Sem anistia! Com democracia não se brinca e criminosos devem ser punidos

Protesto busca pressionar Congresso para aprovar projetos que
extinguem punição de envolvidos nos ataques de 8 de janeiro; juristas

alertam para riscos à democracia, por  Barbara Luz.

Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil

Uma manifestação convocada pelo ex-presidente Jair Bolsonaro e seus
apoiadores ocorre neste domingo (16), no Rio de Janeiro, em defesa da
anistia aos réus processados pelos atos antidemocráticos de 8 de janeiro
de 2023. O protesto visa pressionar o Congresso Nacional a aprovar
projetos de lei que isentam de punição os envolvidos nas invasões e
depredações às sedes dos Três Poderes.
A proposta de anistia é alvo de críticas por parte de especialistas. Para o
professor de Direito Constitucional da Universidade Federal Fluminense
(UFF) Gustavo Sampaio, conceder o perdão aos envolvidos seria um
“mau exemplo” e um risco à democracia brasileira.
“Com democracia não se brinca. Se houve crimes contra a democracia, e
todas as provas demonstram que esses crimes aconteceram, não é
razoável que os criminosos recebam o perdão. Isso incentiva novas
articulações contra o Estado Democrático de Direito”, afirmou Sampaio
à Agência Brasil.
A professora de Direito Penal da Fundação Getulio Vargas (FGV) Raquel
Scalcon também questiona a legitimidade da medida. “Estamos falando
de crimes que buscam implodir o sistema democrático. Não acho que
nada deva ser anistiado, especialmente no caso de crimes contra o
Estado Democrático de Direito”, destacou.
Já o professor da Faculdade de Direito da USP Vitor Schirato classifica a
anistia como um golpe na democracia. “É um enfraquecimento enorme
da democracia brasileira. Não faz sentido um parlamentar
democraticamente eleito conceder anistia a quem tentou destruir esse
mesmo sistema”, criticou.
Os ataques de 8 de janeiro

Após a posse do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, manifestantes
acampados em frente ao Quartel-General do Exército, em Brasília, se
uniram a outros grupos e invadiram os prédios do Executivo, Legislativo
e Judiciário. O ato resultou na destruição de móveis, obras de arte,
vidraças e equipamentos eletrônicos, além da invasão de gabinetes.
A Procuradoria-Geral da República (PGR) e a Polícia Federal apontaram
que os ataques faziam parte de uma tentativa de golpe de Estado. Mais
de 1,4 mil pessoas foram presas, e o Ministério Público Federal
denunciou 1,7 mil envolvidos. Até dezembro de 2024, 370 já haviam sido
condenados, enquanto outros assinaram acordos judiciais.
O ex-presidente Jair Bolsonaro e aliados foram indiciados e denunciados
à Justiça por suposta articulação do atentado. Seu advogado, Paulo
Cunha Bueno, nega envolvimento e alega que não há elementos que
sustentem a acusação.
Projetos de anistia no Congresso
Na Câmara, os projetos de anistia foram unificados no PL 2.858/2022, de
autoria do ex-deputado major Vitor Hugo (PL-GO), que busca isentar de
punição os participantes dos atos de 8 de janeiro e outras manifestações
contra o resultado das eleições de 2022. No Senado, o PL 5.064/2023,
de Hamilton Mourão (Republicanos-RS), propõe anistiar condenações
por golpe de Estado e abolição do Estado Democrático de Direito. Já o
projeto do senador Márcio Bittar (União-AC) prevê ainda a restauração
dos direitos políticos de inelegíveis por envolvimento nos atos.
Os defensores da anistia alegam que há perseguição política aos réus.
Major Vitor Hugo afirma que “cidadãos honestos” estão sendo tratados
como “inimigos da democracia só porque pensam diferente”. Mourão
classifica as condenações como “desproporcionais”, enquanto Bittar
defende que brasileiros “condenados injustamente precisam de ajuda”.
Constitucionalidade e futuro da anistia
Juristas divergem sobre a possibilidade de anistia para crimes contra a
democracia. A Constituição concede ao Congresso o poder de perdoar
condenados, mas há interpretações de que crimes contra o Estado
Democrático de Direito não poderiam ser beneficiados.
Se aprovada, a lei deve ser questionada no Supremo Tribunal Federal
(STF). “Será impossível evitar uma disputa judicial alegando a
inconstitucionalidade da medida”, afirma Scalcon. Segundo Sampaio, a
questão será decidida pela Suprema Corte. “O Congresso pode aprovar
a anistia, mas o STF determinará se ela será válida”, destacou.

Em 2023, o STF anulou um indulto concedido por Bolsonaro ao ex-
deputado Daniel Silveira, condenado por ameaçar a democracia. O
precedente indica que, caso o Congresso conceda a anistia aos
envolvidos nos atos de 8 de janeiro, a legalidade da medida pode ser
derrubada pelo Judiciário.
A proposta de anistia reacende o debate sobre a responsabilização dos
envolvidos nos ataques e o compromisso do país com a preservação do
Estado Democrático de Direito.

com agências

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *