Lula firma maior pacote de acordos com a China e reforça parceria com Xi

Em visita a Pequim, presidente Lula sela aliança estratégica com Xi
Jinping, assina quase 30 acordos e garante R$ 27 bilhões em

investimentos para o Brasil

por  Lucas Toth

Publicado 13/05/2025 09:56 | Editado 13/05/2025 12:14

Lula e Xi Jinping durante cerimônia oficial de boas-vindas em Pequim, na qual
os dois presidentes reforçaram a parceria estratégica entre Brasil e China.
Foto:
Ricardo Stuckert / PR
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em visita de Estado à China,
consolidou nesta terça-feira (13) a maior rodada de acordos bilaterais de
seu terceiro mandato, com a assinatura de quase 30 atos formais, o
anúncio de R$ 27 bilhões em investimentos e a reafirmação de uma
parceria estratégica com o presidente Xi Jinping.
Ao lado do líder chinês, Lula defendeu o multilateralismo, criticou o
protecionismo comercial dos Estados Unidos e afirmou que a relação
Brasil-China “nunca foi tão necessária”. Os dois presidentes também
divulgaram declarações conjuntas sobre a crise na Ucrânia e sobre os
princípios da segurança internacional, defendendo soluções pacíficas e
diálogo como instrumentos de resolução de conflitos.
Em meio ao agravamento das tensões geopolíticas e à fragmentação das
cadeias globais, Lula relembrou a agenda intensa mantida com a China
nos últimos meses e reforçou o papel da parceria sino-brasileira como
pilar de estabilidade.
“Retorno a Pequim apenas seis meses depois de receber o companheiro
Xi Jinping para uma visita de Estado histórica em Brasília. A relação
entre o Brasil e a China nunca foi tão necessária”, declarou.
O encontro bilateral ocorre em um momento de instabilidade geopolítica
crescente, com a guerra tarifária entre Estados Unidos e China afetando
o comércio global e ameaçando as cadeias de abastecimento.
Para Lula, a cooperação com Pequim deve servir como eixo de
estabilidade, construído sobre bases de complementaridade econômica,
solidariedade no Sul Global e resistência ao unilateralismo. Xi Jinping
destacou que a amizade sino-brasileira tem bases “sólidas e
duradouras”, e que os dois países estão comprometidos em aprofundar
suas relações em todas as frentes.
Investimentos chineses consolidam novo ciclo de cooperação
bilateral
Durante o Fórum Empresarial Brasil-China, realizado nesta terça, em
Pequim, foram anunciados investimentos de R$ 27 bilhões no Brasil por
parte de empresas chinesas.
O destaque ficou por conta da montadora GAC Motors, que injetará R$ 6
bilhões para expandir suas operações e iniciar exportações para América
do Sul e México. Já a gigante do setor de entregas Meituan investirá R$

5 bilhões no aplicativo Keeta, com promessa de geração de 4 mil
empregos indiretos e 100 mil diretos.
Outros aportes incluem R$ 3 bilhões da CGN em um hub de energia
renovável no Piauí e até R$ 5 bilhões da Envision para erguer o primeiro
parque industrial net-zero da América Latina, voltado à produção de
hidrogênio verde, amônia verde e SAF (combustível sustentável para
aviação).
A rede de sorvetes Mixue, com forte presença na Ásia, investirá R$ 3,2
bilhões para iniciar atividades no Brasil, com expectativa de 25 mil
empregos até 2030.
Na área de infraestrutura, a mineradora Baiyin Nonferrous investirá R$
2,4 bilhões na compra da mina de cobre Serrote, em Alagoas. Também
estão previstos novos acordos nas áreas de semicondutores (Longsys),
mobilidade (DiDi), farmácias e IFAs.
Em seu discurso, Lula celebrou a confiança dos investidores chineses e
afirmou que “o Brasil tem segurança jurídica, institucional e ambiental
para se tornar um dos maiores polos industriais sustentáveis do mundo”.
O presidente destacou que o volume de iniciativas e a velocidade das
tratativas com a China revelam não apenas afinidade política, mas
também uma metodologia de cooperação inédita entre países em
desenvolvimento.
“Nunca um número tão grande de projetos foi discutido de maneira
sistemática em tão pouco tempo. Os primeiros resultados concretos já
podem ser constatados”, disse.
Investimentos anunciados por empresas chinesas no Brasil:
 GAC Motors: R$ 6 bilhões para expansão industrial e exportações
para América do Sul e México
 Meituan (app Keeta): R$ 5 bilhões para operação de delivery no
Brasil, com previsão de até 100 mil empregos indiretos
 Envision: até R$ 5 bilhões para construção de parque industrial
net-zero (SAF, hidrogênio verde e amônia verde)
 CGN (estatal chinesa de energia): R$ 3 bilhões para criação de
hub de energia renovável no Piauí
 Mixue (sorvetes e bebidas): R$ 3,2 bilhões para iniciar operações
no Brasil e gerar até 25 mil empregos até 2030
 Baiyin Nonferrous: R$ 2,4 bilhões para aquisição da mina de cobre
Serrote, em Alagoas
 Windey Technology + SENAI: criação de centro de P&D em
energia renovável (valor não divulgado)

 Empresas farmacêuticas: criação de centro de excelência em
vacinas e plataforma de produção de IFAs (valor não divulgado)
 Longsys: investimento no setor de semicondutores (valor não
divulgado)
 DiDi (dona do 99): expansão das operações de mobilidade e
tecnologia no Brasil (valor não divulgado)
Infraestrutura e logística ganham centralidade nas relações
bilaterais
A agenda de cooperação com foco em infraestrutura também avançou.
Segundo o ministro Silvio Costa Filho, empresas chinesas da construção
civil demonstraram interesse direto no leilão do Túnel Santos-Guarujá,
previsto para agosto, com investimentos estimados em mais de R$ 6
bilhões.
Além disso, foram assinados compromissos que preveem quase R$ 5
bilhões para modernização dos portos públicos brasileiros.
Na aviação, foi firmada parceria com a Universidade da Aviação Civil da
China, com foco na modernização da gestão aeroportuária. O governo
também negocia a ampliação de voos diretos e a venda de aeronaves da
Embraer ao mercado chinês.
A meta é transformar o Brasil em hub logístico regional, ligando o
Atlântico ao Pacífico por meio de corredores de exportação, com forte
participação chinesa nas obras da FIOL e da Transnordestina.
Para o ministro Silvio Costa Filho, a aproximação com a China oferece
não apenas financiamento e tecnologia, mas uma visão estratégica
comum sobre o papel do Brasil no comércio internacional.
“Todo o debate que nós fizemos foi para ampliar o volume de
movimentação através dos nossos portos com o mercado chinês e
asiático. A China é uma grande janela de oportunidades para o mercado
brasileiro”, afirmou.
A atualização do plano logístico nacional visa reduzir custos e acelerar o
escoamento da produção de grãos, carne e minério. Lula afirmou que as
“Rotas de Integração Sul-Americanas são mais que corredores de
exportação: são vetores de desenvolvimento regional”. Já a China
reforçou que vê o Brasil como parceiro essencial no abastecimento
global, em especial diante das incertezas causadas pelas guerras
comerciais.
CELAC-China: papel regional da China e defesa do Sul Global

Na abertura do IV Fórum CELAC-China, ao lado de Xi Jinping, Gabriel
Boric e Gustavo Petro, Lula reafirmou a importância da cooperação sino-
latino-americana para a superação das desigualdades. Segundo ele, a
China é já o segundo maior parceiro comercial da CELAC e um dos
principais financiadores de obras na região, superando o Banco Mundial
e o BID.
“O apoio chinês é decisivo para tirar do papel rodovias, ferrovias, portos
e linhas de transmissão”, declarou Lula.
O presidente brasileiro defendeu ainda que a integração com a China
deve impulsionar a inovação e a indústria regional. Lula também sugeriu
que a CELAC trabalhe com a China em projetos como o Plano de
Autossuficiência Sanitária, o Fundo de Adaptação Climática (FACRID) e
o Plano de Segurança Alimentar.
O fórum também marcou a retomada da CELAC como espaço ativo de
articulação do Sul Global. Para Lula, a região precisa de mais
“concertação política e menos dependência externa”.
Guerra comercial, reformas globais e diplomacia ambiental
Lula criticou as guerras comerciais impulsionadas pelos Estados Unidos,
especialmente as tarifas de Donald Trump contra a China e o Brasil.
Declarou que “não há vencedores em guerras comerciais” e que o
protecionismo “corrói a renda dos mais vulneráveis”. Ele e Xi Jinping
defenderam um comércio baseado nas regras da OMC e a rejeição ao
unilateralismo.
O presidente também reiterou a necessidade de uma solução negociada
para a guerra na Ucrânia e de um Estado Palestino viável para garantir a
paz no Oriente Médio. Ressaltou que apenas uma ONU reformada será
capaz de garantir paz, direitos humanos e desenvolvimento. “Superar a
insensatez dos conflitos armados é condição para o desenvolvimento”,
afirmou.
Ao ampliar o escopo da crítica ao unilateralismo, Lula voltou a condenar
a ofensiva militar israelense sobre Gaza e reiterou a defesa histórica do
Brasil por uma solução de dois Estados. “A humanidade se apequena
diante das atrocidades cometidas em Gaza. Não haverá paz sem um
Estado da Palestina independente e viável, vivendo lado a lado com
Israel”, afirmou.
Em clima, destacou a COP30 em Belém como ponto de virada e reforçou
metas conjuntas com a China para redução de emissões. O programa
CBERS-5 e 6 será usado para monitoramento ambiental. Lula afirmou

que Brasil e China podem provar que é possível conter a mudança
climática sem abrir mão do crescimento econômico e da justiça social.
Impacto da trégua EUA-China no Brasil e riscos para setores
nacionais
O acordo tarifário provisório entre EUA e China, que reduz tarifas médias
de 145% para 30%, tem efeitos diretos sobre o Brasil. Por um lado,
mitiga o risco de desvio de exportações chinesas ao mercado brasileiro.
Por outro, reduz as chances de setores brasileiros ocuparem espaços no
mercado americano antes ocupado por produtos da China.
No setor têxtil, a Abit havia identificado aumento de consultas nos últimos
30 dias. Mas, com a trégua entre Pequim e Washington, essa janela se
estreita. Fernando Pimentel, da Abit, afirmou que “quanto mais as tarifas
ficarem palatáveis para os chineses, menos oportunidades haverá para o
Brasil”.
O governo brasileiro segue monitorando os efeitos da guerra tarifária e
suas ramificações nos acordos bilaterais dos EUA com terceiros países.
Segundo fontes em Brasília, um acordo EUA-China mais abrangente
poderia afetar o agronegócio brasileiro e outros setores estratégicos do
comércio exterior.
A diplomacia do futuro compartilhado
A visita de Lula à China confirmou uma tendência de reposicionamento
do Brasil como ator global autônomo e articulador do Sul Global. Em
todas as agendas, houve convergência entre Brasil e China na defesa da
multipolaridade, da integração regional, da soberania e do combate à
pobreza e à mudança climática.
Como afirmou Lula no encerramento de seu discurso: “Se depender de
nosso governo, a relação Brasil-China será indestrutível. Porque a China
precisa do Brasil, e o Brasil precisa da China”.
Fonte: Vermelho

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