Após insuflar guerra, EUA podem abandonar Otan e Ucrânia à própria sorte

Secretário de Defesa dos EUA descarta Ucrânia na Otan e diz que país
não recuperará fronteiras pré-2014. Pressão por mais gastos militares

gera tensão entre aliados do bloco

por  Lucas Toth

Os Estados Unidos sinalizaram um afastamento progressivo da guerra
na Ucrânia e cobraram dos aliados europeus um maior protagonismo na
segurança do continente, pondo em xeque a unidade da Otan
(Organização do Tratado do Atlântico Norte).
Em declaração em encontro da aliança, nesta quarta (12), em Bruxelas,
o secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth, afirmou que a Ucrânia
não voltará às fronteiras pré-2014 e descartou a adesão do país à Otan.
A declaração provocou reações da aliança militar ocidental, que busca
conter os impactos do recuo americano enquanto a Europa se vê
pressionada a assumir maiores responsabilidades.
Durante reunião do Grupo de Contato para a Defesa da Ucrânia, uma
aliança de 57 países que enviam ajuda militar à Ucrânia, Hegseth
reiterou a necessidade de um cessar-fogo e defendeu que a Europa
assuma a liderança na proteção do continente.
“Como os Estados Unidos priorizam sua atenção para outras ameaças,
os aliados europeus devem liderar na linha de frente”, disse. Ele ainda
sugeriu que, caso tropas fossem enviadas à Ucrânia como “forças de
paz”, deveriam atuar fora do escopo da aliança e sem cobertura do Artigo
5º, que estabelece a defesa coletiva da aliança.
Além disso, o secretário afirmou que “retornar às fronteiras pré-2014 é
um objetivo irrealista” e que perseguir essa meta apenas prolonga o
conflito. A sinalização de que Washington não irá garantir a recuperação
territorial plena da Ucrânia representa uma mudança significativa na
posição oficial americana.
Otan reage ao discurso americano
O Secretário-Geral da Otan, Mark Rutte, buscou minimizar os impactos
da declaração e reforçar o compromisso da aliança. “Se Putin atacar a
OTAN, a reação será devastadora”, afirmou, em uma coletiva de
imprensa antes da reunião dos ministros da Defesa do bloco.
Rutte também enfatizou que os países europeus já financiam a maior
parte do apoio militar à Ucrânia e que a aliança seguiria garantindo
assistência ao governo de Kiev. “Os aliados não só cumpriram seus
compromissos, como os superaram. Fornecemos mais de 50 bilhões de
euros em 2024, com mais da metade vindo da Europa e do Canadá”.
A declaração de Hegseth, no entanto, amplia as pressões para que os
europeus aumentem seus orçamentos militares. O próprio secretário de
Defesa dos EUA mencionou que os países da OTAN deveriam elevar os
gastos com defesa de 2% para 5% do PIB, um pedido alinhado às
demandas de Donald Trump.

“Parte disso é falar francamente com seus cidadãos sobre como essa
ameaça só pode ser enfrentada com mais investimentos em defesa. 2%
não é suficiente; o presidente Trump pediu 5%, e eu concordo. Aumentar
seu compromisso com sua própria segurança é um investimento para o
futuro. Um investimento, como você disse, senhor secretário, em paz por
meio da força”, afirmou o secretário de Defesa norte-americano, em
pressão explícita aos países da Otan.
Trump, Putin e Zelensky: o novo jogo diplomático
As declarações de Hegseth ocorreram em meio a um telefonema entre
Trump e o presidente russo, Vladimir Putin. Os dois conversaram na
manhã desta quarta por 90 minutos e concordaram em iniciar
negociações para um cessar-fogo.
“Putin quer paz, Zelensky quer paz e eu quero paz”, disse Trump após a
ligação.
A conversacão gerou reações na Ucrânia, já que Trump contatou Putin
antes de se comunicar com o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky.
Em resposta, Zelensky reafirmou que não aceitará negociações que
excluam a Ucrânia. “Não há negociações sobre a Ucrânia sem a
Ucrânia”, disse. A Europa também se manifestou, com Reino Unido,
França e Alemanha exigindo participar de qualquer acordo futuro.
O contato entre Trump e Putin também gerou especulações sobre os
termos de um possível acordo. A administração Trump tem sugerido um
compromisso econômico entre EUA e Ucrânia, envolvendo a exploração
de recursos minerais ucranianos como garantias para continuar
recebendo apoio financeiro americano.
Recuo dos EUA enfraquece Otan?
A postura norte-americana coloca um dilema para a Otan: sem a
presença estratégica dos EUA, a Europa precisará lidar sozinha com os
desdobramentos da guerra. Isso pode significar um rearmamento
europeu independente, levando a um fortalecimento de blocos militares
locais e possivelmente a uma nova dinâmica de alianças.
Trump, ao pressionar os europeus a arcarem com mais custos e
enfraquecer o compromisso americano com a Otan, pode criar um vácuo
de poder que não necessariamente levará à dissolução da aliança, mas
sim a um novo equilíbrio de forças dentro dela. O afastamento dos EUA
pode ser lido tanto como um passo em direção à autonomia europeia
quanto como um risco de militarização crescente no continente.

Por outro lado, a aproximação de Trump com Putin levanta questões
sobre a real intencionalidade do ex-presidente americano. O recuo dos
EUA é um passo em direção à desestabilização da OTAN ou apenas um
movimento pragmático para reduzir custos e evitar desgastes internos?
O futuro da guerra e da Otan dependerá das próximas decisões dos
aliados europeus e da capacidade da Ucrânia de se manter relevante
nas negociações sem a presença garantida dos Estados Unidos como
principal fiador de sua defesa.

Fonte: Vermelho

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