Caso Ultrafarma: mídia blinda Tarcísio em maior escândalo do governo

Enquanto a secretaria era o alvo, a mídia esqueceu o governador.
Quando a secretaria agiu – ainda que protocolarmente –, o mérito foi

transferido despudoradamente a Tarcísio

por  André Cintra

Publicado 26/08/2025 19:08 | Editado 27/08/2025 08:07

Foto: Agência Brasil
A descoberta do maior escândalo de corrupção do governo Tarcísio
de Freitas (Republicanos) completa duas semanas nesta terça-feira
(26) sem que a grande mídia tenha feito qualquer esforço para
contrapor o governador bolsonarista. Até o momento, prevalece uma
cobertura acrítica e acomodada, que isenta os políticos de antemão e
tenta culpabilizar apenas técnicos de carreira.
Em 12 de agosto, uma operação do MP-SP (Ministério Público de São
Paulo) levou à prisão nomes graúdos do empresariado paulista, como

Sidney Oliveira, dono da rede de farmácias Ultrafarma, e Mario Otávio
Gomes, diretor estatuário da rede Fast Shop. Eles já foram soltos
mediante fiança.
Conforme a denúncia, o esquema era coordenado por auditores
fiscais tributários do governo paulista, que favoreciam empresas
varejistas em troca de propina. Ao adulterar processos internos no
Departamento de Fiscalização da Secretaria Estadual da Fazenda
(Sefaz), esses auditores aceleravam o ressarcimento de créditos de
ICMS e até elevavam o valor a ser recebido pelas empresas.
Segundo o promotor de Justiça João Ricúpero, um dos fiscais, Artur
Gomes da Silva Neto – que também foi preso no dia 12 –, era o
principal o operador do esquema. “Ele coletava os documentos
necessários da Fast Shop e da Ultrafarma, pedia o ressarcimento dos
créditos e em seguida ele mesmo os aprovava evitando que houvesse
uma revisão. Em algumas situações, eram liberados valores
superiores ao que as empresas tinham direito e em prazos
reduzidos”, detalhou o promotor. “O esquema de fraudes teria lhe
rendido cerca de R$ 1 bilhão em propinas desde 2021.”
A oposição ao governo Tarcísio cobrou esclarecimentos na
Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp). Mas a grande mídia,
diferentemente do que costuma fazer quando uma denúncia envolve
governos progressistas, poupou o governador paulista desde o
começo da operação.
As relações entre o Palácio dos Bandeirantes e Sidney Oliveira são
antigas. Em 2022, o governo autorizou a rede farmacêutica a rebatizar
o nome da estação Saúde do Metrô, que passou a se chamar Saúde-
Ultrafarma. Com a prisão de Sidney, há quem defenda uma
investigação à parte sobre a concessão do naming rights ao
empresário, além do retorno do nome original da estação.
Além da parceria com Tarcísio, Sidney é apoiador do ex-presidente
Jair Bolsonaro (PL) e amigo do prefeito paulistano, Ricardo Nunes
(MDB). Em setembro de 2024, as redes sociais da Ultrafarma fizeram
campanha aberta pela reeleição de Nunes.

Nada disso provocou estranhamento nos veículos da grande mídia,
onde a regra é omitir referências mais diretas ao governo Tarcísio.
Matérias sobre o tema eram finalizadas com solenes “a Sefaz-SP
declarou que…”, “segundo a Secretaria…”, “nota da Sefaz informa
que…”, etc. É como se uma secretaria estadual não tivesse qualquer
ligação com o governo à qual é formalmente vinculada.
Tarcísio, ainda assim, ordenou a base governista a impedir qualquer
investigação parlamentar. A convocação do secretário estadual de
Fazenda e Planejamento, Samuel Kinoshita, à Alesp é um dos temores
do governo. O líder do governo Tarcísio, deputado Gilmaci Santos
(Republicanos) – que preside a Comissão de Finanças da Assembleia
–, já afirmou que qualquer convocação ficará, no mínimo, para
outubro, após o fim de todas as audiências públicas sobre o
orçamento de 2026.
Outro receio do governo é com a instalação de uma comissão
parlamentar de inquérito (CPI), que já foi solicitada por deputados
oposicionistas. Em meio a isso, o governo reage a conta-gotas.
Primeiro, demitiu Artur Gomes, o “cérebro” da quadrilha. Depois de
13 dias, sob muita pressão, afastou mais seis auditores. A Sefaz diz ter
aberto “outras 20 apurações preliminares voltadas à análise da
evolução patrimonial e à verificação de indícios de irregularidades”.
Num raro pronunciamento sobre o caso, Tarcísio disse que, em seu
governo, “não haverá espaço para a impunidade”. Sem dar mais
explicações, sugeriu garantir “que cada centavo retorne aos cofres
públicos”. E emendou: “A gente vai afastar, investigar, punir e
recuperar o recurso, e todos os envolvidos sofrerão as
consequências”. Nesse caso, claro, o governador teve espaço na mídia
– que não fez perguntas para esclarecer o palavrório oco.
Enquanto a secretaria era o alvo, a mídia esqueceu o governador.
Quando a secretaria agiu – ainda que protocolarmente –, o mérito foi
transferido despudoradamente a Tarcísio. “Governo Tarcísio abre
frentes de trabalho para apurar fraudes com ICMS”, manchetou
a Folha de S.Paulo em 16 de agosto. “Caso Ultrafarma: governo de São
Paulo afasta mais 6 auditores fiscais”, indicou o Metrópoles nesta
segunda-feira (25).

Embora o governador tenha declarado, posteriormente, que
“vagabundo tem que ser tratado com rigor – e é isso que vai
acontecer”, nenhum jornalista ousou perguntar a Tarcísio quem eram,
exatamente, esses vagabundos. Só os operadores do esquema? Ou
também os empresários que apoiaram sua candidatura ao governo?
“O governador gosta tanto de falar de eficiência, mas o que estamos
vendo é a secretaria ir em um rumo incerto, sem transparência”,
declarou o deputado estadual Paulo Fiorilo (PT) ao jornal O Globo.
Tarcísio joga com o tempo – e com a mídia – para não se desgastar,
mas o tamanho do rombo há de persegui-lo por mais e mais invernos.

Fonte: Vermelho

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