Lula e Boric defendem integração sul-americana contra instabilidade global
Em reunião com presidente do Chile, Lula convoca países da região a
superarem divisões para enfrentar o cenário global, por Cezar Xavier.
Publicado 22/04/2025 16:49 | Editado 22/04/2025 19:52
Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante almoço oferecido
pelo Presidente da República e a Senhora Janja Lula da Silva ao Presidente da
República do Chile, Gabriel Boric. Palácio Itamaraty, 3º andar, Sala Brasília.
Foto: Ricardo Stuckert / PR
A reunião entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Gabriel Boric,
realizada nesta terça-feira (22) no Palácio do Planalto, marcou não
apenas os 189 anos de relações diplomáticas entre Brasil e Chile, como
também a primeira bilateral no ano que celebra a amizade entre os dois
países. Mais do que protocolar, o encontro se transformou em uma
declaração enfática sobre o papel da América do Sul no mundo — uma
região que, segundo Lula, precisa superar divisões históricas para se
afirmar como polo de soberania, cooperação e desenvolvimento.
Ao lembrar que a data coincide com o “descobrimento” do Brasil pelos
portugueses, Lula afirmou que a história sul-americana precisa de um
novo início — um que passe pela integração entre os povos do
continente.
“O Brasil vivia de costas para a América do Sul”
Em um discurso de forte teor geopolítico, Lula traçou um panorama
histórico das relações entre os países da região. “Por muito tempo,
fomos ensinados a olhar para a Europa e os Estados Unidos e a nos
enxergar como inimigos”, afirmou. O presidente brasileiro lembrou que
apenas em seus primeiros mandatos o Brasil iniciou a construção de
infraestruturas que de fato conectassem o país a seus vizinhos, como
pontes com Bolívia e Peru.
Lula reforçou que esse isolamento foi incentivado até mesmo por setores
militares. “Venezuelanos eram ensinados a ver o Brasil como ameaça.
Isso precisa acabar. Temos que nos ver como aliados estratégicos, e não
como adversários”, declarou.
Integração como política de Estado
Mais do que um discurso de ocasião, Lula defendeu que a integração
regional seja tratada como prioridade permanente dos Estados sul-
americanos. “Política externa não pode ser feita conforme o gosto de
cada presidente. Tem que ser política de Estado”, disse. Ele criticou a
paralisia institucional causada pela burocracia e cobrou que os acordos
firmados tenham metas e prazos. “Se não tiver data, o burocrata — que é
eterno — não executa. Nosso mandato tem prazo, o dele não”, ironizou.
O presidente também destacou que os países da América do Sul
precisam deixar de lado as divergências ideológicas. “Não precisa gostar
um do outro. Isso aqui não é casamento, é relação entre Estados”,
afirmou, ao relembrar sua boa convivência com presidentes de diferentes
espectros políticos, como Uribe e Piñera.
Soberania, BRICS e liderança generosa
Lula voltou a criticar o protecionismo das grandes potências e o
desequilíbrio das instituições internacionais. “As regras do jogo global
não foram feitas para nós. Foram feitas pelos colonizadores”, disse,
mencionando a desproporção de votos no Comitê Olímpico e a sub-
representação africana.
Ele reiterou que o Brasil não precisa disputar “carguinhos” com vizinhos:
“O Brasil já é grande por si só. Nossa liderança tem que ser generosa, de
construção conjunta.” Lula convidou Boric a participar da Cúpula dos
BRICS em julho, e sugeriu que o chileno procure uma audiência com o
presidente chinês Xi Jinping: “Você precisa mostrar que a grandeza de
um país não está no seu território, mas na força da sua política e do seu
povo.”
Por fim, agradeceu o acolhimento chileno a exilados brasileiros durante a
ditadura. “O Brasil é eternamente grato ao Chile pelo que fez em 1964”,
declarou.
Boric: laços estratégicos e democracia no centro da agenda
Ao lado de Lula, o presidente Gabriel Boric celebrou a “revitalização” das
relações bilaterais com o Brasil, desde o retorno dele à Presidência em
2023. “Compartilhamos laços de amizade e fraternidade. E hoje, mais do
que nunca, estamos trabalhando juntos pelo desenvolvimento de nossos
povos”, afirmou.
Boric destacou que os 19 acordos firmados no último ano abrangem
temas que vão da segurança à inteligência artificial. “Queremos políticas
públicas que melhorem a vida dos mais pobres e da classe média. Esse
é o centro da nossa cooperação.”
Comércio recorde e integração concreta
O presidente chileno celebrou o recorde histórico no comércio bilateral
em 2024, com mais de US$ 12 bilhões em intercâmbio — superando,
segundo ele, o comércio do Brasil com França, Espanha e Reino Unido.
“O Brasil é nosso principal parceiro comercial na região e um dos mais
relevantes no mundo”, declarou.
Ele também antecipou a participação dos dois países em um fórum
empresarial e em projetos estratégicos como o corredor bioceânico, que
ligará os oceanos Atlântico e Pacífico por meio da infraestrutura
rodoviária compartilhada com Argentina e Paraguai. “Não é só retórica. É
integração real”, disse.
Segurança, cultura e inovação no pacote de acordos
Cerimônia de assinatura de atos entre a ministra de Ciência, Tecnologia e Inovação, Luciana Santos, e a ministra chilena da mesma pasta, Aisén Etcheverry. Palácio do Planalto, Salão Leste. Foto: Ricardo Stuckert / PR
A visita oficial culminou na assinatura de 13 acordos em áreas como
segurança pública, cooperação jurídica, cultura, ciência, agricultura e
defesa. Entre os destaques, está o pacto para combater o crime
organizado transnacional, com troca de informações entre polícias e
judiciários, e o memorando para promover produções audiovisuais
conjuntas.
Outros acordos contemplam agricultura familiar, políticas migratórias,
certificação sanitária e desenvolvimento de inteligência artificial com
ênfase em inclusão e soberania digital.
Um novo capítulo para a América do Sul
A cerimônia no Planalto simbolizou mais do que a reaproximação de dois
governos progressistas: marcou um novo capítulo para a América do Sul,
que busca respostas conjuntas em tempos de guerra comercial, crises
climáticas e desigualdades crescentes. Brasil e Chile apontam caminhos
possíveis — com diálogo, integração e compromisso com a democracia.
Como resumiu Boric: “Temos o dever de trabalhar juntos. Aqui, na
América do Sul, somos países amigos”.
Fonte: vermelho

