Ex-ministro da Defesa diz ter alertado Bolsonaro sobre risco de golpe em 2022
General Paulo Sérgio Nogueira afirmou ao STF que ele e o comandante
do Exército saíram “preocupadíssimos” de reunião com Bolsonaro que
discutia medidas inconstitucionais
por Cezar Xavier
Publicado 10/06/2025 19:14 | Editado 10/06/2025 19:34
Paulo Sérgio Nogueira é um dos réus da Ação Penal (AP) 2668 Foto: Fellipe
Sampaio/STF
No depoimento prestado nesta terça-feira (10) ao Supremo Tribunal
Federal (STF), o general da reserva Paulo Sérgio Nogueira, ex-ministro
da Defesa do governo Jair Bolsonaro, afirmou que alertou o então
presidente sobre a gravidade das consequências de uma tentativa de
golpe de Estado para reverter o resultado das eleições de 2022. Ele
declarou ter saído “preocupadíssimo” de uma reunião com Bolsonaro e
outros membros da cúpula militar em que se discutia a decretação de
estado de sítio.
Nogueira é réu na ação penal que apura a existência de
uma organização criminosa com intenção de subverter o processo
democrático. Segundo a Procuradoria-Geral da República (PGR), ele
teria endossado críticas ao sistema eleitoral, atuado para fomentar a
desconfiança contra as urnas eletrônicas e, supostamente, apresentado
uma minuta de decreto golpista aos demais comandantes das Forças
Armadas — o que negou durante o interrogatório.
“Eu alertei da seriedade, da gravidade, se ele [Bolsonaro] estivesse
pensando em estado de defesa, estado de sítio”, disse o general a
Alexandre de Moraes, relator do caso no STF. “A gente conversando ali,
numa tempestade de ideias, sobre as consequências de uma ação futura
que eu imaginava que poderia acontecer.”
Negativas, recuos e pedido de desculpas ao STF
Ao longo de seu interrogatório, Nogueira procurou se dissociar de
qualquer articulação golpista, buscando mostrar que tentou moderar o
ímpeto autoritário do então presidente da República. Ele afirmou não ter
tratado sobre nenhuma “minuta de golpe” com outros militares e disse
não ter despachado com Bolsonaro o relatório do Ministério da Defesa
sobre as eleições.
“O presidente jamais me pressionou”, disse. “O que me deixa de cabeça
quente é saber pela denúncia [da PGR] que eu havia alterado esse
relatório.” O general afirmou que todas as conclusões do relatório — que
não apontou fraudes — foram baseadas em pareceres técnicos da
equipe das Forças Armadas.
Em gesto inédito entre os réus, o ex-ministro pediu desculpas públicas a
Moraes por declarações passadas contra o Tribunal Superior Eleitoral
(TSE), feitas durante uma reunião ministerial no fim do governo
Bolsonaro. “Foram palavras completamente inadequadas. O TSE não é
inimigo. Se fosse hoje, não teria feito aquela nota ou teria feito de
maneira mais amena”, afirmou.
Nogueira tenta salvar a imagem das Forças Armadas em meio à
crise institucional
O depoimento de Paulo Sérgio Nogueira reforça um movimento
percebido em outras oitivas de militares no mesmo processo: a tentativa
de limitar a contaminação das Forças Armadas pela trama golpista,
atribuindo a Bolsonaro e seu círculo mais próximo a responsabilidade
pelas propostas autoritárias.
Ao reconhecer que a reunião sobre a decretação de estado de sítio
ocorreu, mas se apresentar como voz dissonante e crítica, o general
tenta reconfigurar sua narrativa, afastando-se do “núcleo duro” da
conspiração, já apontado pela PGR como integrado por Bolsonaro,
Mauro Cid, Anderson Torres, Ramagem e Braga Netto.
A fala também representa uma mudança de tom em relação à postura
beligerante do bolsonarismo frente ao STF e ao TSE. Embora tenha feito
duras críticas institucionais no passado, Nogueira buscou se reposicionar
politicamente, talvez já antevendo o julgamento final, previsto para o
segundo semestre.
Reta final da instrução e julgamento iminente
O interrogatório do ex-ministro da Defesa é parte de uma fase decisiva
do processo penal. O ministro Alexandre de Moraes está ouvindo os oito
réus considerados peças-chave na engrenagem do plano golpista. Já
depuseram nomes como o ex-ajudante de ordens Mauro Cid, o ex-diretor
da Abin Alexandre Ramagem e o ex-ministro da Justiça Anderson Torres.
O general Walter Braga Netto, ex-ministro e candidato a vice de
Bolsonaro em 2022, foi ouvido por videoconferência. Braga Netto está
preso desde dezembro de 2024, acusado de obstruir a investigação e de
tentar obter ilegalmente informações sobre a delação de Cid.
Concluída a fase de interrogatórios, o STF poderá julgar o mérito das
ações penais ainda neste ano. Caso condenados, os réus podem
enfrentar penas superiores a 30 anos de prisão — incluindo o próprio ex-
presidente Jair Bolsonaro, que também já prestou depoimento no caso.
O peso do silêncio e a guerra pela narrativa
O depoimento de Paulo Sérgio Nogueira não livra o general da
possibilidade de condenação, mas revela fissuras dentro da cúpula
militar que integrou o governo Bolsonaro. Ao trocar o silêncio por uma
tentativa de autopreservação, o ex-ministro ensaia uma ruptura com o
discurso negacionista e conspiratório da extrema direita.
Resta saber se a estratégia de arrependimento tardio e reposicionamento
institucional será suficiente para mitigar sua responsabilidade penal ou se
será vista apenas como uma manobra de contenção de danos às
vésperas de um julgamento histórico.
Fonte: Vermelho

