Mais de 14 milhões de brasileiros deixam a pobreza sob o governo Lula
Para Marcelo Neri, pesquisador da FGV Social, Brasil vive momento
histórico de redução da desigualdade e avanço da renda dos mais
pobres, com sustentação no mercado de trabalho e nas políticas
sociais
por Cezar Xavier
Publicado 09/09/2025 16:43 | Editado 09/09/2025 17:19
Desde 2023, mais de 14 milhões de pessoas saíram da pobreza no Brasil
Foto: Lyon Santos/MDS
Entre maio de 2023 e julho de 2025, durante o governo Lula, o Brasil
reduziu em 25% o número de famílias em situação de pobreza no
Cadastro Único. Foram 6,55 milhões de famílias que ultrapassaram a
linha de renda de R$ 218 por pessoa ao mês — o equivalente a 14,17
milhões de brasileiros.
Para o pesquisador Marcelo Neri, diretor da FGV Social, os dados
confirmam uma tendência inédita: a queda consistente da
desigualdade desde 2024.
O pesquisador Marcelo Neri, da FGV Social
“Isso não é só um dado estatístico — é uma revolução silenciosa. É
um sinal muito bem-vindo”, diz Neri ao Portal Vermelho. “Estamos
vendo a renda dos 50% mais pobres crescer quase cinco vezes mais
rápido que a dos 10% mais ricos. Em 2025, a renda do trabalho na
base cresceu 9,8%, enquanto no topo, apenas 2%. Isso é distribuição
com crescimento — e não o contrário. Isso mostra que o bolo está
crescendo com mais fermento na base da distribuição”
Ele lembra que em 2024 o Brasil atingiu o menor nível de
desigualdade desde o início da série histórica, em 1960 — e os dados
de 2025 mostram que a queda continua. “Estamos falando de um
movimento que não víamos de forma tão sistemática há anos.”
“Estamos chegando a 0,5 no índice de Gini — o ‘Cabo da Boa
Esperança’ da desigualdade. Ainda não dobramos essa curva, mas
estamos no caminho.” Neri se refere ao índice Gini de desigualdade
econômica, indicador que mede a concentração de renda e varia de 0
(máxima igualdade) a 1 (máxima desigualdade).
Mercado de trabalho puxando a melhora
Neri ressalta que a principal diferença em relação a períodos
anteriores está na sustentação dos ganhos. “O desemprego caiu, a
participação no mercado de trabalho aumentou, a educação avançou,
os salários por ano de estudo cresceram. Não é um único fator, mas
um conjunto de motores puxando a melhoria, como um carro
subindo a montanha com tração nas quatro rodas.”
Para ele, a “tração nas quatro rodas” se reflete na queda do
desemprego, aumento da participação no mercado de trabalho,
melhoria na educação e valorização do salário por ano de estudo.
“Até uma jornada de trabalho, que caiu um pouco, é um sinal positivo:
as pessoas estão trabalhando menos horas para ganhar mais — isso
é produtividade e dignidade.”
Para o economista, as características vão além dos programas de
transferência de renda — embora reconheça seu papel específico. “O
Bolsa Família e o BPC [Benefício de Prestação Continuada] são
importantes, mas o que dá sustentabilidade a esse movimento é o
mercado de trabalho. Quando a renda do trabalho cresce na base,
você constrói um piso social mais resistente a choques.”
Para ele, o fato de a renda do trabalho explicar boa parte da elevação
de renda dá mais robustez ao movimento: “É mais sustentável do que
se fosse apenas fruto de programas emergenciais. O Bolsa Família
ajuda, mas o mercado de trabalho garante permanência.”
Nordeste lidera a retomada
Um dos pontos mais enfatizados por Neri é a regionalidade do
avanço: “O Nordeste, onde a concentração de programas como Bolsa
Família e BPC é maior, foi a região onde a renda mais cresceu em
2024. Isso não é coincidência — é evidência de que políticas públicas
bem focalizadas geram impacto real.”
Ele rejeitou a narrativa de que o avanço seria apenas “efeito
conjuntural” ou “herança da economia global”. “Temos choques
externos — tarifas, juros altos — e mesmo assim o mercado de
trabalho brasileiro responde com inclusão. Isso mostra robustez. E
quando você combina políticas sociais com recuperação do emprego
e valorização da educação, cria um ciclo virtuoso: mais renda na base
gera mais consumo, que gera mais emprego, que gera mais renda.”
O pesquisador destaca, contudo, que políticas sociais seguem
decisivas. “Não há um fator único, mas sim vários. A educação, os
programas sociais e a melhora do mercado de trabalho atuaram
juntos.
Neri lembra que cerca de 2,5 pontos percentuais do crescimento de
9,8% da renda dos mais pobres vêm do efeito da educação.
O papel do Cadastro Único
O pesquisador avalia que a modernização do Cadastro Único — hoje
integrado automaticamente ao CNIS (Cadastro Nacional de
Informações Sociais), que traz dados de renda formal, contribuições e
benefícios — é parte central desse processo. Antes, dependia-se da
autodeclaração — agora, cruzam-se bases, reduz-se fraudes e
aumentam as soluções.
“O CadÚnico não é apenas uma base de dados, mas uma plataforma
de atuação. Ele permite localizar a pobreza com nome e endereço e
direcionar melhor as políticas públicas.”
Apesar da melhora expressiva, Neri adverte que o combate à pobreza
está apenas no começo. “Sair da pobreza extrema é o primeiro passo
— não o último. Essas famílias ainda são vulneráveis a crises, inflação,
desemprego. Precisamos consolidar esse ganho com políticas
estruturais: educação de qualidade, qualificação profissional, acesso a
crédito e estímulo ao empreendedorismo.”
Ele lembra que, mesmo em meio ao crescimento, o Brasil ainda
convive com 19,56 milhões de famílias em situação de pobreza — e
outros 22 milhões na faixa de baixa renda (até meio salário mínimo
per capita).
Ele destaca ainda o impacto do Procad/Suas — programa que levou
entrevistas domiciliares a quase 5 mil municípios — e a nova
exigência de visita presencial para famílias unipessoais entrarem no
Bolsa Família. “Houve uma queda de 39% nesse grupo — o que
mostra que estamos combatendo distorções com eficiência, sem
perder o foco nos mais vulneráveis.” Segundo o pesquisador, a
mudança metodológica que exige entrevistas domiciliares pode ter
inibido cadastros artificiais, mas é preciso atenção para que não haja
exclusão de pessoas em situação de vulnerabilidade.
Comparação com 2003-2014: “Estamos indo mais rápido”
Neri arriscou uma comparação histórica: “O boom social dos
governos Lula e Dilma foi extraordinário — mas os dados sugerem
que, desta vez, estamos avançando em ritmo ainda mais acelerado.
Em menos tempo, obtemos resultados mais profundos, com maior
sustentabilidade, porque o mercado de trabalho está puxando junto.”
Para ele, o segredo está na combinação de três pilares:
1. Políticas sociais robustas e bem focalizadas (Bolsa Família,
BPC);
2. Recuperação estrutural do emprego e do rendimento do
trabalho;
3. Modernização da gestão pública (CadÚnico, integração de
bases, visitas domiciliares).
“Estamos colhendo resultados importantes em pouco tempo.
Provavelmente boas sementes foram plantadas antes. O Brasil vive
uma excelente colheita de resultados sociais. Mas não é hora de
relaxar, é hora de redobrar a atenção para garantir que esses avanços
sejam permanentes”, conclui Neri.
Fonte: Vermelho

