Metade dos brasileiros segue sem conhecer as vitrines do governo Lula
Instados a avaliarem o noticiário geral sobre o governo, 47% dizem que
as últimas notícias são “mais negativas” e somente 23% afirmam que são
“mais positivas”, por André Cintra.
Foto: Ricardo Stuckert/PR
Comunicar-se com o povo continua a ser um desafio titânico para a
terceira gestão de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no Planalto. Passados
dois meses e meio da posse do publicitário Sidônio Palmeira como
ministro da Secretaria de Comunicação Social (Secom) da Presidência
da República, metade dos brasileiros segue sem conhecer os principais
programas do governo.
É o que aponta a nova rodada da pesquisa Genial/Quaest divulgada
nesta quarta-feira (2). O levantamento ouviu 2.004 eleitores de 27 a 31
de março, com margem de erro de dois pontos percentuais.
Além de diagnosticar uma alta na desaprovação ao governo, a pesquisa
mostrou que é pequena a visibilidade dos projetos mais ousados do
mandato, iniciado em janeiro de 2023. É o caso de vitrines como o
lançamento do Pé de Meia, a ampliação do programa Farmácia Popular
e a isenção do Imposto de Renda Pessoa Física (IRPF) para quem
ganha até R$ 5 mil.
Bolsa Família, ainda
Quando questionados qual dos programas federais têm “mais tem
impacto positivo na sua vida hoje”, 20% dos entrevistados citam o bom e
velho Bolsa Família. Embora seja associado diretamente a Lula, o mais
exitoso programa de transferência de renda foi instituído por medida
provisória em 2003 e transformado em lei no ano seguinte. Mais de 20
anos depois de sua criação, a iniciativa beneficia mais de 20,56 milhões
de famílias, com pagamento médio mensal de R$ 671,81.
Porém, desde o relançamento do Bolsa Família, em março de 2023, não
há reajuste no valor do benefício. O congelamento se mantém mesmo
após uma crise de carestia no Brasil. Em 2024, a inflação dos alimentos
foi de 7,69%, conforme o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística), enquanto a cesta básica encareceu 14,22%, segundo a
Abras (Associação Brasileira de Supermercados).
Entre os programas associados a Lula e lançados no mandato atual, o
mais citado como relevante é a mudança na tabela do imposto de renda
(10%). Na sequência, aparecem o Farmácia Popular ampliado (9%), o Pé
de Meia (7%), as novas regras no saque de aniversário do FGTS (4%) e
o programa Desenrola (3%). Para 33%, no entanto, nenhum dos
programas federais lhes traz impacto direto.
A população tampouco sabe o que o governo tem feito para enfrentar os
gargalos da atualidade. De acordo com a pesquisa, 56% dos brasileiros
não sabem que o governo zerou impostos de importação de 11
alimentos, a fim de reduzir seus preços para o chamado “consumidor
final”.
Menos imposto
Com relação à proposta do governo para reformular o imposto de renda,
isentando total ou parcialmente os mais pobres, a taxa de
desconhecimento assusta. Em 27 de novembro passado, num
“pronunciamento à Nação” do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, o
aumento da faixa de isenção do Imposto de Renda se tornou público pela
primeira vez. A proposta foi repisada pelo próprio Lula em eventos
públicos e entrevistas à imprensa.
Quem ganha até R$ 5 mil se tornará isento, e quem recebe até R$ 7 mil
terá descontos. Segundo o governo, “90% dos brasileiros que pagam
Imposto de Renda (mais de 90 milhões de pessoas) estarão na faixa da
isenção total ou parcial, e 65% dos que declaram do IRPF (26 milhões de
pessoas) serão totalmente isentos”.
Sim, há poucas ações governamentais mais ousadas em termos de
justiça tributária. Mesmo assim, o índice de brasileiros que ouviram falar
da medida passou de 43% em dezembro para apenas 53% em março –
um avanço modesto. Ainda hoje, há 46% de entrevistados que,
estimulados a opinarem sobre esse progresso, sequer sabem do que se
trata.
Pior: 51% afirmam que a melhora para suas próprias finanças pessoais
será “pequena”. Mesmo entre os que serão totalmente isentos de
imposto de renda, 44% minimizam uma conquista que, nas palavras de
Haddad, equivale a um “14º salário” anual.
Rumo correto
Não é por acaso que, instados a avaliarem o noticiário geral sobre o
governo Lula, 47% dizem que as últimas notícias são “mais negativas” e
somente 23% afirmam que são “mais positivas”. Como regra, as boas
notícias não têm chegado a pelo menos metade da população. Na visão
de 44% dos brasileiros, mesmo com a troca de ministros na Secom, a
comunicação do governo “está igual”. Para 21%, piorou. Precisamente
50% indicam que, com base nas “aparições de Lula” em 2025, a
percepção sobre o presidente “tem piorado”.
Em mais de dez anos no Planalto, Lula jamais esteve às voltas com
índices tão baixos de popularidade, a despeito das tais “vitrines” e dos
bons indicadores econômicos. A pesquisa Genial/Quaest sugere que o
foco do governo pode não ser tão influente na opinião pública. Conforme
o levantamento, as maiores preocupações dos brasileiros hoje são a
violência/segurança (29%) e a questão social (23%), um e outro à frente
da economia (19%).
Até a eleição presidencial de 2026 – teste maior para este governo –, há
tempo e margem para a recuperação de seus índices de apoio. Mas está
claro que é preciso divulgar melhor as vitrines da gestão. O governo Lula
3 precisa efetivamente ousar tanto nas ações quanto na comunicação.
Nesta quinta-feira (3), um evento no Centro de Convenções Ulysses
Guimarães, em Brasília, batizado de “O Brasil dando a Volta por Cima”,
se propõe a mostrar as “entregas do governo federal nos dois primeiros
anos de mandato”. O rumo é correto, mas não pode ser uma força-tarefa
pontual. A sorte está lançada para o presidente Lula.
Fonte: vermelho

