Lula articula frente e critica práticas intervencionistas em cúpula no Chile
Presidentes de Brasil, Chile, Colômbia, Espanha e Uruguai defendem
multilateralismo, justiça social e regulação digital diante da ofensiva
autoritária global da extrema direita
por Lucas Toth
Publicado 21/07/2025 15:59 | Editado 21/07/2025 17:37
Líderes de Brasil, Uruguai, Chile, Espanha e Colômbia posam sob o lema
“Democracia Siempre” após a Reunião de Alto Nível em Santiago, que
articulou uma frente internacional progressista contra o autoritarismo, a
desigualdade e o unilateralismo. Foto: Ricardo Stuckert / PR
Em meio à escalada autoritária e à imposição de tarifas unilaterais
por parte do governo dos Estados Unidos, o presidente Luiz Inácio
Lula da Silva participou nesta segunda-feira (21), em Santiago, da
Reunião de Alto Nível “Democracia Sempre”.
Ao lado dos presidentes Gabriel Boric (Chile), Gustavo Petro
(Colômbia), Pedro Sánchez (Espanha) e Yamandú Orsi (Uruguai), Lula
defendeu a construção de uma frente internacional progressista
contra o extremismo de direita e afirmou que os países precisam
atuar juntos diante da tentativa de retomada de práticas
intervencionistas.
Reunidos no Palácio de La Moneda, os presidentes de cinco países
reafirmaram nesta segunda-feira o compromisso com uma agenda
democrática comum, baseada na cooperação internacional, na justiça
social e na defesa do multilateralismo.
O encontro marca a segunda edição da iniciativa articulada
originalmente por Lula e Pedro Sánchez em 2024, durante a
Assembleia Geral da ONU, e acontece em um novo contexto de
tensão: a ofensiva tarifária do governo de Donald Trump e o avanço
de forças de extrema direita em diversos continentes.
Na declaração conjunta à imprensa, os chefes de Estado
apresentaram os três eixos centrais da articulação. São eles a defesa
da democracia e do multilateralismo, o enfrentamento às
desigualdades e o combate à desinformação com regulação das
plataformas digitais.
O presidente brasileiro sublinhou que a democracia não se limita a
eleições periódicas e que os sistemas políticos perderam legitimidade
ao deixarem de responder às necessidades populares.
“O sistema político e os partidos caíram em descrédito”, afirmou, ao
defender um novo modelo de desenvolvimento com foco no bem-
estar social. “A democracia liberal não foi capaz de responder aos
anseios e necessidades contemporâneas”, disse.
Durante sua fala, Lula também defendeu medidas concretas para
enfrentar os desequilíbrios estruturais do sistema global. “Não há
justiça em um sistema que amplia benefícios para o grande capital e
corta os direitos sociais”, disse, ao defender que “os super-ricos
precisam arcar com a sua parte nesse esforço”.
Ele lembrou que 733 milhões de pessoas passam fome todos os dias
e que políticas de austeridade impõem um sofrimento intolerável ao
Sul Global. “Sem um novo modelo de desenvolvimento, a democracia
seguirá ameaçada por aqueles que colocam seus interesses
econômicos acima dos da sociedade e da pátria”, declarou.
Pedro Sánchez acusou diretamente o que chamou de “internacional
reacionária” e alertou que o progressismo precisa se articular de
forma coordenada para enfrentar a ofensiva global da ultradireita.
“Preservar a democracia é um dever moral”, disse. O presidente
espanhol ainda anunciou que a próxima edição da cúpula ocorrerá
em 2026, sob organização da Espanha.
Já Gabriel Boric defendeu que a democracia deve “entregar
resultados” e reforçou que ninguém pode se salvar sozinho. “A crise
climática, a pandemia e o crime internacional são desafios que
devemos enfrentar em conjunto”, alertou o chileno
A fala de Gustavo Petro retomou a ideia de que a democracia deve
ser defendida com convicção e com base em valores humanos
fundamentais, como a liberdade e a solidariedade. Ele alertou para a
destruição da multilateralidade por discursos irracionais e disse que,
diante da escuridão, cabe aos progressistas “ligar a luz”.
Yamandú Orsi destacou a necessidade de autocrítica diante da perda
de credibilidade das instituições e defendeu que a democracia
continue sendo compreendida como a melhor forma de convivência
social.
Cúpula terá continuidade na ONU e articula proposta global com
participação da sociedade civil
Os presidentes confirmaram a elaboração de uma proposta conjunta
que será apresentada na 80ª Assembleia Geral das Nações Unidas,
em setembro, em Nova York.
Segundo Boric, o novo ciclo da iniciativa incluirá lideranças de outros
continentes e buscará “construir alternativas concretas frente aos
desafios comuns enfrentados pelas democracias”.
Durante sua declaração, o presidente chileno anunciou que já
convidou chefes de Estado que aceitaram se somar ao esforço.
Veja a lista de chefes de Estado que aceitaram o convite:
Claudia Sheinbaum (México);
Xiomara Castro (Honduras);
Keir Starmer (Reino Unido);
Mark Carney (Canadá);
Anthony Albanese (Austrália);
Cyril Ramaphosa (África do Sul);
Mette Frederiksen (Dinamarca).
“Somos um grupo importante, grande, de líderes de países diferentes,
mas com visões que se complementam para defender a democracia”,
disse Boric.
Ele ressaltou que o esforço coletivo se diferencia por propor medidas
estruturais, como o enfrentamento à desigualdade, o combate à
desinformação e a cooperação contra o crime organizado
transnacional.
Um dos eixos centrais da articulação é a regulação das plataformas
digitais, tema que uniu os cinco presidentes.
Lula foi incisivo ao defender que a liberdade de expressão não seja
manipulada para proteger discursos de ódio e ataques às instituições.
“Liberdade de expressão não se confunde com autorização para
incitar a violência, difundir o ódio, cometer crimes e atacar o Estado
Democrático de Direito”, afirmou.
Ele também destacou que a transparência dos dados e a criação de
uma governança digital global são fundamentais para garantir um
debate público livre e plural.
A agenda da reunião incluiu ainda um diálogo com intelectuais e
representantes da sociedade civil. Após a declaração à imprensa, os
líderes participaram de um almoço com nomes como o economista
sul-coreano Ha-Joon Chang, a filósofa norte-americana Susan Neiman
e o Prêmio Nobel Joseph Stiglitz.
Em seguida, se reuniram com mais de 300 organizações chilenas,
incluindo sindicatos, centros de pesquisa, movimentos populares e
grupos estudantis.
Segundo Lula, essa articulação com a base social é decisiva para
resgatar a legitimidade democrática: “A defesa da democracia não
cabe somente aos governos. Requer participação ativa da academia,
dos parlamentos, da sociedade civil, da mídia e do setor privado.”
Gabriel Boric reiterou que a proposta construída não será apenas
institucional, mas também cultural e social.
“Não basta apontar quem pensa diferente. Temos que ser capazes de
propor uma alternativa. A democracia tem que entregar resultados”,
afirmou. Ele também reforçou que os problemas democráticos
contemporâneos — como a desigualdade, o autoritarismo, o
desmonte ambiental e o bloqueio de ajuda humanitária — exigem
respostas globais articuladas.
Fonte: Vermelho

