Pesquisa mostra que 67% dos brasileiros preferem ter carteira assinada
Os que acham melhor trabalhar sem registro somam 31%; 72% dos que recebem
até dois salários mínimos julgam o vínculo formal mais importante, mostra
Datafolha
É antiga a campanha do patronato e dos grandes órgãos de imprensa contra os
direitos trabalhistas. Desde os primeiros — garantidos à classe trabalhadora após
muita luta e especialmente a partir de Getúlio Vargas — até a reforma trabalhista
de 2017, passando agora pela valorização do empreendedorismo que, em geral,
esconde um profundo processo de precarização, os ataques a esses direitos
seguem firmes. Ainda assim, é alto o percentual dos brasileiros que preferem a
CLT à informalidade.
É o que aponta pesquisa Datafolha recém-divulgada. De acordo com o
levantamento, embora tenha caído dez pontos percentuais desde 2022, os que
preferem ter a carteira assinada somam 67%.
A pergunta feita, no caso, foi: “Na sua opinião, o que é mais importante:
trabalhar com carteira assinada, mesmo com remuneração menor, ou trabalhar
sem carteira assinada, mas com uma remuneração maior”. Na ponta oposta,
passou de 21% para 31% o percentual dos que escolheram a segunda opção; 2%
não souberam responder.
Ainda segundo a pesquisa, a preferência por ser autônomo atinge principalmente
os mais jovens, mais propensos a querer maior flexibilidade e mais sujeitos a
aceitarem jornadas mais longas e condições mais adversas. Na faixa dos 16 aos
24 anos, 68% preferem essa opção, ante 29% mais inclinados ao emprego
formal. O gosto pela CLT é maior entre os que têm 60 anos ou mais.
Além disso, a pesquisa aponta que a carteira assinada é mais relevante para
quem tem menor renda: 72% dos que recebem até dois salários mínimos julgam
o vínculo formal mais importante, contra 56% dos que ganham mais do que dez
salários mínimos. A pesquisa foi realizada entre os dias 10 e 11 de junho com
2.004 pessoas em 136 municípios.
Cenário precarizado
O cenário trazido pelo levantamento reflete a “glamourização” que passou a
envolver os chamados empreendedores nos últimos anos, especialmente após a
forte perda de direitos imposta pela reforma trabalhista.
Embora haja aqueles que, de fato, sejam pequenos empresários que optaram por
ter seu próprio negócio, é preciso colocar nessa equação alguns elementos muitas
vezes desconsiderados.
Primeiramente, é importante lembrar que muitos desses empreendedores foram
empurrados para essa situação por falta de emprego e pelos salários baixos
oferecidos por boa parte das empresas nos últimos anos.
Além disso, sob o guarda-chuva do empreendedorismo, passou a entrar
(convenientemente, diga-se de passagem, para o sistema capitalista) todo tipo de
função “por conta própria” e precarizada, que explodiu nos últimos anos com os
serviços de aplicativos, dentre os quais destacam-se os de motoristas e os de
entregadores.
Em que pese esse tipo de função oferecer maior flexibilidade e não ter o patrão
clássico controlando o trabalhador, o fato é que para ter um salário minimamente
condizente com suas necessidades básicas, esses trabalhadores — em geral,
jovens — se submetem a todo tipo de exploração.
Fazem parte desse “cardápio” desde as jornadas exaustivas, a falta de direitos
básicos que lhes permitam exercer seu trabalho com algum conforto, dignidade e
segurança, até a ausência de qualquer tipo de assistência em caso de acidente e
problemas de saúde. Soma-se a isso os prejuízos futuros à sua aposentadoria.
Também entram aí os “pejotizados”, pessoas que normalmente seriam CLT, mas
acabam tendo de trabalhar como pessoa jurídica por imposição das empresas,
uma modalidade que burla a contratação formal e que também se alastrou com a
reforma e com a explosão das terceirizações.
Os dados da pesquisa, portanto, reforçam a necessidade de haver, tanto por
parte do poder público — governos, parlamentos e judiciário — quanto do
empresariado, um olhar mais cuidadoso com a classe trabalhadora, de maneira a
garantir direitos tanto aos que optaram por ser seu próprio patrão quanto aos que
gostariam de poder aderir à formalidade.
Com o mercado de trabalho aquecido e um governo mais sensível a essa pauta,
abre-se também maior espaço para o movimento sindical buscar novas formas de
mobilizar esses trabalhadores na luta por seus direitos.
Fonte: Portal Vermelho

