Salário mínimo tem maior valorização com Lula e pode chegar a R$ 1.630 em 2026
Política de recomposição da renda fortalece mercado interno, impulsiona
crescimento e contrasta com proposta de congelamento da elite
financeira, por Cezar Xavier.
Publicado 16/04/2025 15:42 | Editado 16/04/2025 16:50
Lula com lideranças das Centrais Sindicais no Palácio do Planalto, no primeiro
mês de governo, quando o presidente reafirmou compromissos com a política
de valorização do salário mínimo, o reajuste da tabela do IR, a regulamentação
do trabalho por aplicativos e a reorganização do movimento sindical. Foto:
Ricardo Stuckert
O governo Lula enviou ao Congresso Nacional a proposta de Lei de
Diretrizes Orçamentárias (LDO) para 2026, prevendo um salário mínimo
de R$ 1.630 – aumento de 7,37% sobre o valor atual, R$ 1.518). O
reajuste combate a inflação (INPC) e garante ganho real de 2,5%,
seguindo a política de valorização iniciada em 2023, caso o Índice
Nacional de Preços ao Consumidor (INPC) de 2025 se confirme como
previsto.
A projeção de salário mínimo consolida a valorização real do piso
nacional nos quatro primeiros anos do terceiro governo Lula. Desde
2023, o governo federal retomou uma política que havia sido
abandonada no governo anterior: a de correção do salário mínimo com
base no INPC do ano anterior mais o crescimento do PIB de dois anos
antes. A fórmula garante ganhos reais e maior poder de compra à
população de mais baixa renda, especialmente aposentados,
pensionistas e beneficiários de programas sociais, cujos rendimentos são
atrelados ao valor do mínimo.
Segundo o secretário de Orçamento Federal, Clayton Montes, o cálculo
final depende do INPC de novembro e do crescimento do PIB em 2024,
limitado a 2,5%. “É um compromisso com a justiça social sem descuidar
da responsabilidade fiscal”, afirmou.
A trajetória: quatro anos de recuperação do poder de compra
Segundo o Dieese, quase 60 milhões de pessoas têm rendimentos direta
ou indiretamente referenciados no salário mínimo. Isso significa que cada
aumento real impacta positivamente a economia popular, estimula o
consumo e dinamiza o mercado interno.
Desde 2023, o governo Lula retomou a política de reajuste real do
mínimo, após quatro anos de congelamento (apenas correção
inflacionária) no governo Bolsonaro:
2023: R$ 1.302
2024: R$ 1.412
2025: R$ 1.518
2026 (projeção): R$ 1.630
O modelo assegura que o mínimo cresça acima da inflação,
beneficiando 59,9 milhões de brasileiros (segundo o Dieese), incluindo
aposentados, trabalhadores formais e informais, e beneficiários do BPC.
É ao salário mínimo que se atrelam que vinculam o valor de benefícios
previdenciários, como o BPC e as aposentadorias do INSS, além de
programas como o abono salarial e o seguro-desemprego. “É uma
política que reduz desigualdades e aquece o comércio local. Quem
ganha mínimo gasta tudo na economia real”, afirmou Lula em junho,
reafirmando o compromisso de não “ajustar as contas em cima dos
pobres”.
Durante a entrega do PLDO, o secretário de Orçamento Federal, Clayton
Montes, sublinhou que a política é compatível com as regras do novo
arcabouço fiscal, que limita o crescimento de despesas a 2,5% além da
inflação.
A LDO 2026 projeta despesas primárias de R$ 2,59 trilhões, com:
R$ 1,13 trilhão para Previdência.
R$ 451 bilhões para pessoal e encargos.
R$ 208,3 bilhões para despesas discricionárias (investimentos em
saúde, educação e infraestrutura).
O que dizem os números: crescimento, inflação e dívida
Crescimento do PIB: Projeção de 2,5% ao ano até 2029,
impulsionado por energia verde e reforma tributária.
Inflação: IPCA estimado em 3,5% para 2026, dentro da meta do
BC.
Dívida bruta: Deve cair de 84,2% do PIB (2028) para 81,6%
(2035).
Governo anterior zerou ganho real: contraste com política de valorização
Entre 2019 e 2022, sob o governo anterior, o salário mínimo não teve
nenhum aumento real, sendo reajustado apenas pela inflação — o que
significou estagnação do poder de compra. Na prática, os trabalhadores
que dependem do mínimo perderam fôlego de consumo, e os efeitos se
estenderam ao comércio, à arrecadação municipal e à economia em
geral.
Já sob Lula, os aumentos reais foram retomados: 2,5% acima da inflação
em 2023, mesmo percentual em 2024 e novamente previsto para 2025 e
2026. Trata-se de uma política de Estado que cumpre funções
macroeconômicas importantes: estimula a demanda agregada, combate
desigualdades e impulsiona o crescimento do PIB, especialmente em
períodos de desaceleração.
A resistência neoliberal: proposta de congelamento e críticas
Enquanto o governo amplia o piso, setores conservadores pressionam
por austeridade. O ex-presidente do Banco Central Armínio
Fraga defendeu, em evento na Universidade de Harvard, o congelamento
do mínimo por seis anos – medida que, segundo ele, “preservaria o
pagamento de juros”. A proposta foi criticada por economistas
progressistas.
Para Simone Deos, professora da Unicamp, a fala de Fraga “não tem
fundamento”: “O Brasil não está na UTI. Não há risco de default, e o
aumento do mínimo é viável. Armínio repete chavões há décadas, mas
quem quebrou o país foi a política de juros altos que ele mesmo aplicou
nos anos 1990”.
A pressão reflete um conflito ideológico:
Governo Lula: Prioriza consumo interno e redução da
desigualdade.
Neoliberais: Defendem controle de gastos e teto de gastos
sociais.
Mais dinheiro no bolso, mais consumo, mais arrecadação
Além do aspecto distributivo, o ganho real no salário mínimo impulsiona o
consumo das famílias. Como esse valor é predominantemente gasto em
itens essenciais, o aumento injeta recursos diretamente no comércio
local, fortalece cadeias produtivas e aumenta a arrecadação de tributos
indiretos (como ICMS e ISS), revertendo parte do gasto público em
retorno fiscal.
Segundo o Dieese, os efeitos positivos do reajuste se espalham em
múltiplas direções: 80 milhões de brasileiros são beneficiados direta ou
indiretamente. Aumenta o consumo de alimentos, transporte, vestuário,
serviços básicos e, com isso, cresce também a arrecadação dos
municípios. Ou seja, não se trata apenas de uma política social, mas de
um motor econômico.
Valorização do salário mínimo é política de Estado, não só de governo
A nova lei aprovada pelo Congresso no fim de 2023 fixou os critérios de
valorização real do salário mínimo até 2030. A fórmula, combinando
inflação e PIB, tem como limite o crescimento permitido pelo novo
arcabouço fiscal. Trata-se de um compromisso de longo prazo com a
redistribuição de renda e a estabilidade das contas públicas.
A proposta do PLDO 2026, que tramita no Congresso sob relatoria do
deputado Carlos Zarattini (PT-SP), reflete essa visão: gasto público
eficiente, crescimento inclusivo e responsabilidade fiscal. Em vez de
cortar na base, o governo aposta em revisar e qualificar despesas
obrigatórias, mantendo o compromisso com os mais pobres.
O Brasil que valoriza o salário mínimo é o Brasil que não transfere a
conta da crise aos trabalhadores. E é esse o modelo que, ao contrário do
receituário ortodoxo, mostra resultados concretos: inflação controlada,
dívida sob trajetória estável e crescimento com inclusão.
A valorização do mínimo sob Lula simboliza a escolha por um modelo de
desenvolvimento com inclusão. Se, por um lado, enfrenta resistência de
elites financeiras, por outro, mantém-se como a maior rede de proteção
social do país. Enquanto o Congresso analisa a LDO, o desafio será
conciliar justiça fiscal e justiça social – um equilíbrio que definirá não
apenas o futuro do salário mínimo, mas o tipo de país que o Brasil quer
ser.
Fonte: Vermelho

