Diretora do Fed peita Trump e diz não reconhecer demissão

Primeira mulher negra a integrar o conselho do banco central por
escolha de Obama, Cook diz que presidente não tem autoridade para

afastá-la

por  Cezar Xavier

Publicado 26/08/2025 17:55 | Editado 27/08/2025 09:40

Lisa Cook ao lado do presidente do Fed, Jerome Powell
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tentou em vão
demitir, nesta segunda-feira (25), Lisa Cook, diretora do Federal
Reserve (Fed, o banco central norte-americano). O afastamento,
divulgado nas redes sociais e formalizado em carta enviada à
economista, foi justificado por supostas fraudes hipotecárias.
A medida, no entanto, foi imediatamente contestada por Cook, que
afirmou não reconhecer a decisão do presidente. “Não vou renunciar.
Continuarei a cumprir meus deveres para ajudar a economia
americana, como venho fazendo desde 2022”, declarou em nota
divulgada por meio de seu advogado.

Segundo a defesa, “não há motivo legal” para a demissão e todas as
medidas jurídicas cabíveis serão adotadas para barrar o afastamento,
classificado como ilegal e sem precedentes.
O próprio Federal Reserve indicou nesta terça-feira (26) que, até
decisão judicial em contrário, o status de Cook como diretora
permanece inalterado.
As acusações de Trump
Na carta enviada a Cook, Trump afirmou que utilizou o dispositivo da
lei de criação do Federal Reserve, que permite a demissão de
membros do conselho “por justa causa”. Ele alegou que a economista
teria declarado duas residências como principais para obter
condições de financiamento mais vantajosas, o que configuraria
fraude.
“À luz de sua conduta enganosa e potencialmente criminosa em um
assunto financeiro, eles não podem — e eu não posso — ter tal
confiança em sua integridade”, escreveu Trump. O caso foi
encaminhado ao Departamento de Justiça para investigação.
Em resposta, Lisa Cook disse ter tomado conhecimento das
acusações pela mídia e garantiu que vai apresentar documentos para
esclarecer seu histórico financeiro. “O presidente Trump alegou ter
me demitido ‘por justa causa’ quando não há justa causa prevista em
lei, e ele não tem autoridade para fazê-lo”, afirmou.
O problema da independência do banco central
A disputa deve seguir para os tribunais, que terão de avaliar se o
presidente tem autoridade para remover uma diretora do Fed sem
comprovação de falta grave.
Caso a decisão seja validada, Trump poderá abrir espaço para indicar
nomes mais alinhados à sua agenda econômica — especialmente
num momento em que tenta pressionar o banco central a reduzir
juros em meio às incertezas provocadas por sua própria política
comercial.

A iniciativa de Trump é considerada um ataque sem precedentes à
independência do Fed, uma das instituições mais poderosas da
economia global. Criado para atuar com autonomia em relação ao
governo, o banco central norte-americano tem seus diretores
nomeados para mandatos longos, a fim de blindar suas decisões das
pressões do Executivo.
Trump, que já vinha atacando o presidente do Fed, Jerome Powell — a
quem chamou de “burro” e “teimoso” —, pressiona a instituição a
cortar os juros. Na sua visão, as taxas deveriam estar “dois ou três
pontos abaixo” do nível atual.
A tentativa de intervir na composição do conselho ameaça a
credibilidade da política monetária dos EUA e pode desestabilizar os
mercados financeiros.
Quem é Lisa Cook
Indicada em 2022 pelo então presidente Joe Biden, Lisa Cook fez
história ao se tornar a primeira mulher negra no Conselho de
Governadores do Fed. Economista formada em Berkeley e Oxford,
lecionou na Universidade Estadual de Michigan e atuou no governo
de Barack Obama.
Com mandato até 2038, Cook se destacou por pesquisas sobre
desigualdade e desenvolvimento, além de sua participação em
debates sobre estabilidade financeira.
Lula x Campos Neto
No Brasil, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva também fez duras
críticas ao ex-presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto,
motivadas pela elevada taxa básica de juros, mas não chegou nem
perto de uma investida oficial contra o BC.
A nefasta autonomia do BC foi sancionada em 2021 pelo ex-
presidente Jair Bolsonaro, após aprovação no Congresso Nacional. A
lei estabeleceu mandatos de quatro anos para o presidente e os
diretores do BC, não coincidentes com o mandato presidencial.

Com isso, o Executivo perdeu a capacidade de comandar a política
monetária, que passou ao controle do sistema financeiro, que
pressiona por taxas de juros elevadas e lucrativas para
especuladores. A falta desse alinhamento com a política
macroeconômica elaborada pelo Ministério da Fazenda favorece o
endividamento público e a lucratividade do sistema financeiro, em
detrimento das políticas sociais do governo Lula.

Fonte: Vermelho

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