Mauro Cid incrimina Bolsonaro ao detalhar edição na minuta do golpe

Em depoimento ao STF, ex-ajudante de ordens afirma que Bolsonaro
recebeu, leu e sugeriu alterações na minuta do golpe

por  Cezar Xavier

Publicado 09/06/2025 17:41 | Editado 09/06/2025 18:40

Bolsonaro cumprimenta seu delator Mauro Cid durante Interrogatórios dos réus
da Ação Penal (AP) 2668 Foto: Ton Molina/STF
Em um dos momentos mais reveladores do julgamento no Supremo
Tribunal Federal (STF) sobre a tentativa de golpe de Estado, o tenente-
coronel Mauro Cid afirmou nesta segunda-feira (9) que o ex-presidente
Jair Bolsonaro recebeu, leu e sugeriu mudanças no documento
conhecido como “minuta do golpe”.
A minuta previa medidas autoritárias e inconstitucionais para anular as
eleições de 2022 e manter Bolsonaro no poder. Cid declarou que o ex-
presidente retirou trechos que ordenavam a prisão de diversas
autoridades, mas manteve Alexandre de Moraes como único alvo da
medida.
“O presidente recebeu e leu. Ele, de certa forma, enxugou o documento,
basicamente retirando as autoridades das prisões. Somente o senhor
[Moraes] ficaria como preso. O resto, não”, declarou Cid diretamente ao
ministro.
Acusações e medidas de exceção
Segundo Cid, a minuta estava dividida em duas partes. A primeira listava
interferências do STF e TSE (Tribunal Superior Eleitoral) como
justificativa para medidas de força; a segunda propunha estado de
defesa, estado de sítio, prisão de ministros e parlamentares e a
criação de um conselho para organizar novas eleições.
As alterações teriam sido feitas com auxílio de Filipe Martins, ex-
assessor de Bolsonaro para Assuntos Internacionais, que digitava as
mudanças diretamente de um computador no gabinete presidencial.
Militares e ex-ministros
Durante o depoimento, Mauro Cid foi questionado sobre a classificação
dos envolvidos no plano. Ele afirmou que o almirante Almir Garnier, ex-
comandante da Marinha, era “radical”, enquanto os ex-ministros Braga
Netto e Paulo Sérgio Nogueira seriam “moderados”.
Cid também relatou pressão para que o comandante do Exército,
general Freire Gomes, fosse substituído por um militar disposto a
aderir ao plano golpista. Essa articulação seria liderada por Braga Netto
e o general Mário Fernandes, identificado como defensor de medidas
radicais.
Braga Netto repassou dinheiro em espécie para operação sigilosa

O tenente-coronel afirmou ainda que recebeu dinheiro vivo de Braga
Netto no Palácio da Alvorada, repassando a quantia ao major Rafael
Martins de Oliveira, ligado ao plano chamado “Punhal Verde e Amarelo”,
que previa até a execução de autoridades.
“O general Braga Netto trouxe uma quantia em dinheiro… com certeza
não foi os R$ 100 mil. Eu recebi no Palácio da Alvorada e repassei ao
major De Oliveira”, declarou Cid.
Ele também alegou que os recursos “provavelmente” vinham
de empresários do agronegócio que financiavam acampamentos
golpistas nas portas de quartéis.
Bolsonaro sabia
Cid confirmou que Bolsonaro foi informado sobre a “Carta ao
Comandante do Exército”, escrita por oficiais da ativa, pedindo às Forças
Armadas que interviessem em defesa do ex-presidente. Apesar da
gravidade do conteúdo, Bolsonaro não teria feito nenhum comentário,
apenas ouvido o relato.
A relação com os acampamentos também foi detalhada. Braga Netto
teria atuado como elo entre o Planalto e os manifestantes,
incentivando a narrativa de ruptura.
Delação reafirmada: “não houve coação”, diz Cid a Moraes
O depoimento também foi marcado pela tentativa de Bolsonaro e aliados
de deslegitimar a delação premiada de Cid, após o vazamento de áudios
em que o militar criticava a condução da investigação. Questionado por
Moraes, o ex-ajudante de ordens reafirmou que não sofreu coação.
“Foi um desabafo em um momento de crise pessoal, com minha carreira
destruída, minha família exposta. Em nenhum momento houve pressão
da Polícia Federal.”
Com isso, Cid desmonta a principal linha de defesa bolsonarista, que
buscava anular seu acordo de colaboração com base em suposta
coação.
Um depoimento-chave no julgamento do golpe
A fala de Mauro Cid é a primeira entre os réus ouvidos no julgamento
conduzido pelo ministro Alexandre de Moraes, relator do inquérito sobre
a tentativa de golpe. O ex-ajudante de ordens foi peça central na
engrenagem militar e política do entorno de Bolsonaro e seu testemunho

adiciona provas diretas da participação do ex-presidente no plano
para subverter a democracia.
A delação, agora reafirmada, reforça a tese da Procuradoria-Geral da
República de que houve articulação organizada e consciente para
instaurar um regime de exceção, com apoio de civis, militares e setores
do empresariado. O julgamento prossegue com expectativa de novas
revelações nos próximos dias.

Fonte: Vermelho

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