Seus braços se foram, Mujica, mas nós ainda estamos aqui. Gracias!
Ex-presidente uruguaio faleceu nesta terça (13), a uma semana de
completar 90 anos
por Priscila Lobregatte
Publicado 13/05/2025 17:03 | Editado 13/05/2025 17:04
O ex-presidente uruguaio José “Pepe” Mujica, uma das mais fascinantes
figuras da política contemporânea, faleceu na tarde desta terça-feira (13),
vítima de um câncer de esôfago. Daqui a uma semana, em 20 de maio,
Mujica completaria 90 anos.
A doença havia avançado tão aceleradamente nos últimos dias que
Lucía Topolansky, sua esposa há 40 anos, avisou nesta segunda (12)
que Mujica estava sob cuidados paliativos, em fase terminal. Era um
aviso de que a vida exemplar do ex-presidente estava terminando.
Em janeiro, de modo comovente, o líder uruguaio anunciou que, devido à
idade avançada e a outros problemas de saúde, não teria forças para
enfrentar os tratamentos convencionais. Assim, Mujica se despediu da
vida pública. “Estou morrendo”, disse na ocasião o homem que, entre
outras marcas profundas, era conhecido por sua lucidez, sabedoria e
simplicidade.
Nascido em 20 de maio de 1935, em Montevidéu, Mujica deixou seu
nome marcado na história política uruguaia e mundial por características
nem sempre comuns aos homens públicos. De hábitos simples, vivia há
anos num pequeno sítio nos arredores de Montevidéu, com Lucia
Topolansky.
No quintal, onde costumava tomar mate com a companheira e visitantes,
um Fusca 1987 azul, que virou um dos símbolos de seu despojamento —
característica, aliás, comum ao povo uruguaio — dividia espaço com
suas plantas e animais.
Seu desapego e sua vida modesta renderam-lhe o título de “presidente
mais pobre do mundo”. Em resposta, mandou mais uma de suas frases
célebres: “Não sou pobre. Sou sóbrio, de bagagem leve. Vivo com
apenas o suficiente para que as coisas não roubem minha liberdade”.
Manuela
Por 22 anos, Mujica contou ainda com a companhia de Manuela, a
cachorrinha de três patas que ficou famosa por aparecer com ele em
fotos e durante entrevistas. A cadela – que morreu em 2018 – perdeu um
dos membros após acidente com um trator dirigido pelo ex-presidente,
que também era agricultor e floricultor.
Após a perda, Mujica renunciou ao cargo de senador. “Há o tempo de
chegar e partir, o tempo não perdoa nem as pedras. Vou confessar para
você, sabe quando tomei minha decisão? Quando Manuela morreu.
Ainda sinto sua falta”, declarou em uma entrevista para a TV Telemundo.
Sobre a faceta de floricultor, vale lembrar de uma curiosidade: em 2013,
um perfume feito com essência de flores e ervas de seu sítio representou
o Uruguai na Bienal de Veneza.
O perfume “Pepe” nasceu como uma sátira do artista Martín Sastre aos
produtos de luxo de grandes marcas de cosméticos e ganhou forma
fictícia num frasco roxo exibido num vídeo de 2012, cujo nome era “U de
Uruguay”. Mas, depois, o produto acabou sendo, de fato, feito em edição
limitadíssima. Foram três frascos, um dado ao presidente, um para
Sastre e um para ser leiloado com fins beneficentes, segundo a agência
EFE.
Na presidência
Entre 2010 e 2015, Mujica foi o 40º presidente do Uruguai, o segundo de
esquerda do país, depois de Tabaré Vasquez, seu antecessor. A eleição
de Mujica ocorreu em meio à onda de líderes de esquerda e
progressistas que passaram a ocupar o poder de seus países na
América Latina a partir dos anos 2000.
Em outubro de 2009, ao comemorar a vitória da Frente Ampla em
segundo turno, o ex-guerrilheiro tupamaro, preso por mais de uma
década pela ditadura e alçado ao mais alto posto da nação, pronunciou
mais uma de suas falas marcantes: “Sabe de uma coisa, povo? O mundo
está de pernas para o ar. Vocês deveriam estar aqui (no palanque), e
nós aí embaixo, aplaudindo”, discursou. “Elegemos um governo que não
é dono da verdade e precisa de todos. Custou-me uma vida entender
que o poder está nas massas.”
Durante seu mandato, Mujica se tornou reconhecido internacionalmente
pelas medidas avançadas que adotou sobre temas que eram tabu em
muitos países. Mesmo no mais alto cargo do país, ele renunciou a viver
na mansão presidencial à qual tinha direito e doava 90% de seu salário,
que girava em torno US$ 12 mil mensais.
“Temos de escapar da escravidão que impõe a dependência material,
que é uma das coisas que mais roubam tempo na sociedade
contemporânea”, disse certa vez, ao semanário Búsqueda. “Se você se
deixa arrastar pelas pressões da sociedade de consumo, não existe
dinheiro que alcance, não tem fim, é infinito”, completou.
Sob seu governo, o Uruguai se tornou, em 2013, o primeiro país do
mundo a legalizar a produção e a venda de maconha, iniciativa que, ao
assegurar ao Estado o controle sobre o uso da droga, ajudou a combater
o narcotráfico. Ao mesmo tempo, a medida evita prisões desnecessárias
de usuários, a superlotação das prisões e o fortalecimento de facções
internas, como ocorre no Brasil
Também foi sob seu mandato que, naquele mesmo ano, o Uruguai
passou a permitir o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Um ano
antes, o aborto foi legalizado, garantindo às mulheres o direito de
interromper a gravidez de maneira segura.
A Frente Ampla, aliança política que teve Mujica como um de seus
principais nomes, foi responsável por profundas mudanças sociais no
país, que tiveram início antes de seu governo, ainda com Tabaré
Vasquez, continuaram durante seu mandato e se estenderam para além
dele.
Entre 2005 a 2020, o Uruguai teve uma queda drástica no índice de
pobreza, que passou de 30% para 8% – praticamente não havia pessoas
em situação de rua. O crescimento do país foi constante e o desemprego
despencou de 22% em 2005 para 6,9% em 2015. Além disso, nesse
mesmo período de 15 anos, o PIB per capita do país cresceu três vezes,
saltando de US$ 4,72 para US$ 15,56.
Essas e muitas outras conquistas resultaram, em grande medida, do
trabalho de toda sua equipe e do governo montado pela Frente Ampla,
mas também à visão profundamente humanista que o ex-presidente
sempre carregou e que se fortaleceu durante os anos em que esteve
preso.
Líder tupamaro
Um dos líderes do Movimento de Libertação Nacional Tupamaro —
opositor do crescente autoritarismo que tomava conta do país e da
América Latina e que foi duramente perseguido pela ditadura militar
uruguaia —, Mujica foi preso quatro vezes, duas das quais conseguiu
fugir.
Sua prisão mais longa se deu entre entre 1972 — após sobreviver a seis
tiros — e 1985, quando a democracia foi restabelecida. Em parte desse
período, ele ficou numa solitária; em outros tantos momentos, foi
brutalmente torturado. Sobre a prisão, declarou mais tarde, com bom
humor: “Não enlouqueci porque já era louco”. Em outra ocasião,
salientou: “Depois da pena de morte, a solidão é um dos castigos mais
duros”.
Sua vida e as lições que deixou foram ricamente contadas em diversos
livros e filmes, entre os quais, três produções cinematográficas recentes
que ganharam o mundo. O mais novo é o documentário Os Sonhos de
Pepe (2024), de Pablo Trobo, que foi cinegrafista durante sua campanha
presidencial.
Já Uma Noite de Doze Anos (2018), de Álvaro Brechner, conta, de
maneira ficcional, como foram os anos de prisão de Mujica e seus
companheiros. Por fim, El Pepe, uma Vida Suprema (2018), de Emir
Kusturica, esmiúça a forma de pensar e o aprendizado que o ex-
presidente teve ao longo de sua vida e que o fez estar entre alguns dos
mais sábios homens públicos da contemporaneidade.
Após uma rica e admirável trajetória, guiada, sobretudo, pela luta para
construir uma nova sociedade, justa e igualitária, Pepe acabou sendo
derrotado pelo câncer. Meses antes, quando participou de comício do
então candidato à presidência e atual presidente, Yamandu Orsi, Mujica
já previa que o fim se aproximava. “Quando esses braços se forem,
haverá milhões de braços na luta. Obrigado por existirem. Até sempre”.
Nós é que agradecemos, Pepe!
Fonte: Vermelho

