Antes de Trump, Bolsonaro buscou outros apoios na extrema direita internacional
Ex-presidente brasileiro tinha documento pronto para pedir asilo
político ao presidente da Argentina, Javier Milei em 2024. Dois dias
após salvar o arquivo em seu celular, Bolsonaro se hospedou por dois
dias na Embaixada da Hungria em Brasília.
por André Cintra
Publicado 21/08/2025 16:03 | Editado 21/08/2025 16:07
A revelação de que Jair Bolsonaro (PL) planejou um pedido de asilo
político ao presidente da Argentina, Javier Milei, é a mais grave das
acusações feitas nesta quarta-feira (20) pela Polícia Federal (PF) contra
o ex-presidente brasileiro. O documento de 33 páginas que detalha o
plano foi encontrado num dos telefones celulares apreendidos numa
operação da própria PF.
“De início, devo dizer que sou, em meu país de origem, perseguido
por motivos e por delitos essencialmente políticos. No âmbito de tal
perseguição, recentemente, fui alvo de diversas medidas cautelares”,
registrou Bolsonaro.
Escrito em primeira pessoa, o texto não é assinado nem contém data,
mas apresenta a narrativa de Bolsonaro. Tanto a linguagem jurídica
quanto a abundância de expressões formais sugerem tratar-se para
um requerimento avançado, que atendesse aos pré-requisitos para o
asilamento.
De acordo com a Polícia Federal, “seu teor revela que o réu, desde a
deflagração da operação Tempus Veritatis, planejou atos para fugir
do país, com o objetivo de impedir a aplicação de lei penal”. O
governo argentino negou ter recebido qualquer solicitação do gênero.
Porém, o destinatário explícito da carta era Javier Milei, que estava à
frente da Casa Rosada havia apenas 50 dias, conforme este trecho
divulgado à imprensa:
“Eu, Jair Messias Bolsonaro, solicito à Vossa Excelência asilo político na
República da Argentina, em regime de urgência, por eu me encontrar na
situação de perseguido político no Brasil, por temer por minha vida,
vindo a sofrer novo atentado político, uma vez que não possuo hoje a
proteção necessária que se deve dar a um ex-chefe de Estado, bem como
por estar na iminência de ter minha prisão decretada, de forma injusta,
ilegal, arbitrária e inconstitucional pelas próprias autoridades públicas
que promovem a perseguição contra mim, diretamente da mais alta
Corte do Poder Judiciário brasileiro, e por preencher todos os requisitos
legais, conforme exaustivamente demonstrado ao longo desse
requerimento.”
Segundo a PF, o longo documento foi criado por Fernanda Bolsonaro,
nora do ex-presidente e esposa do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
Não se sabe se Fernanda é a autora do texto ou se o arquivo foi
apenas salvo originalmente em um dispositivo da nora.
A PF diz não ter dúvidas do objetivo de Bolsonaro. Na visão do órgão,
o documento “viabilizaria sua evasão do Brasil em direção à República
Argentina, notadamente após a deflagração de investigação pela
Polícia Federal com a identificação de materialidade e autoridade
delitiva quanto aos crimes de abolição violenta do Estado
Democrático de Direito por organização criminosa”.
Bolsonaro baixou o arquivo em seu próprio celular em 10 de fevereiro
de 2024. Na ocasião, o bolsonarismo não contava com o apoio da
Casa Branca, já que Joe Biden era o presidente dos Estados Unidos e
mantinha sólidas relações institucionais e diplomáticas com o
governo Lula.
Ainda sem Donald Trump para bancar seus ataques contra o Brasil,
Bolsonaro buscou outros aliados na extrema direita internacional. Ele
esteve presente na posse presidencial de Milei, numa cerimônia na
capital Buenos Aires, em 10 de dezembro de 2023. O pedido de asilo
ficaria pronto dois meses depois.
Enquanto cogitava essa possibilidade, com a minuta do documento
adiantada, Bolsonaro fez sua controversa estada de dois dias – entre
12 e 14 de fevereiro de 2024 – na Embaixada da Hungria, em Brasília.
A informação veio a público mais de um mês depois, em 25 de março,
numa matéria exclusiva do jornal norte-americano The New York
Times (NYT).
Como seus passaportes estavam confiscados em virtude de uma
operação da PF, Bolsonaro tentou apoio do primeiro-ministro
húngaro, Viktor Orbán. Conforme o NYT, sobressaia a “aparente
tentativa de pedir asilo político”. O ministro Alexandre de Moraes, do
Supremo Tribunal Federal (STF), chegou a afirmar, à época, que aDefinir imagem destacada
permanência de Bolsonaro na embaixada não configurava
“desrespeito às medidas cautelares”, como a proibição de sair do
Brasil.
Desta vez, porém, a situação se complicou para o ex-presidente.
Moraes deu um prazo de 48 horas para a defesa de Bolsonaro prestar
esclarecimentos sobre o pedido de asilo. A decisão do ministro
menciona os “os reiterados descumprimentos das medidas cautelares
impostas, a reiteração das condutas ilícitas e a existência de
comprovado risco de fuga.”
Até o momento, não se sabe se outros chefes de Estado
ultradireitistas, como a primeira-ministra da Itália, Giorgia Meloni, e o
presidente de El Salvador, Nayib Bukele, foram acionados pelo ex-
presidente do Brasil. Mas está clara a estratégia bolsonarista de
privilegiar líderes com afinidade ideológica para se socorrer. Por ora,
os efeitos dessas manobras têm sido extremante desfavoráveis para
Bolsonaro.
Fonte: Vermelho

