Fortalecimento sindical é peça-chave para base social do governo

*Antônio Augusto de Queiroz
O terceiro mandato do presidente Lula se depara com um cenário profundamente
adverso para os trabalhadores e o movimento sindical, fruto de anos de desmonte
promovido por governos anteriores. A reforma trabalhista de 2017, sob o governo
Temer, e o avanço das políticas anti-sindicais no governo Bolsonaro deixaram um
legado de precarização, retirada de direitos e estrangulamento financeiro das
entidades sindicais. Nesse contexto, o restabelecimento de uma relação de
parceria entre o governo e o movimento sindical não é apenas uma questão de
justiça social, mas uma necessidade estratégica para garantir a sustentação
política de um projeto progressista.
Apesar das conquistas iniciais do governo Lula III, materializadas em políticas
públicas de interesse dos assalariados, como o aumento real do salário mínimo, a
reforma do imposto de renda, a promoção da igualdade salarial entre homens e
mulheres, o movimento sindical segue enfraquecido, sem condições materiais de
exercer seu histórico papel de defensor dos direitos trabalhistas e de mobilização
popular. Segundo o IBGE, a taxa de sindicalização tem decrescido ano a ano: em
2023, foi de apenas 9,2%, ante 15,7% em 2015. A crise financeira das entidades
sindicais, agravada pela suspensão de repasses como o do sistema Contag,
ameaça paralisar uma das poucas estruturas ainda capazes de organizar a base
social em defesa de políticas públicas inclusivas. Se o governo não agir com
urgência para restabelecer fontes de financiamento — como a regulamentação da
contribuição negocial — e para valorizar a interlocução com os sindicatos de
trabalhadores, revertendo tendências como a de pejotização, perderá um aliado
fundamental na disputa política contra as forças conservadoras.
O sindicalismo sempre foi um pilar essencial para a implementação de políticas de
redistribuição de renda e valorização do trabalho, e um defensor da ordem
democrática. No entanto, enquanto as entidades patronais contam com amplo
acesso a recursos — inclusive por meio do sistema "S" —, os sindicatos laborais
enfrentam uma asfixia financeira planejada, com propostas legislativas que
buscam inviabilizar qualquer forma de sustentação autônoma. Essa desigualdade
de condições é uma distorção antidemocrática que precisa ser combatida com
medidas concretas.
O governo Lula não pode subestimar o risco de um retrocesso ainda maior em
2026. A extrema direita está organizada, bem financiada, com forte apoio
financeiro no meio empresarial, e disposta a avançar sobre os direitos sociais e a
própria democracia. Sem um movimento sindical fortalecido, capaz de mobilizar a
classe trabalhadora e articular a defesa das conquistas sociais, fica fragilizada a
base eleitoral dos partidos progressistas. A sinalização de redução da jornada de
trabalho, embora importante, será insuficiente se não vier acompanhada de um
projeto de reestruturação sindical que garanta autonomia e capacidade de luta.
O momento exige uma aliança firme entre o governo e os movimentos sociais. A
reconstrução do sindicalismo passa pela restauração de suas fontes de
financiamento, pelo fortalecimento das negociações coletivas, pelo combate às
tentativas de criminalização da luta sindical e reversão da precarização das
relações de trabalho. Se o governo não agir agora, o preço a ser pago não será
apenas a derrota eleitoral, mas o desmonte de décadas de avanços civilizatórios.
A hora é de união e ação — o futuro do projeto democrático e popular depende
disso.

*Antônio Augusto de Queiroz é jornalista, analista e consultor político, mestre em
Políticas Públicas e Governo pela FGV. É sócio-diretor da empresa “Consillium Soluções
Institucionais e Governamentais”, foi diretor de Documentação do DIAP e é membro da
Câmara Técnica de Transformação do Estado, do Ministério da Gestão e da Inovação em
Serviços Públicos, e do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social Sustentável da
Presidência da República – o Conselhão.

Fonte: Diap

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