Nova alta dos juros volta a gerar críticas por prejudicar o povo e o país
Elevação coloca Selic em seu maior patamar desde 2006 e desagrada
governo, setor produtivo e comercial e movimento sindical por engessar
o crescimento e penalizar a população
por Priscila Lobregatte
Publicado 08/05/2025 11:45 | Editado 08/05/2025 17:13
Foto: Lilian Milena/Contraf-CUT
Por unanimidade, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco
Central resolveu, nesta quarta-feira (7), aumentar em 0,5 ponto
percentual a taxa básica de juros brasileira, que passa a ser de 14,75%
ao ano. Este é o maior patamar registrado desde agosto de 2006. A
elevação voltou a gerar críticas no governo, entre parlamentares e
representações do empresariado e dos trabalhadores.
Como justificativa para a nova subida — que já era esperada pelo
mercado financeiro —, o BC apontou a alta dos alimentos e da energia,
bem como as incertezas que marcam a economia global.
O atual ciclo de aumento teve início em setembro do ano passado —
antes, a taxa estava no patamar de 10,5%, que já era considerado alto.
Esta é a sexta alta seguida.
A elevação é mais um balde de água fria para os que desejam fazer o
país avançar. Além de atravancar investimentos e o desenvolvimento
econômico e aumentar os juros da dívida pública, a Selic alta pesa,
sobretudo, no bolso da população, especialmente a mais pobre.
Repercussão negativa
A decisão repercutiu negativamente no governo e entre aliados, bem
como em entidades do setor empresarial e dos trabalhadores.
Em mensagem postada nas redes nesta quinta-feira (8), a ministra Gleisi
Hoffmann, da Casa Civil, mostrou como o Brasil poderia avançar mais se
não fossem os juros tão elevados. “Apesar dos juros nas alturas, a
indústria brasileira surpreendeu de novo e cresceu 1,2% em março,
acumulando crescimento de 3,1% em 12 meses. Parabéns, presidente
Lula e vice-presidente Alckmin pelo trabalho do MDIC (Ministério do
Desenvolvimento, Indústria e Comércio) no Nova Indústria Brasil, com
financiamentos do BNDES”, declarou.
Na terça-feira (6), antes da nova alta, o vice-presidente Geraldo Alckmin
criticou o patamar elevado, como uma trava para a economia e o
desenvolvimento. “Não é discussão para este momento, mas, no futuro,
nós precisamos aprimorar (o cálculo da taxa), porque não há dúvida de
que a Selic alta tem um impacto brutal no custo de capital, na
competitividade… E ela tem um efeito gigantesco na dívida, que é o
principal problema, que é fiscal”, disse, durante reunião Frente
Parlamentar do Empreendedorismo (FPE), em Brasília.
Alckmin tem defendido a retirada do cálculo que define a Selic os preços
dos alimentos e da energia, medida usada, por exemplo, pelo Federal
Reserve, dos EUA.
“Alimento é clima. Se tiver, como tivemos o ano passado, uma seca
brutal e um calor enorme, é óbvio que vai cair a safra com a seca. E não
adianta eu aumentar os juros que não vai fazer chover. Por isso eles [o
Federal Reserve] excluem. Da mesma forma, energia, combustível. Não
adianta eu aumentar os juros que não vai baixar o preço do petróleo. Isso
é guerra, é geopolítica”, afirmou.
Na base aliada, a medida também foi rechaçada. “É inacreditável a falta
de preocupação social. Subir a taxa de juros a níveis aberrantes para
remunerar a agiotagem financeira, que amplia a dívida pública, tudo
bem? Absurdo! Incluir os pobres no orçamento é solução e não
problema”, declarou o deputado federal Orlando Silva (PCdoB-SP).
Após a decisão, a Confederação Nacional da Indústria (CNI) emitiu nota
em que destaca: “Embora o controle da inflação seja o objetivo primordial
do Banco Central, a elevação da Selic traz riscos significativos à
economia, que está em processo de desaceleração mais acentuado do
que esperávamos no final de 2024”. A entidade ainda pediu uma postura
mais prudente por parte do Copom.
A Associação Paulista de Supermercados (Apas) também reforçou o
coro anti-elevação: “O Brasil já possui uma das maiores taxas reais de
juros do mundo e, com a recente calibragem da Selic, torna ainda mais
difícil fomentar o nível de investimento necessário para o país se manter
competitivo internacionalmente neste cenário de neoprotecionismo. Além
disso, os efeitos sobre os empregos e sobre o consumo das famílias são
deletérios”, ressaltou.
Na véspera da decisão, centrais sindicais, entre elas a Central de
Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB), fizeram manifestação
para pressionar contra nova alta e pela redução da Selic, ressaltando
que o atual patamar impede o crescimento e agrava as desigualdades,
agradando apenas o mercado financeiro.
Durante protesto em São Paulo, Ronaldo Leite, dirigente da CTB,
destacou que a taxa alta “inibe o crédito, o crescimento, os empregos e
prejudica, sobretudo, a classe trabalhadora. É por isso que as centrais
sindicais, junto com os movimentos sociais, estão mobilizadas para mais
uma vez estar aqui nas ruas, lutando para reduzir a taxa de juros. Essa é
a nossa luta e vamos seguir juntos.”
Em nota após a elevação, a CUT salientou: “Enquanto o governo do
presidente Luíz Inácio Lula da Silva avança na redução da inflação, no
fortalecimento do real, na geração de empregos e na aprovação de
reformas estruturais, o Banco Central insiste em uma política monetária
asfixiante, privilegiando interesses financeiros em detrimento do
desenvolvimento nacional e dos interesses do povo brasileiro”.
Continuidade
Embora não tenha deixado claro qual deverá ser sua decisão na próxima
reunião, em junho, em comunicado o Copom sinaliza que talvez ainda
não pretende baixar a taxa.
“Para a próxima reunião, o cenário de elevada incerteza, aliado ao
estágio avançado do ciclo de ajuste e seus impactos acumulados ainda
por serem observados, demanda cautela adicional na atuação da política
monetária e flexibilidade para incorporar os dados que impactem a
dinâmica de inflação”, apontou.
Fonte: Vermelho

