Desconhecimento sobre ações e fake news impactam na avaliação do governo

Segundo pesquisa, 60% ignoram medidas do governo Lula, fator que,
junto com a máquina de desinformação da extrema direita, influencia

negativamente na percepção popular

por  Priscila Lobregatte

Publicado 05/06/2025 16:23 | Editado 05/06/2025 17:29

Foto: Ricardo Stuckert
A série de pesquisas da Quaest, divulgada nesta semana, reforça
importantes sinais de alerta (que não são novos) ao governo Lula. As
respostas dadas pelos entrevistados e a análise dos dados mostram um

descompasso entre a situação positiva vivida pelo país, de um lado, e a
piora na avaliação, de outro, bem como as razões para isso.
A explicação para esse cenário parece estar especialmente (mas não só)
no campo da comunicação, com elementos que vão desde o uso político
e enviesado de crises como a do INSS pela oposição bolsonarista nas
redes sociais até as dificuldades de comunicação existentes tanto por
parte do governo quanto do próprio presidente Lula.
Dentre os dados trazidos pelas pesquisas está a desaprovação de 57%
ao governo (eram 56% na pesquisa de março) contra 40% de aprovação
(eram 41% naquele mesmo mês).
Nesse universo, é importante salientar a análise feita por Felipe Nunes,
cientista político e CEO da Quaest: “Apesar da estabilidade nos números,
o contexto político mudou. O governo anunciou e começou a
implementar medidas que contam com 79% de aprovação entre quem as
conhece, mas cerca de 60% da população ainda desconhece essas
ações. Esse desequilíbrio entre a ação e percepção tem dificultado os
avanços na avaliação do governo”.
Para exemplificar, eis alguns dos temas que tiveram a melhor taxa de
sucesso, extraída da relação entre o percentual dos que ouviram falar e
dentre estes, os que aprovam determinadas medidas. Sobre os
benefícios e isenções para motoristas de aplicativos, 32% ouviram falar e
28% aprovam, uma taxa de sucesso dentre as mais altas, de 0,88.

Fonte: Quaest
A linha de crédito para reformas do Minha Casa, Minha Vida, por sua
vez, tem conhecimento de 40% e destes, aprovação de 35%, índice de
sucesso igual ao anterior. Já o novo Vale Gás é conhecido por 59% e,
nesse grupo, tem 49% de aprovação, taxa de sucesso de 0,8.
Esses casos, entre outros levantados pela pesquisa, indicam haver um
imenso universo de desconhecimento das ações por parte de pessoas
que, se souberem, certamente as aprovarão — mesmo considerando
que nem todas serão diretamente beneficiadas pela totalidade das
medidas.
Quanto à percepção sobre a economia, o índice melhorou bastante, mas
também há terreno a ser conquistado, já que não faltam marcadores
positivos, tais como o baixo desemprego e a evolução nos ganhos das
famílias. Conforme o levantamento, a avaliação de piora nesse campo
caiu de 56% para 48%.
Também melhorou a forma como as pessoas sentem a inflação em seu
dia a dia. A percepção da alta nos preços dos alimentos caiu de 88%

para 79%, assim como caiu de 70% para 54% o percentual dos que
apontam o preço da gasolina como um problema.
Na avaliação de Nunes, “o principal fator que explica essa contradição
entre melhora econômica parcial e alta desaprovação do governo Lula
tem a ver com o ambiente informacional. A quantidade de notícias
negativas sobre o governo foi mais do que o dobro das positivas no
período. E entre os temas negativos mais lembrados está o escândalo do
INSS”.
Quando questionados sobre se têm visto mais notícias positivas ou
negativas a respeito do governo, apenas 19% apontam a primeira
alternativa e 50%, a segunda. Outros 28% dizem não ter visto notícias.
Nesse ponto, fica patente que o governo, de fato, deve “se mostrar mais”
para a população, como também precisa reverter o bombardeio da
máquina da extrema direita, hábil em disseminar, de maneira rápida e
ampla, todo tipo de mentiras e manipulações com feições verossímeis.
Em pergunta estimulada sobre se o entrevistado tomou conhecimento
sobre as fraudes no INSS, 82% dizem que sim, enquanto 18% afirmaram
que não. Para 31%, o principal responsável é o governo; 14% indicam o
INSS e um considerável universo de 26% não soube ou não quis
responder. Com base nesses números, observou Nunes, “a repercussão
foi duas vezes maior que a das políticas públicas anunciadas”.
Arsenal bolsonarista
Se de um lado é verdade que questões como a inflação dos alimentos
pesaram no dia a dia da população, por outro também é fato que tudo o
que há de negativo é amplificado e o que é positivo é escondido ou
deturpado nas redes oposicionistas — com apoio, claro, de parte da
mídia. Nesse sentido, merece destaque conhecer o funcionamento da
engrenagem bolsonarista — o  Vermelho mostrou, aqui,  estudo que
evidencia como ela se estrutura.
Focando especificamente nas situações mais recentes que criaram maior
desgaste ao governo, vale destacar o escândalo do INSS, a inflação dos
alimentos e a “crise” do Pix — um típico caso de manipulação da
verdade.
No final de abril, a consultoria Palver apurou que postagens relativas à
fraude nas pensões e aposentadorias atingiram seu pico nos ambientes
virtuais bolsonaristas no dia 24 daquele mês, dia seguinte à deflagração
da Operação Sem Desconto, que descortinou o escândalo. Naquele
momento, 367 a cada 100 mil publicações em canais do Whats App e
Telegram mencionavam o assunto.

Conforme noticiou a coluna de Mônica Bergamo, na Folha de S.Paulo,
sobre o levantamento “em ao menos 80% dos conteúdos circula a frase
‘sindicato do irmão de Lula’. A segunda expressão mais recorrente é
‘Lula ladrão’”.
Em fevereiro, medição feita pela mesma consultoria havia detectado uma
mudança de foco em boa parte dos ataques da oposição nas redes. Os
assuntos favoritos deixaram de permear a pauta de costumes e
passaram a focar especialmente as questões de âmbito econômico, uma
clara escolha para desgastar uma área que vai bem.
Segundo dados dessa pesquisa, divulgada por O Globo, “no WhatsApp,
as ocorrências ligadas à pauta econômica (141) representam quase o
triplo (52) das discussões e críticas do campo conservador (52). A maior
diferença numérica, no entanto, aparece nas publicações do TikTok:
foram 1.337 referências à economia contra 657 à agenda de costumes, a
cada 100 mil posts”.
No universo econômico, os temas que mais engajavam naquele
momento eram a inflação, cujo pico foi de 1.337 menções no TikTok,
seguido pelo discurso falacioso em torno do Pix, com 1.150 na mesma
rede.
Reportagem do The Intercept divulgada nesta quinta (4) mostrou que a
extrema direita prepara-se para ir muito além desse ferramental.
Conforme relato do jornalista Sérgio de Souza, que participou do 2º
Seminário Nacional de Comunicação do PL de Bolsonaro, no dia 30, “as
big techs estavam ali em peso, abençoando o evento e compartilhando
com os participantes o ‘caminho das pedras’ para usar suas ferramentas
mais novas e poderosas”.
Um dos focos era aprofundar o uso da inteligência artificial — que, sem
regulação, é um prato cheio para manipulações perfeitas — e nada mais,
nada menos do que nomes da Meta (dona do Facebook, Instagram e
WhatsApp) e do Google foram chamados a palestrar. A situação é mais
uma a mostrar de que lado essas empresas (e seus algoritmos) estão.
Reflexos e desafios
Com tudo isso — e mais as dificuldades de comunicação do próprio
governo —, não se admira que a avaliação da atual gestão e do
presidente tenha ficado aquém do esperado, se refletindo, também nos
humores para 2026.
No caso da intenção de voto para as próximas eleições, ainda segundo a
Quaest, apesar de Lula ter empate técnico com alguns dos principais
postulantes da direita no segundo turno, ele ainda está percentualmente

à frente de Michelle Bolsonaro (43% a 39%) e dos governadores Tarcísio
de Freitas (41% a 40%), Ratinho Jr. (40% a 38%) e Eduardo Leite (44%
a 35%).
Num cenário remoto com Bolsonaro — já que o ex-presidente está
inelegível e prestes a ser punido pela tentativa de golpe —, o percentual
seria de 41% a 41%.
Reverter os impactos da nefasta máquina bolsonarista — que joga com
elementos antiéticos e conta com a ajuda dos algoritmos para disseminar
seus conteúdos mais amplamente — não é fácil, mas o governo tem
boas armas para lutar.
Além de avanços reais na economia e no âmbito social, tem o trunfo
chamado Lula. Segundo noticiado nesta quinta-feira (5) pela Folha de
S.Paulo, pesquisa encomendada pelo Palácio do Planalto mostra que a
grande maioria dos entrevistados quer ouvir mais o presidente.
“Na interpretação de assessores, o resultado sugere que as mensagens
do governo não têm chegado ao público e que haveria espaço para uma
ofensiva concentrada na figura de Lula”, diz a publicação.
Afinal, trata-se de um capital político e tanto. Não é qualquer líder político
que tem a força de Lula, que se elegeu três vezes e enfrentou a força do
antipetismo, os desvios e abusos da Lava Jato, uma prisão arbitrária e o
uso imoral da máquina pública pela extrema direita em 2022. Fortalecer
Lula agora, aproximá-lo ainda mais do povo e mostrar as conquistas de
seu governo é urgente para garantir sua quarta vitória em 2026.

Fonte: Vermelho

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