Brasil finaliza plano de contingência diante do tarifaço de Trump
Equipe econômica conclui estudo técnico e articula resposta
diplomática e comercial antes da entrada em vigor da sobretaxa de
50% dos EUA. Haddad afirma que Brasil quer “debate técnico”, mas
encontra silêncio da Casa Branca.
por Cezar Xavier
Publicado 23/07/2025 21:35 | Editado 24/07/2025 08:52
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o ministro da Fazenda, Fernando
Haddad. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, anunciou nesta quarta-
feira (23), durante entrevista coletiva, que a área técnica do governo
concluiu os trabalhos para mapear os possíveis cenários e desenhar
um plano de contingência contra a sobretaxa de 50% imposta pelos
Estados Unidos a produtos brasileiros.
Os detalhes do plano serão apresentados a Haddad nesta quinta-feira
(24) e, na semana seguinte, levados ao presidente Luiz Inácio Lula da
Silva. O objetivo é subsidiar uma decisão política embasada
tecnicamente, segundo o chefe da equipe econômica.
“Nós estamos fazendo um trabalho de desenho de cenários para que
o presidente possa estar bem apropriado de tudo que está em jogo e
tomar a melhor decisão”, disse Haddad.
O plano foi desenvolvido em conjunto com os ministérios da Fazenda,
Indústria e Comércio e Relações Exteriores, sob coordenação do vice-
presidente e ministro da Indústria, Geraldo Alckmin.
O que se sabe sobre o plano de contingência até agora
Embora o conteúdo do plano não tenha sido revelado, Haddad
confirmou que os cenários foram encomendados com base em
parâmetros técnicos definidos pelos três ministérios envolvidos. As
medidas podem envolver compensações econômicas, apoio ao setor
exportador e mobilização diplomática e empresarial.
Não houve menção concreta a retaliações comerciais ou taxação de
empresas estrangeiras. Segundo Haddad, eventuais iniciativas como
taxar as big techs devem ser tratadas pelo Congresso e não estão na
pauta do Executivo como resposta direta ao tarifaço.
Silêncio dos EUA trava negociações e aumenta incertezas
Apesar dos esforços diplomáticos brasileiros, as respostas dos
Estados Unidos seguem limitadas e vagas. Haddad afirmou que o
canal oficial de negociação com o Tesouro americano está fechado, e
que os contatos têm ocorrido apenas em nível técnico — sem
interlocução direta com o secretário do Tesouro, Scott Bessent.
“Estamos fazendo tentativas de contato reiteradas, mas há uma
concentração de informações na Casa Branca”, explicou.
O próprio Alckmin, segundo relatos, também não teve sucesso ao
buscar interlocução com a Secretaria de Comércio americana. O
governo Trump tem centralizado as tratativas comerciais em sua
assessoria mais próxima e sinalizado que só haverá avanço com
autorização direta do presidente.
“Vai chegar a vez do Brasil”, diz Haddad
Apesar do impasse, Haddad demonstrou otimismo moderado,
citando acordos recentes firmados pelos EUA com Japão, Indonésia,
Filipinas e Vietnã como sinais de abertura para o diálogo.
“Nós tivemos boas surpresas em relação a outros países nos últimos
dias. […] Vai chegar a vez do Brasil, e temos que estar preparados
para quando sentarmos à mesa”, afirmou.
A fala reflete a estratégia do governo de manter uma postura de
disposição para o diálogo, evitando escalar politicamente o conflito e
preservando canais diplomáticos — ainda que informais.
Pressão empresarial cresce dos dois lados
Com os canais formais travados, o governo brasileiro passou a
mobilizar também o setor privado. Alckmin e assessores buscam
apoio de empresários afetados pela medida para que pressionem
seus interlocutores americanos e forcem uma reabertura das
negociações.
Nos Estados Unidos, algumas empresas — incluindo gigantes das
áreas de energia, suco de laranja e tecnologia — já manifestaram
desconforto com o impacto potencial da medida. Uma distribuidora
americana de suco de laranja, por exemplo, acionou a Justiça para
contestar as tarifas.
Lula deve avaliar impactos geopolíticos e diplomáticos
O governo brasileiro insiste em não politizar o debate, mesmo diante
de indícios de que a medida de Trump tem motivação ideológica. O
ex-presidente americano citou em discursos recentes a
regulamentação das big techs no Brasil e investigações contra Jair
Bolsonaro como justificativas para a sanção.
Haddad rejeitou qualquer ideia de escalada diplomática: “Não vejo
escalada política de os países terem sua dinâmica institucional.
Ninguém está escalando nada. Está todo mundo fazendo o seu
trabalho.”
Internamente, porém, o Palácio do Planalto reconhece que a decisão
de Trump pode ter sido pensada para criar um “caso exemplar”,
intimidando outros países e desgastando a imagem do governo Lula.
Auxiliares do presidente defendem, por isso, cautela estratégica e
ênfase em argumentos técnicos.
Prazo até 1º de agosto preocupa
O relógio corre. A tarifa de 50% começa a valer oficialmente no dia 1º
de agosto, deixando ao governo brasileiro menos de 10 dias para
obter uma sinalização positiva dos EUA ou apresentar um pacote de
medidas compensatórias às empresas afetadas.
Entre as propostas discutidas no plano de contingência, estão
mecanismos de crédito emergencial, apoio fiscal e estímulos à
diversificação de mercados. Governadores também têm apresentado
iniciativas próprias, como o programa de R$ 200 milhões do governo
paulista, classificado por Haddad como “bem-vindo, mas limitado”
diante da escala do problema — que envolve cerca de US$ 40 bilhões
em exportações. O ministro ressaltou a importância dos
governadores bolsonaristas terem abandonado a postura de apoio ao
tarifaço de Trump como um ataque a Lula e percebido a gravidade do
problema para o Estado brasileiro e seu setor produtivo.
A reavaliação de cenários é diária e envolve tanto a diplomacia
quanto o setor produtivo. A aposta do Planalto é que uma solução
possa vir não apenas de Brasília ou Washington, mas também de
Nova York, da Califórnia e de outros centros empresariais americanos
que têm muito a perder com o tarifaço.
Fonte: Vermelho

