Política monetária e juros altos geram ciclo vicioso que desacelera economia
Opinião é do economista Pedro Paulo Bastos, que critica aspectos
como a baixa meta de inflação e a contradição contida no argumento
de que o arcabouço fiscal permitiria reduzir os juros
por Priscila Lobregatte
Publicado 23/09/2025 18:53 | Editado 24/09/2025 08:04
Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil
O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central divulgou,
nesta terça-feira (23), a ata em que detalha os motivos para a
manutenção dos juros em 15%, tomada na semana passada. Para
Pedro Paulo Bastos, professor do Instituto de Economia da Unicamp,
o quadro atual acaba gerando um “ciclo vicioso que, claramente, está
tendo efeitos de desaceleração da economia brasileira”.
Segundo a ata do Copom, após uma fase de “firme elevação de juros”,
o Comitê optou por “interromper o ciclo e avaliar os impactos
acumulados”. Além disso, apontou que deverá manter a taxa no
patamar atual “por período bastante prolongado” para garantir que a
meta inflacionária seja alcançada.
Entre os elementos motivadores da decisão, o documento aponta a
conjuntura econômica dos Estados Unidos e as tarifas impostas pelo
país. Do ponto de vista interno, argumenta que a “atividade
econômica doméstica segue indicando certa moderação no
crescimento”.
Ao mesmo tempo, acrescenta que estímulos fiscais ou de crédito
ainda não se refletiram num quadro favorável à mudança desse
cenário. “As pesquisas setoriais mensais e os dados mais tempestivos
de consumo corroboram, em geral, o prosseguimento de uma
redução gradual de crescimento”, argumenta o Copom.
Desacelaração do consumo e dos investimentos
Ao tratar da decisão, o professor Pedro Paulo Bastos lembra que há
uma contradição importante entre o argumento de que o arcabouço
fiscal permitiria reduzir taxa de juros e o que está acontecendo no
país. “O arcabouço fiscal foi aprovado em 2023 e está funcionando
desde 2024. Muito provavelmente, a meta de superávit vai ser
cumprida e, a despeito disso, a taxa de juros continua muito alta.
Então a justificativa do arcabouço fiscal não está propriamente
valendo”.
Por outro lado, aponta, “o governo resolveu ter uma meta de inflação
muito baixa; mantê-la, dada a existência de choques de custo, gera
efeitos inflacionários grandes que a política de juros fica tentando
compensar”. Ele completa dizendo que essa situação resulta “tanto do
caráter austero do Banco Central quanto de determinadas decisões
de política econômica como a definição da meta de inflação”.
Leia também: Entidades criticam juros em 15% e acusam Banco
Central de estrangular economia
Dentre os efeitos negativos dessa equação, ressaltados por Bastos,
estão os impactos sobre o consumo das famílias e sobre os gastos em
construção e investimento. “No segundo trimestre de 2025, por
exemplo, o investimento caiu 2,2%. E o consumo das famílias
desacelerou a despeito do emprego estar elevado e do fato de que
continua havendo transferência de renda”.
Ele lembra que “no quarto trimestre de 2024, a expansão do consumo
em relação ao mesmo período do ano anterior tinha sido de 3,7%; no
primeiro trimestre deste ano, foi de 2,6% e no segundo trimestre,
1,5% em relação ao mesmo período do ano anterior”.
Dívida pública
Outro efeito problemático ponderado pelo professor diz respeito à
dívida pública. “O custo dos juros em julho foi de R$ 109 bilhões
contra ‘apenas’ R$ 80 bilhões — o que já era muita coisa — em julho
de 2024. No acumulado de 12 meses, até julho deste ano, os juros
nominais alcançaram R$ 941 bilhões, o que corresponde a 7,64% do
PIB, contra R$ 869 bilhões, ou 7,63% do PIB, até julho de 2024”,
pontua.
Portanto, explica, “o custo de quase R$ 1 trilhão está associado a essa
política de juros muito elevados; e isso provoca um resultado nominal
do setor público — que é os juros nominais mais o resultado primário
— muito prejudicado por essa política monetária”.
Bastos acrescenta que no acumulado de 12 meses, o déficit nominal
— que é igual ao custo de juros mais o resultado primário fiscal —
alcançou R$ 968 bilhões, 7,86% do PIB, contra R$ 894 bilhões, 7,30%
do PIB, em junho de 2025. Considerando esse quadro, boa parte do
resultado nominal negativo do setor público “é explicado pelos juros
apropriados, uma vez que o governo está praticamente alcançando
um superávit fiscal primário”, afirma.
Dessa forma, o déficit nominal brasileiro figura entre um dos maiores
do mundo, perto de 8% neste ano, frente a uma média em torno de
5% entre as economias emergentes. “Isso só pode ser explicado por
essa política monetária muito ruim, que deixa a dívida pública muito
elevada”, diz. Diante disso, e com a pressão do mercado financeiro, o
BC reage aumentando a Selic e gerando um “ciclo vicioso que,
claramente, está tendo efeitos de desaceleração da economia
brasileira”.
Ele alerta que esse cenário é especialmente danoso, considerando
que 2026 é ano eleitoral e que precisamos “garantir a democracia
contra ataques fascistas”.
Fonte: Vermelho

