China se protege de tarifaço de Trump e lidera contraofensiva global
Enquanto EUA isolam aliados e pressionam o comércio internacional,
Pequim reage com retaliações, apoio interno e articulação multilateral, por Cezar Xavier.
Publicado 09/04/2025 19:04 | Editado 09/04/2025 19:42
Presidente chinês Xi Jinping. Foto: Xinhua/Xie Huanchi
A decisão do presidente dos EUA, Donald Trump, de aumentar para
125% as tarifas de importação sobre produtos chineses é a mais recente
escalada da guerra comercial. Mas, diferentemente de rodadas
anteriores de embates tarifários, a China parece estar mais protegida e
pronta para o confronto — econômica, politicamente e diplomaticamente.
Tanto, que o próprio Trump admite voltar atrás também com a China,
após muitas bravatas agressivas contra o gigante asiático. “Nada está
terminado. A China quer fazer acordo, mas não sabe como fazer. São
orgulhosos, Xi (Jinping) é orgulhoso”, disse Trump. “Acordos podem ser
feitos com todos. Será feito com China. Só quero acordos justos. Mas
eles não estavam sendo justos”, afirmou. Trump tentou acalmar os
mercados e os americanos com um tom mais ameno. “Vai funcionar,
fiquem tranquilos”, disse.
Leia também: Tarifas de Trump entram em vigor e China reage com
retaliação histórica
Trump não aguenta pressão de mercados e recua de tarifas
A nova rodada de tarifas se dá após uma série de provocações do norte-
americano. Desde o início de abril, Trump iniciou um tarifaço global,
atingindo 180 países. A China, em resposta, aumentou para 84% as
tarifas sobre produtos americanos e anunciou sanções a empresas dos
EUA, enquanto formalizava uma queixa na Organização Mundial do
Comércio (OMC).
Mesmo com o impacto potencial sobre o comércio global, analistas
chineses e autoridades de Pequim veem a nova ofensiva de Trump mais
como um sinal de desespero político do que de força econômica.
China reforça papel de liderança global
Com retórica firme e medidas concretas, a China transforma a crise em
oportunidade para se afirmar como alternativa à hegemonia norte-
americana. A resposta imediata de Pequim envolveu:
Inclusão de empresas dos EUA em lista de entidades “não
confiáveis”;
Reforço da retórica diplomática contra o “bullying comercial”;
Publicação de um “white paper” explicando sua posição e
reafirmando compromisso com o comércio justo.
A mídia chinesa tem promovido uma imagem de resiliência e
mobilização, contrastando com a instabilidade gerada pelas decisões
unilaterais dos EUA. O editorial do People’s Daily acusou Trump de
transformar o “America First” em “America Only”.
Uma economia blindada por estímulos internos e alianças regionais
Pequim vem adotando medidas estruturais para mitigar os impactos da
guerra comercial desde 2023. Entre elas estão:
Política de estímulo ao consumo interno, que inclui cortes de
juros e incentivo à demanda doméstica;
Apoio estatal ao mercado financeiro, com compras de ações
coordenadas por estatais;
Integração regional, via iniciativas como a Nova Rota da Seda e
acordos comerciais com países do Sudeste Asiático, que também
foram alvo das tarifas dos EUA.
Além disso, a China busca se apresentar como a defensora do
multilateralismo em um momento de crescente unilateralismo norte-
americano. O presidente Xi Jinping tem reforçado o discurso de uma
“comunidade de futuro compartilhado”, cativando países que sofrem com
o isolacionismo dos EUA.
“Os Estados Unidos ainda estão impondo tarifas e exercendo pressão
máxima sobre a China, que se opõe firmemente a isso e nunca aceitará
tal intimidação”, disse um porta-voz do Ministério das Relações
Exteriores da China na quarta-feira, 9 de abril.
O porta-voz Lin Jian fez as observações em uma coletiva de imprensa
diária em resposta a um pedido de comentários sobre o anúncio de que
os EUA imporiam uma tarifa de 104% sobre os produtos chineses.
Lin observou que o direito legítimo do povo chinês ao desenvolvimento
não pode ser privado e que são invioláveis a soberania, a segurança e os
interesses de desenvolvimento da China. A China continuará a tomar
medidas resolutas e vigorosas para salvaguardar seus direitos e
interesses legítimos.
“Se os EUA realmente buscam resolver a questão por meio do diálogo e
da negociação, devem demonstrar uma atitude de igualdade, respeito e
reciprocidade”, acrescentou Lin.
“Se os EUA insistirem em travar uma guerra tarifária ou comercial, a
China está pronta para lutar até o fim”, disse Lin.
Guerra comercial expõe fragilidade e isolamento dos EUA
O próprio governo norte-americano se vê cada vez mais isolado na arena
internacional. Tentativas de negociar com aliados como a União Europeia
têm fracassado.
Segundo o The Economist, delegações internacionais saem frustradas
de reuniões em Washington por falta de interlocutores com autoridade
para tratar dos impactos do tarifaço. Mais de 70 países já procuraram os
EUA pedindo exceções às tarifas — sem resposta.
Mesmo aliados tradicionais agora reavaliam suas relações comerciais
com Washington, temendo a instabilidade gerada pelo protecionismo
impulsivo de Trump.
Multipolaridade econômica e nova ordem internacional
O contexto atual marca um ponto de inflexão histórico no comércio
global. A ofensiva tarifária de Trump é considerada a medida mais
disruptiva desde a Grande Depressão. Mas, ao contrário dos anos 1930,
a China aparece hoje como potência econômica capaz de liderar uma
reação coordenada.
A resposta chinesa não é apenas defensiva: ela aponta para um projeto
de nova ordem econômica multipolar, onde os Estados não dependam
da boa vontade dos EUA para prosperar. O “America First” de Trump
pode estar acelerando exatamente o que pretende evitar: o declínio da
liderança econômica americana.
Como afirma o white paper do governo chinês:
“A única saída racional é o retorno ao diálogo com base em igualdade,
respeito mútuo e ganhos recíprocos.”
Diante disso, Pequim parece cada vez menos vulnerável e mais pronta
para disputar protagonismo em um mundo que já não aceita imposições
unilaterais.
Fonte: Vermelho

