Lula abre diálogo com Trump, mas com limite: “Soberania não é discutível”
Em coletiva ao final das agendas na Assembleia Geral da ONU,
presidente disse torcer para o encontro dar certo para ficarem
“quimicamente estáveis”
por Murilo da Silva
Publicado 24/09/2025 19:58 | Editado 25/09/2025 00:28
Foto: Ricardo Stuckert / PR
O presidente Lula participou de uma coletiva de imprensa, em Nova
York (EUA), nesta quarta-feira (24), ao final das agendas decorrentes
da 80ª Assembleia Geral das Nações Unidas (ONU). A grande parte
das perguntas se concentrou no encontro que teve com o presidente
dos Estados Unidos, Donald Trump , no qual o norte-americano falou
em uma “química” entre eles. A breve aproximação entre os líderes foi
suficiente para enfurecer o bolsonarismo , que tem utilizado as
sanções dos EUA contra o Brasil para interesses próprios.
De acordo com o presidente Lula, o encontro com Trump, ainda que
breve, foi recebido com “satisfação” e o que parecia impossível (um
encontro entre eles) se tornou real: “Eu fiquei feliz quando ele disse
que pintou uma química boa entre nós”, brincou Lula.
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excelente”
Ele também revelou que Trump estava com “uma cara simpática,
muito agradável” e que espera uma surpresa boa do encontro
inesperado: “eu acho que pintou uma química mesmo”.
Para o líder brasileiro, esta aproximação é muito importante e ele
torce para que a reunião entre eles, acertada preliminarmente no
breve encontro após o discurso de Lula na ONU, se concretize. O
presidente demonstrou estar aberto a todas as pautas, mas colocou
como limite qualquer contestação à soberania e democracia
brasileira. Para os jornalistas, Lula ainda criticou o genocídio em Gaza,
perpetrado por Israel e destacou o encontro com o presidente
ucraniano, Volodymyr Zelensky.
Reunião com Trump
Segundo Lula, a relação entre Brasil e os EUA é muito importante, por
isso a estabilização das relações sem hostilidades é urgente.
“Eu torço para que dê certo [a reunião], porque Brasil e os Estados
Unidos são as duas maiores democracias do continente. Temos
muitos interesses empresariais, industriais, tecnológicos e científicos,
no debate sobre a questão digital e inteligência artificial e na questão
comercial. Portanto, se nós somos as duas maiores economias da
América, não há por que Brasil e Estados Unidos estarem em
conflito”, afirmou Lula.
“Eu fiz questão de dizer ao presidente Trump que temos muito o que
conversar. Eu fiquei satisfeito quando ele disse que é possível a
conversa. E quem sabe, dentro de alguns dias, a gente possa se
encontrar e fazer uma pauta positiva”, completou, ao ressaltar que
para ele o importante é que chefes de Estado se respeitem, mesmo
com ideologias diferentes.
Informações corretas
Na visão de Lula, o presidente Trump foi municiado com informações
incorretas sobre a relação com o Brasil e lembrou que nos últimos 15
anos, os EUA mantiveram um superávit comercial em relação ao
Brasil em mais de 410 bilhões de dólares.
“Estou convencido que algumas decisões tomadas pelo presidente
Trump se devem ao fato da qualidade de informações que ele tinha
com relação ao Brasil. Na hora que ele tiver as informações corretas,
eu acho que ele pode mudar de posição”, destacou Lula, lembrando a
relação diplomática de mais de 200 anos entre as nações.
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palestino
“Eu estendi a mão para ele, cumprimentei e disse que Brasil e
Estados Unidos têm muita coisa para conversar, têm muitos assuntos
em jogo. E não tem limite de assunto para a gente conversar. Não tem
veto de assunto … qualquer assunto [pode ser tratado]. Mas para isso
tem que ter uma conversa”, enfatizou.
“Na hora que a gente tiver o encontro, eu acho que tudo isso ficará
resolvido. E o Brasil e os Estados Unidos voltarão a viver em
harmonia, quimicamente estáveis”, disse o bem-humorado Lula, em
referência à “química” entre os dois indicada por Trump.
Soberania
Mesmo com a predisposição em debater todos os assuntos que o
governo estadunidense julgar necessário, Lula indicou quais são os
limites da conversa.
“O que não é discutível é a soberania brasileira e a nossa democracia,
isso não é discutível. Nem com o presidente Trump, nem com
nenhum presidente do mundo”, declarou.
“Quando tiver eleição nos Estados Unidos eu não me meto e quando
tiver eleição no Brasil ele não se mete. É assim que a gente faz: a
gente acata o resultado da soberania do povo nas urnas de cada
país”.
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Tropicais
Para o presidente, é fundamental que Trump entenda que a Suprema
Corte brasileira realizou um processo minucioso em julgar os
envolvidos na tentativa de golpe de Estado e que todos os envolvidos
dispuseram dos instrumentos de direito de defesa.
No entendimento de Lula não há problemas em um encontro
presencial entre os dois, uma vez que não serão discutidos segredos
de Estado. A imprensa tentou tirar alguma declaração receosa dele,
uma vez que Trump tem protagonizado encontros em que coloca
líderes mundiais em situações constrangedoras, como já fez
com Zelensky e o presidente da África do Sul, Cyril Ramaphosa . No
entanto, Lula descartou a possibilidade ao dizer que não há espaço
para brincadeira entre dois ‘quase’ octogenários (ambos têm 79 anos).
Genocídio
Sobre os ataques de Israel na Faixa de Gaza, Lula voltou a ressaltar
que é um genocídio.
“Não tem uma guerra em Gaza, você tem um genocídio de um
exército fortemente preparado contra um povo indefeso, sobretudo
mulheres e crianças”.
Na sua visão, o Conselho de Segurança da ONU poderia ter tomado
uma atitude mais forte antes: “A mesma ONU que teve força para
criar o Estado de Israel, ela precisa ter força para criar o Estado
palestino.”
Ao condenar também o ataque do Hamas que precipitou a guerra,
Lula disse que a decisão de diversos países em reconhecer a Palestina
durante a Assembleia foi acertada, ainda que tardia. Com isso, espera
que os demais países se unam para pressionar para a efetiva solução
de dois Estados e para que Israel coloque fim à guerra e à ocupação
que promove.
Encontro com Zelensky
Antes da coletiva, o líder brasileiro esteve com o presidente
ucraniano, Volodymyr Zelensky, a pedido dele, e comentou a reunião.
“Ninguém tem coragem de falar ainda, mas acho que todos eles já
têm o limite de negociação. Eu tinha feito uma proposta baseada no
documento assinado pelo Brasil e pela China, na criação do grupo de
amigos, que o secretário-geral das Nações Unidas devesse juntar um
grupo de países que quisesse construir a paz, que fosse a Moscou
conversar com o Putin, que fosse a Kiev conversar com o Zelensky, e
construísse uma proposta para fazê-la publicamente. O secretário-
geral da ONU me disse que não tinha autorização para fazer isso. Mas
essa proposta continua em pé e eu falei para o Zelensky hoje”,
declarou Lula.
“Hoje senti o Zelensky com muito mais vontade de conversar do que
em outras reuniões. Eu acho que é a mesma coisa do Putin […] O que
eu disse para o Zelensky é que eu vou me esforçar e conversar com
quem eu puder, inclusive vou conversar com o Trump”, revelou.
Foto: Ricardo Stuckert / PR
Fonte: Vermelho

