Delação de Cid expõe golpe e detalha outros crimes de Bolsonaro
Sigilo da delação premiada de Mauro Cid, ex-ajudante de ordens de
Bolsonaro, foi derrubado pelo ministro Alexandre de Moraes
por Murilo da Silva
Na delação premiada feita à Justiça, o tenente-coronel Mauro Cid, que
ocupou o posto de ajudante de ordens do ex-presidente Jair Bolsonaro,
revelou os caminhos da trama golpista idealizada dentro do Palácio do
Planalto, além de outros crimes.
As informações vieram a público nesta quarta (19) com a derrubada do
sigilo do depoimento de delação premiada firmado por Cid. O ministro do
STF (Supremo Tribunal Federal) Alexandre de Moraes foi quem tirou o
sigilo, pois entende que não existe mais necessidade com a denúncia da
Procuradoria-Geral da República (PGR) contra Jair Bolsonaro (PL) e
outras 33 pessoas .
O depoimento segue as linhas de investigações no STF do inquérito
4874 , conhecido como inquérito das milícias digitais antidemocráticas,
que trata de:
ataques virtuais a opositores;
ataques às instituições (STF, TSE), ao sistema eletrônico de
votação e à higidez do processo eleitoral;
tentativa de golpe de Estado e de abolição violenta do Estado
Democrático de Direito;
ataques às vacinas contra a Covid-19 e às medidas sanitárias na
pandemia;
uso da estrutura do Estado para obtenção de vantagens (uso de
cartões corporativos para pagamento de despesas
pessoais/inserção de dados falsos de vacinação contra a Covid-19
no sistema do Ministério da Saúde/ desvio de bens de alto valor
patrimonial entregues por autoridades estrangeiras).
Organização de golpe
De acordo com a delação, o então assessor especial da presidência
Filipe Garcia Martins foi quem rascunhou e entregou a Bolsonaro a
“chamada minuta do golpe”. Conforme explicou Cid, o ex-presidente
ainda recebia os comandantes das Forças Armadas para aderir à trama.
O ex-ajudante de ordens, ao expor a organização de um golpe de Estado
depois que Lula venceu as eleições, afirmou ainda que os coronéis “de
Oliveira” e “Ferreira Lima” o procuraram sob o indicativo de que
precisavam fazer algo para não entregar o posto ao presidente eleito.
Nestes encontros, em 9 e 11 de novembro de 2022, já estava germinado
o plano “Punhal Verde e Amarelo” – para assassinar autoridades, dentre
elas Lula e Moraes.
Nos dias seguintes, ocorreu uma reunião na casa do general Braga
Netto, candidato a vice-presidente derrotado na chapa de Bolsonaro. Os
envolvidos pregavam “mobilização de massa” com a finalidade de
convencer o Exército a aderir.
O tom da conversa era sobre promover uma situação que
desencadeasse uma reação de Bolsonaro, por exemplo, a assinatura de
alguma medida golpista, como estado de sítio.
No entanto, Braga Netto pediu para que Cid se retirasse naquele
momento, pois ele era próximo demais de Bolsonaro para ser implicado,
uma vez que os golpistas queriam provocar a reação do então
presidente.
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denúncias contra 23 militares
Este depoimento se soma ao fato de que militares pediram a Cid R$ 100
mil, que ele acredita ser para a execução do plano Punhal Verde
Amarelo, organizado dentro do grupo chamado “Copa 2022″. Ele não
conseguiu os valores, mas Braga Netto teria conseguido com “o pessoal
do agro” e repassado o dinheiro em espécie para o tenente-coronel
Rafael de Oliveira.
Na denúncia apresentada pela PGR, é ressaltado que Bolsonaro sabia e
concordou com plano para matar Lula, Alckmin e Moraes.
Em parte dos depoimentos, Cid também afirmou que Jair Bolsonaro
solicitou que Alexandre de Moraes fosse monitorado pela chamada “Abin
Paralela”. O ex-presidente queria saber se o ministro se encontrava com
o então vice-presidente general Mourão.
Bolsonaro também determinou que os comandantes das Forças
Armadas divulgassem nota em garantia da presença de pessoas nos
acampamentos golpistas em frentes aos quartéis. A medida tinha como
intenção manter os seus apoiadores mobilizados para qualquer ação que
ele pudesse ter.
Motociatas
Na delação, Cid apontou que as motociatas promovidas por
Bolsonaro eram bancadas, em partes, com o cartão corporativo do
Gabinete de Segurança Institucional (GSI), então comandado pelo
general Augusto Heleno. Com o cartão foram compradas motos para
acompanhar Bolsonaro, além de custear o transporte das mesmas pelo
país, pagar gastos de hospedagem e de alimentação dos servidores que
acompanharam as motociatas.
Cid ainda falou realizava pagamentos na conta de Bolsonaro e depósitos
determinados por assessores de Michelle Bolsonaro.
Vacina
Na delação, Cid informou que Bolsonaro ordenou a inserção de dados
falsos na sua caderneta de vacinação contra a covid-19, assim como na
da sua filha. A finalidade era ter o cartão preenchido para qualquer
eventualidade, como no caso de viagens. Ele chegou a viajar para os
Estados Unidos, em 2022, época em que o país exigia vacinação para a
entrada. Não foi constatado se Bolsonaro se valeu do documento falso
ou se apenas utilizou o passaporte diplomático e ficou isento de mostrar
o cartão de vacina. Conforme apontou Cid, os certificados com dados
falsos foram entregues em mãos ao ex-presidente.
A investigação sobre a fraude nas vacinas, que também está do
depoimento de Cid, não faz parte da denúncia apresentada pela PGR no
STF. É possível que o procurador-geral Paulo Gonet, apresente o caso
em outra denúncia. A Polícia Federal já indiciou Bolsonaro sobre o caso
na Procuradoria.
Joias
Outra parte da delação se detém sobre as joias sauditas. Assim como na
fraude da vacinação, este ponto da delação não faz parte da denúncia
que Gonet apresentou, mas pode aparecer em futura representação
contra Bolsonaro.
Neste caso o ex-presidente também já foi indiciado e poderá ter, com
relatório da PF somado à delação de Cid, as provas suficientes para que
a Procuradoria apresente denúncia no STF.
Conforme Mauro Cid, ele mesmo entregou para Bolsonaro US$ 86 mil
oriundos de joias recebidas como presentes de chefe de Estado
oferecidos pela Arábia Saudita. Foram duas vendas nos Estados Unidos,
uma de relógios das marcas Rolex e Patek Philippe (US$ 68 mil) e outra
da venda de um kit de joias em ouro branco (US$ 18 mil). O dinheiro foi
entregue em espécie ao ex-presidente de forma parcelada, para que não
passasse pelo sistema bancário e nem levantasse suspeitas.
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força no Congresso
Bolsonaro quis o dinheiro, segundo Cid, para custear a condenação
judicial vencida pela deputada federal Maria do Rosário no valor de R$10
mil, como também gastos com mudança e transportes de acervo que
deveria arcar e por receber multas por andar sem capacete em
motociatas.
O que Cid ganha com a delação?
Com a delação homologada pelo STF, o tenente-coronel Mauro Cid
firmou um acordo para que ele possa chegar a receber:
Perdão judicial ou pena privativa de liberdade não superior a 2
anos;
Restituição de bens e valores apreendidos;
Extensão dos benefícios para pai, esposa e filha maior, no que for
compatível;
Ação da Polícia Federal visando garantir a segurança do
colaborador e respectivos familiares.
Como contrapartida o ex-ajudante de ordens se prestou a falar a verdade
sobre as investigações e os crimes que cometeu, assim como regras
impostas pelo judiciário.
O pedido para uma pena não superior a dois anos teve a finalidade de
que não fosse expulso do Exército – penas maiores que dois anos
culminam em expulsão e perda de patente. Cid ainda nutre a vontade de
ser passado para a reserva para manter o soldo e conquistar mais uma
promoção.
Já a extensão dos benefícios aos familiares visa proteger, entre outras
figuras, seu pai, o general Mauro Lourena Cid, envolvido na venda das
joias. Com a confirmação dos fatos narrados em delação, o tenente-
coronel poderá alcançar os benefícios solicitados.
Fonte: Vermelho

