Fracasso de ato em Copacabana antecipa o velório de Bolsonaro

Ex-presidente não admitiu explicitamente, mas demonstrou estar em
compasso de espera, uma vez que deve se tornar réu já na próxima

semana, por  André Cintra.

Tudo indicava que 25 de março de 2025 seria o dia do velório político de
Jair Bolsonaro (PL). É nessa data que o Supremo Tribunal Federal (STF)
começa a julgar a denúncia da Procuradoria-Geral da República (PGR)
contra o ex-presidente e outros sete envolvidos na tentativa de golpe de
Estado.
Mas o fracasso do ato bolsonarista realizado neste domingo (16), em
Copacabana, no Rio de Janeiro, antecipou a cerimônia fúnebre. Com

exceção do governador paulista Tarcísio de Freitas (Republicanos) – a
quem Bolsonaro parece ter ungido como seu sucessor nas urnas –,
nenhum representante da extrema direita se beneficiou diante de uma
manifestação tão malfadada.
Temendo que o pior ocorresse, os organizadores remodelaram o ato nas
últimas semanas, concentrando a mobilização numa única cidade e
reduzindo as pautas. Uma das propostas rifadas foi a de um pedido de
impeachment do presidente Lula (PT). Coube a Tarcísio, por sinal, as
críticas de viés mais político ao governo federal.
Os pastores Silas Malafaia e Magno Malta ficaram encarregados de
disparar torpedos contra o Judiciário. Malafaia acusou a existência de um
“alexandrismo” – referência a um suposto aparelhamento do STF pelo
ministro Alexandre de Moraes. Malta, por sua vez, chamou mais a
atenção por estar com a voz visivelmente alterada, sabe-se lá por quê.
Bolsonaro falou do futuro. Ciente de que não tem chance de escapar de
uma condenação que o levará à prisão e a um possível isolamento, disse
pela primeira vez que não fugirá do Brasil. Reforçou que a mãe de todas
as batalhas da extrema direita hoje é pela anistia aos envolvidos no
levante golpista de 8 de Janeiro. O ex-presidente não admitiu
explicitamente, mas demonstrou estar em compasso de espera, uma vez
que deve se tornar réu já na próxima semana.
Dirigentes de partidos da direita ou do Centrão se ausentaram.
Governadores cotados para disputar a sucessão de Lula em 2026, como
Romeu Zema (Novo-MG), Ronaldo Caiado (União Brasil-GO) e Ratinho
Júnior (PSD-PR), também ficaram distantes do palco. Para quem precisa
desesperadamente de apoios partidários no Congresso a fim de aprovar
a anistia, o sinal foi desolador.
Não bastasse a corrida contra o relógio e o isolamento político, o
bolsonarismo enfrenta as dores do encolhimento. Era improvável que a
manifestação em Copacabana reunisse 1 milhão de pessoas. Se
mobilizasse a metade disso, já seria um feito. Mas o que se viu nas
imagens aéreas foi um esvaziamento inequívoco e agudo na
comparação com os atos anteriores.
Três estimativas técnicas dão conta de que o público no Rio sequer
chegou perto dos seis dígitos. Segundo o “Monitor do Debate Político” do
Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), ligado à USP
(Universidade de São Paulo), eram 18,3 mil manifestantes. O instituto
Datafolha contabilizou 30 mil presentes, e o Poder360, 26 mil.
Seja qual for a referência, o viés é de queda. Nas contas do Cebrap –
que fez levantamentos em outros atos golpistas realizados em

Copacabana –, Bolsonaro juntou 64,6 mil apoiadores em 7 de setembro
de 2022 e 32,7 mil em 21 de abril de 2024.
Além do noticiário cada vez mais negativo para o ex-presidente, outro
fator contribuiu para recuou nas ruas: a impopularidade da reivindicação
central do ato. Conforme pesquisa Datafolha divulgada em dezembro,
62% dos brasileiros são contrários à anistia para quem participou do 8 de
Janeiro. Como convencer os presidentes da Câmara dos Deputados e do
Senado a pautarem uma proposta tão indigesta?
Em seu discurso, Bolsonaro afirmou que, “preso ou morto”, será um
“problema” permanente para o STF. Mas o próprio ato em Copacabana
mostrou outro lado: mesmo que a prisão não decrete necessariamente a
morte política do ex-presidente, o bolsonarismo está às voltas com uma
crise crescente. Que se acendam as velas do velório!

Fonte: Vermelho

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