. Foto: Ricardo Stuckert / PR
O presidente Lula rebateu, nesta segunda-feira (7), a ameaça de
Donald Trump de re taliar com tarifas os países que aderirem às
políticas “antiamericanas” do Brics , como classificou o presidente dos
Estados Unidos.
Em coletiva de imprensa após o encerramento da Cúpula do Brics, no
Rio de Janeiro (RJ), Lula disse que nem deveria comentar, pois
classifica a postura de Trump pouco responsável e nada séria. Além
disso, ressaltou que os países do grupo, assim como o resto do
mundo, não precisam de um “imperador” e têm o direito à
reciprocidade nas medidas.
“Eu sinceramente nem acho que deveria comentar, porque eu não
acho uma coisa muito responsável e séria um presidente da república
de um país do tamanho dos Estados Unidos ficar ameaçando o
mundo através da internet. Não é correto. O mundo mudou: não
queremos imperador. Nós somos países soberanos. Se ele achar que
pode taxar, os países têm o direito de taxar também. Existe a lei da
reciprocidade. Sinceramente, tem outras coisas e outros fóruns para
falar com outros países. As pessoas têm que aprender que respeito é
bom. Respeito é muito bom. A gente gosta de dar e gosta de receber”,
afirma Lula.
Ao ser questionado sobre a defesa que o mandatário norte-
americano fez do ex-presidente Jair Bolsonaro, Lula disse que o Brasil
“tem lei, tem regra e tem um dono chamado povo brasileiro,
portanto, dê palpite nos assuntos do seu país e não do nosso”,
rebate.
Sobre a repercussão do tema tarifário dentro da Cúpula, o presidente
fez a indicação de que ninguém tocou no assunto: “Não demos
nenhuma importância a isso.”
Transação em moedas locais
Quando questionado sobre o avanço no debate sobre transação
entre os países do grupo nas suas próprias moedas, deixando o dólar
de lado, Lula afirma que este é um caminho sem volta.
“O mundo precisa encontrar um jeito para que a nossa relação
comercial não precise passar pelo dólar. Quando for com os Estados
Unidos ela passa pelo dólar. Mas quando for com a Argentina, com a
China, com a Índia, não precisa passar. Quando for com a Europa
discute-se em Euro. […] E, obviamente, nós temos toda a
responsabilidade de fazer isso com muito cuidado, com a participação
dos Bancos Centrais. É uma coisa que não tem volta. Isso vai
acontecendo aos poucos até que seja consolidado”, sublinha.
IOF
Também foi perguntado sobre a questão do IOF (Imposto sobre
Operações Financeiras). O presidente brasileiro classifica a atuação
do Congresso como “totalmente anticonstitucional” ao barrar um
decreto do Executivo, e citou exemplos de outros governos em que
medidas similares não foram questionadas.
Apesar do embate, entende que é uma “divergência política própria
da democracia” e que pretende resolver o tema ao buscar um
consenso durante a semana.
Brics e uma nova abordagem ao multilateralismo
Antes das perguntas dos jornalistas, Lula fez um balanço da reunião
do Brics. De acordo com o presidente, o encontro foi um dos mais
significativos, assim como o realizado no âmbito do G20 , também no
Rio de Janeiro, em novembro de 2024.
Em sua avaliação, o bloco oferece uma nova abordagem para o
multilateralismo internacional: “Temos a convicção de que não
queremos mais um mundo tutelado. Não queremos mais Guerra Fria
ou o desrespeito à soberania. Não queremos mais guerra e, por isso,
estamos discutindo profundamente a necessidade de mudanças
estruturais, inclusive no Estatuto da ONU, para recriar algo com base
nos acontecimentos atuais, e não nos de 1945. Aquele mundo ficou
para trás. Os saudosistas do fascismo e do nazismo não estão no
Brics. No grupo buscamos fortalecer o processo democrático, o
multilateralismo, a paz, o desenvolvimento e a participação social.”
O líder brasileiro inclusive reforça o pedido de mudanças no Fundo
Monetário Internacional (FMI) como forma de refletir o desejo por um
banco de investimento que atenda às necessidades dos países mais
pobres, sem levá-los à falência, como tem acontecido: “O modelo de
austeridade faz com que as dívidas sejam impagáveis”, alerta.
“Guerra contra o Hamas e só matam inocentes, mulheres e
crianças?”
Lula ainda destaca que, no marco dos 80 anos da Segunda Guerra
Mundial, período após o qual os organismos internacionais foram
criados, é preciso reforçar o multilateralismo e não o destruir, em um
mundo novamente em convulsão.
“Estamos vivendo hoje, possivelmente, depois da Segunda Guerra
Mundial, o maior período de conflito entre os países. É guerra
esparramada para tudo quanto é lado. E o mais grave é que os países
do Conselho de Segurança da ONU, que deveriam ser o paradigma
para tentar evitar essas guerras, são eles os promotores”, critica.
Ao abordar todos os conflitos em curso, o presidente reiterou as
críticas ao que acontece em Gaza: “Dizer que aquilo é uma guerra
contra o Hamas e só matam inocentes, mulheres e crianças? E cadê a
instituição multilateral para colocar um fim nisso? Não existe! A ONU
deveria estar condenando, mas a ONU não pode condenar, porque
ela está envolvida nisso. Quando eu digo a ONU, é porque tem países
no Conselho de Segurança envolvidos nisso, excluindo a China, mas o
restante está envolvido, tanto da Europa quanto os Estados Unidos”,
explica Lula, ao indicar o motivo de não haver uma interlocução para
uma proposta alternativa ao que temos, o que evidencia a
necessidade de fortalecimento do grupo por este contexto.
“Brics não nasceu para afrontar ninguém”
Na fala, o presidente também defende mudanças na governança
mundial para que represente de forma equitativa países de todas as
regiões do mundo.
“O Brics, que não nasceu para afrontar ninguém, é um novo modo de
fazer política. Uma coisa mais solidária. Em que o banco esteja muito
mais preocupado em ajudar os países em desenvolvimento a se
desenvolver. E que na questão ambiental a gente tenha consciência
de que a questão do clima é muito séria”, menciona Lula ao
rememorar os desastres no Rio Grande do Sul e o mais recente no
Texas, nos Estados Unidos.
Nesse ponto, Lula acentua a força do grupo enquanto promotor de
uma nova realidade: “É um modelo novo, uma abordagem nova, algo
que trata com muito mais cuidado, não é uma coisa fechada, não é
um clube de privilegiados, é um conjunto de países querendo criar
um outro jeito de organizar o mundo, do ponto de vista econômico,
do ponto de vista do desenvolvimento, do ponto de vista da relação
humana.”
Ao finalizar a exposição sobre o encontro, ressaltou sua alegria
porque “o Brics está se tornando campeão do mundo em políticas
ambientais, de inteligência artificial, de desenvolvimento e
envolvimento da sociedade no debate.”
Fonte: Vermelho

