Brasil barra participação dos EUA em cúpula sobre democracia na ONU
Governo Lula, ao lado de Espanha, Chile, Colômbia e Uruguai, exclui
os EUA do fórum “Em Defesa da Democracia e Contra o Extremismo”,
às margens da ONU em Nova York
por Lucas Toth
Publicado 21/09/2025 09:21
Presidente Lula e o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, em
encontro internacional. Foto: Reprodução
Brasil e aliados decidiram não convidar os Estados Unidos para a
segunda edição do evento “Em Defesa da Democracia e Contra o
Extremismo”, que será realizado na próxima quarta-feira (24), em
Nova York, às margens da Assembleia-Geral da ONU.
A exclusão foi definida pelo governo brasileiro em articulação com
Espanha, Chile, Colômbia e Uruguai.
Segundo integrantes da diplomacia em Brasília, não haveria
condições de estender o convite a um país que, sob Donald Trump,
vive uma “virada extremista” e tem feito ataques ao sistema eleitoral e
ao Judiciário brasileiros.
“Seria uma incoerência”, resumiu um funcionário do governo Lula
à Folha de S.Paulo.
O fórum deve reunir representantes de cerca de 30 países, entre eles
Alemanha, Canadá, França, México, Noruega, Quênia, Senegal e Timor
Leste. Também estão convidados o secretário-geral da ONU, António
Guterres, e representantes da União Europeia.
O encontro foi idealizado no ano passado pelo presidente Luiz Inácio
Lula da Silva e pelo premiê espanhol, Pedro Sánchez, com o objetivo
de coordenar respostas internacionais a ameaças à democracia.
Na primeira edição, os EUA, ainda sob Joe Biden, enviaram um
representante do Departamento de Estado. Desta vez, a justificativa
oficial é que as medidas do governo Trump — como o perdão a 1.500
condenados pelos atos de 6 de Janeiro em Washington e a revogação
de iniciativas contra a desinformação — vão na contramão da agenda
do grupo.
O republicano também tem pressionado por punições a
personalidades que criticaram Charlie Kirk, ativista conservador
morto em 10 de setembro, e se opõe à regulação de plataformas
digitais.
As tensões entre Brasília e Washington se intensificaram desde julho,
quando Trump anunciou sobretaxa de 50% a produtos brasileiros,
cancelou vistos de autoridades e aplicou sanções contra o ministro
Alexandre de Moraes com base na Lei Magnitsky.
Nesta semana, o secretário de Estado, Marco Rubio, afirmou que
novas medidas punitivas serão impostas após a condenação de Jair
Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado. Entre as possibilidades,
estão novas restrições de visto, aumento de tarifas e até a inclusão da
esposa de Moraes na lista de sanções.
Lula desembarca neste domingo (21) em Nova York, onde abrirá os
discursos da Assembleia-Geral na terça (23).
Na segunda (22), ele participa de um evento sobre a solução de dois
Estados para a Palestina, posição defendida pelo Brasil e rejeitada
pelos EUA.
Já na quarta (24), pela manhã, o presidente brasileiro presidirá a
reunião “Em Defesa da Democracia e Contra o Extremismo”, que
também discutirá desinformação, discurso de ódio e desigualdade
social.
Será a primeira vez que Lula e Trump estarão no mesmo local desde a
vitória do republicano e o anúncio das sanções contra o Brasil.
Embora não haja previsão de encontro direto, assessores não
descartam que o brasileiro utilize seu discurso na ONU para
responder a eventuais novas medidas.
O pronunciamento de Trump está programado logo depois da fala do
Brasil, que tradicionalmente abre o debate anual da Assembleia-
Geral.
Na pauta da reunião de alto nível, além das tensões entre Brasil e
EUA, devem aparecer temas como a guerra na Ucrânia, o conflito
entre Hamas e Israel em Gaza — que Lula já classificou como
genocídio — e a COP30, marcada para novembro em Belém.
Fonte: Vermelho

