Com avanços econômicos, cai o número de jovens que nem estudam, nem trabalham
Melhora no cenário econômico e no mercado de trabalho está entre
fatores que influenciaram na queda. Programa Pé-de-Meia busca manter
jovens mais vulneráveis na escola
por Priscila Lobregatte
Publicado 17/06/2025 17:39 | Editado 17/06/2025 18:04
Foto: Antônio Cruz/Agência Brasil
A educação brasileira evoluiu nos últimos anos, embora ainda precise ir
muito além para que seja possível sanar problemas históricos e
estruturais que incidem sobre a forte desigualdade nacional. Um traço
positivo nesse sentido é a queda no número de jovens de 15 a 29 anos
que nem estudam, nem trabalham — questão que também está atrelada
a fatores econômicos. Eles eram 22,4% em 2019, percentual que caiu
para 19,8% em 2023 e para 18,5% no ano passado.
Os dados fazem parte da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio
(Pnad) Contínua Educação, recém-divulgada pelo Instituto Brasileiro de
Geografia e Estatística (IBGE).
“Muito dessa diminuição pode ser atribuída à própria evolução do
mercado de trabalho brasileiro, que vem sucessivamente apresentando
melhoras ano após ano, com diminuição da taxa de desocupação, assim
como a diminuição da subutilização”, explica William Kratochwill, analista
do IBGE.
Quando se examina a questão de gênero, o percentual das mulheres que
nem trabalhavam, nem estudavam era de 24,7%, quase o dobro dos
12,5% de homens.
O recorte racial também traz desvantagens aos negros diante dos
brancos, refletindo o racismo estrutural brasileiro: o percentual de
pessoas pretas ou pardas que não estudavam, não se qualificavam e
não estavam ocupadas, 21,1%, foi consideravelmente superior ao de
pessoas brancas na mesma condição, 14,4%.
No que tange à segmentação etária, entre os 15 e os 17 anos, o
percentual dos que nem estudavam, nem estavam ocupados foi de 4%,
saltando para 22,4% entre quem tem 18 e 24 anos e para 21% entre os
25 e os 29 anos.
Motivos para se afastar
Elementos socioeconômicos prevalecem entre os motivos que levam os
jovens a deixarem os estudos. Quando questionados sobre isso,
sobressaem-se, nas respostas, a necessidade de trabalhar, a falta de
interesse e a gravidez.
De acordo com a Pnad Educação, em 2024, o principal motivo para os
jovens de 14 a 29 anos abandonarem a escola ou nunca a terem
frequentado foi a necessidade de trabalhar, mencionada por 42% dos
entrevistados. O segundo motivo mais citado, com 25,1%, foi a falta de
interesse.
Entre os homens de 14 a 29 anos, o principal motivo declarado também
foi a necessidade de trabalhar, 53,6%, seguido do desinteresse, 26,9%, e
problemas de saúde permanente, com 4,2%.
No caso das mulheres, a razão mais citada também foi a necessidade de
trabalhar, 25,1%, enquanto a falta de interesse foi a resposta de 22,5%.
Mas há questões específicas de gênero que permeiam a vida das jovens
e acabam retirando-as das salas de aula: a gravidez foi a resposta de
23,4%, enquanto 9% atribuíram o afastamento aos afazeres domésticos
ou cuidados com outras pessoas — entre os homens, essa motivação
correspondeu a apenas 0,8% das respostas.
“Esses resultados evidenciam que, além da condição econômica, as
responsabilidades reprodutivas e domésticas ainda estão entre os
principais entraves para a permanência das mulheres jovens na escola.
Para os homens, a atribuição do trabalho remunerado é o fator marcante
para o abandono escolar”, diz Kratochwill.
Cabe destacar, ainda, que segundo a pesquisa, caiu o número de jovens
que não haviam completado o ensino médio, seja por terem abandonado
a escola sem concluir essa etapa, seja por nunca a terem frequentado.
Em 2024, eles somavam 8,7 milhões de pessoas entre 14 a 29 anos; em
2023, esse contingente era de 9,3 milhões e em 2019, chegava a 11,4
milhões.
Do total aferido no ano passado, 59,1% eram homens e 40,9% eram
mulheres; 26,5% eram brancos e 72,5% eram pretos ou pardos.
O IBGE também destaca que nesse grupo etário, os maiores percentuais
de abandono ocorreram a partir dos 16 anos, com 16,5% nessa idade,
19,9% aos 17 anos e 20,7% aos 18 anos. Ainda assim, o abandono
escolar precoce continua presente nas idades correspondentes ao
ensino fundamental: 6,5% haviam deixado a escola até os 13 anos e
6,8% aos 14 anos.
Mudança de cenário
A melhora no quadro socioeconômico que o Brasil vem obtendo nos
últimos anos — com mais emprego, aumento da renda e retomada de
programas sociais de combate à miséria, como o Bolsa Família — ajuda
diretamente o acesso à educação. Afinal, famílias que passam a ter
outros meios de sustento conseguem fazer com que seus filhos priorizem
o ensino.
Ao lado disso, outras iniciativas vêm buscando ampliar o acesso e a
manutenção dos jovens mais vulneráveis nas escolas. É o caso do
programa Pé-de-Meia, que oferece incentivo financeiro-educacional na
modalidade de poupança para estudantes do ensino médio público.
O objetivo principal, conforme o Ministério da Educação, “é promover a
permanência e a conclusão escolar desses alunos, além de incentivar a
participação em exames como o Enem (Exame Nacional do Ensino
Médio)”.
Atualmente, mais de 4 milhões de jovens recebem o benefício, que
começou a ser pago em fevereiro deste ano. Considerando a data da
implantação, seus resultados ainda não devem estar plenamente
refletidos nos dados da pesquisa atual.
Pelas redes sociais, o ministro da pasta, Camilo Santana, salientou que o
Pé-de-Meia “não é um programa de transferência de renda, mas um
programa educacional porque ele tem uma contrapartida: garantir
frequência e aprovação da juventude. Porque quando nós vamos olhar, o
maior motivo para o jovem abandonar a escola é a questão financeira, é
ajudar o pai e a mãe que, muitas vezes, está desempregado. É poder
ajudar, muitas vezes, a mãe solteira”. Para ele, “o mínimo que um país
pode fazer é garantir que todos os jovens possam terminar a educação
básica e o ensino médio”.
Fonte: Vermelho

