Irã aprova fechamento do Estreito de Ormuz, “artéria” do petróleo global

Parlamento iraniano responde aos ataques dos EUA com medida que
pode paralisar 20% do fluxo mundial de petróleo. Europa e mercados são
pressionados a se posicionar diante de nova escalada no Oriente Médio
por  Cezar Xavier

Publicado 23/06/2025 11:00 | Editado 23/06/2025 11:49

Navios da Guarda Revolucionária Islâmica no Golfo Pérsico em abril passado.
A crise no Oriente Médio atingiu um novo patamar de gravidade neste
domingo (22), após o Parlamento do Irã aprovar o fechamento do
Estreito de Ormuz — o gargalo marítimo por onde transita cerca de 20%
de todo o petróleo consumido no mundo. A decisão, ainda pendente de
confirmação pelo Conselho Supremo de Segurança Nacional e pelo líder
supremo, aiatolá Ali Khamenei, é uma retaliação direta aos bombardeios
norte-americanos contra três instalações nucleares iranianas no fim de
semana.
Embora o Irã já tenha ameaçado fechar o estreito em diversas ocasiões
anteriores, esta é a primeira vez que o Parlamento aprova formalmente
tal medida. O gesto foi lido por analistas como uma jogada geopolítica de
alto risco, que combina retaliação simbólica, pressão estratégica e uma
tentativa de forçar negociações globais, sobretudo com a Europa.
Um choque na economia global: petróleo em alta e incerteza nos
mercados
A simples ameaça de fechamento já foi suficiente para provocar
turbulência nos mercados de energia. O barril do tipo Brent saltou de
US$ 69,36 para US$ 77,01, um aumento de 11% desde o início dos
ataques. O WTI, referência nos EUA, teve alta semelhante. Analistas de
instituições como Goldman Sachs e JPMorgan alertam que o preço do
petróleo pode ultrapassar US$ 120 ou até US$ 130 por barril, caso o
estreito permaneça bloqueado.
Isso afetaria diretamente a Europa, a Ásia e países emergentes
importadores de energia. A alta dos combustíveis e a escassez de
suprimentos poderiam empurrar economias já fragilizadas à beira da
recessão. O próprio Irã, porém, também sofreria: suas exportações de
petróleo à China — principal destino — também dependem do Estreito
de Ormuz.
Pressão sobre a China e o dilema europeu
A China agora enfrenta pressões ocidentais para interceder junto ao
governo iraniano. O secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, apelou
diretamente à China para que impeça o fechamento da hidrovia.
Do outro lado, a Europa vê-se compelida a escolher entre o alinhamento
automático à estratégia belicista dos EUA e Israel — que bombardeiam
alvos iranianos — ou uma política externa mais independente, voltada à
diplomacia e à defesa do direito internacional. O temor de uma nova crise
energética, como a provocada pela guerra na Ucrânia, já acende alertas
em Berlim, Paris e Bruxelas.

Estreito sob risco: geografia estratégica e poder naval

Imagem de satélite do Estreito de Ormuz, um ponto estratégico de estrangulamento marítimo com o Irã situado no topo e a Ilha Qeshm e os Emirados Árabes Unidos ao sul. Foto de 24 de maio de 2017.
O Estreito de Ormuz, com apenas 33 km em seu ponto mais estreito, é
vital para a segurança energética mundial. Por ele fluem diariamente
entre 17 e 21 milhões de barris de petróleo e enormes volumes de gás
natural liquefeito. Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Kuwait,
Iraque, Irã e Catar utilizam o estreito para exportações — a maioria com
destino à Ásia.
A Quinta Frota da Marinha dos EUA, baseada no Bahrein, é responsável
pela segurança da navegação na região. Fontes militares revelaram que
o Pentágono discute possíveis respostas ao bloqueio, incluindo missões
de desminagem, uso de drones submarinos e envio de reforços navais.
Ainda assim, especialistas alertam que uma ação iraniana bem-sucedida,
mesmo que temporária, poderia paralisar o tráfego por semanas.

Mineração do estreito: risco calculado ou armadilha?
O Irã mantém capacidade naval significativa, incluindo minas navais de
diversos tipos — de contato, magnéticas e acústicas —, além de
submarinos e barcos de ataque rápido. Em 1988, durante a guerra com o
Iraque, já utilizou minas contra navios comerciais e militares. O cenário
atual, no entanto, é mais complexo: qualquer ação ofensiva iraniana no
estreito pode ser encarada como “declaração de guerra” por parte dos
EUA.
Mesmo assim, analistas como Bob McNally, da Rapidan Energy, alertam
que o mercado subestima o impacto de uma ação iraniana bem-
sucedida. “A ideia de que a Marinha dos EUA limparia o estreito em
poucas horas é ilusória. Isso pode levar semanas ou meses, colocando
marinheiros em risco constante”, afirmou.
Entre o cálculo e o desespero: o que quer Teerã?
A medida aprovada pelo Parlamento iraniano serve múltiplos
objetivos: aumentar o custo da agressão dos EUA, pressionar aliados
estratégicos e forçar a abertura de canais diplomáticos sob seus próprios
termos. Também serve como sinal interno de força, em meio à
devastação causada pelos ataques nucleares e à fragilidade econômica.
O ministro das Relações Exteriores do Irã afirmou que o país “reserva
todas as opções para defender sua soberania”. Já analistas apontam que
o regime busca manter viva sua capacidade de dissuasão diante de
Israel e dos EUA, mesmo sabendo que um confronto total pode ser
desastroso.
O relógio geopolítico corre
O fechamento do Estreito de Ormuz, mesmo que temporário, não é
apenas uma ameaça regional — é um choque global. Ele testa o
equilíbrio de poder no Golfo Pérsico, a coesão política do Ocidente, a
capacidade de contenção dos EUA e o pragmatismo da China.
A decisão final agora está nas mãos do Conselho Supremo de
Segurança Nacional e do líder supremo iraniano. Se aprovada, pode
marcar o início de uma nova etapa no confronto — não apenas militar,
mas estratégico e energético — com reverberações profundas.
Fonte: Vermelho

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