Conferência da ONU aprova declaração e amplia reconhecimentos à Palestina

Organizado por França e Arábia Saudita, encontro em Nova York
reuniu líderes do Sul Global e da Europa, selou cinco novos
reconhecimentos e expôs o isolamento de Israel e EUA
por  Lucas Toth

Publicado 23/09/2025 07:18 | Editado 23/09/2025 08:12

O presidente da França, Emmanuel Macron, cumprimenta o chanceler
saudita, Faisal bin Farhan, durante a conferência sobre a Palestina e a
solução de dois Estados na sede da ONU, em Nova York. Foto: Reprodução
A conferência internacional convocada por França e Arábia Saudita às
margens da Assembleia-Geral da ONU aprovou, nesta segunda-feira
(22), a chamada Declaração de Nova York, com 142 votos favoráveis.
O documento prevê “passos tangíveis, com prazo definido e
irreversíveis” para a criação de um Estado palestino e foi

acompanhado por uma onda de reconhecimentos oficiais anunciados
em plenário.
França, Mônaco, Luxemburgo, Malta e Bélgica se somaram a outros
países europeus e reforçaram a pressão diplomática sobre Israel, cuja
mesa permaneceu vazia durante o encontro, assim como a dos
Estados Unidos.
O chanceler saudita, Faisal bin Farhan, copresidente da conferência,
inaugurou a sessão após as falas de Macron com críticas severas à
ocupação israelense.
Denunciou os “crimes brutais” cometidos em Gaza, na Cisjordânia e
em Jerusalém Oriental e afirmou que Israel também tem atacado a
soberania de países árabes e muçulmanos.
“A implementação da solução de dois Estados é o único caminho para
alcançar uma paz justa e permanente”, disse, ao conclamar outros
governos a reconhecer a Palestina como passo “histórico” para a
estabilidade regional.
Bin Farhan incentivou outros governos a se somarem à onda de
reconhecimentos anunciada na conferência, afirmando que o gesto
teria efeito imediato sobre a correlação de forças no Oriente Médio.
“Conclamamos todos os demais países a dar esse passo histórico de
reconhecer a Palestina, que terá grande impacto no apoio aos
esforços de implementação da solução de dois Estados, alcançar uma
paz abrangente no Oriente Médio e construir uma nova realidade de
paz, estabilidade e prosperidade”, concluiu.
Na sequência, o secretário-geral António Guterres afirmou que “o
reconhecimento é um direito da Palestina, não uma recompensa” e
advertiu que negar a condição de Estado “seria um presente para
extremistas em todos os lugares”.

O secretário-geral da ONU, António Guterres, discursa durante a
conferência sobre a Palestina e a solução de dois Estados, realizada na sede
das Nações Unidas, em Nova York. Foto: Reprodução
A presidente da Assembleia-Geral, Annalena Baerbock, reforçou o
caráter vinculante da resolução aprovada, ao lembrar que a
Declaração de Nova York expressa uma das votações mais amplas já
registradas em favor da Palestina.
Impedido de viajar a Nova York após ter o visto negado pelos EUA, o
presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, falou por
vídeo.
Abbas defendeu um Estado “unificado, sem armas, com uma só lei e
forças de segurança legítimas” e declarou que o Hamas “não terá
papel no governo”.
Ao prometer reformas institucionais e eleições em até um ano após o
cessar-fogo, disse que as votações ocorrerão sob supervisão
internacional, e encerrou com um apelo aos israelenses.
“Nosso futuro e o de vocês depende da paz. Chega de guerra”, disse.

O presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, participa por
videoconferência da conferência sobre a Palestina e a solução de dois
Estados, após ter o visto negado pelos Estados Unidos. Foto: Reprodução
Outros líderes do Sul Global também se revezaram em discursos
duros contra Tel Aviv. O presidente turco, Recep Tayyip Erdoğan,
evocou o Holocausto para acusar Netanyahu de genocídio.
“O governo Netanyahu governa hoje uma sociedade que no passado
foi alvo de extermínio com as perseguições do Holocausto. E hoje seu
governo está cometendo genocídio contra seus próprios vizinhos,
com quem compartilhou a mesma terra, a mesma água, o ar e o mar
por milhares de anos”, disse.
O primeiro-ministro egípcio, Mostafa Madbouly, reforçou a dimensão
estratégica do tema. “A solução de dois Estados não é apenas uma
escolha política ou moral. É um imperativo de segurança”, afirmou.
A partir daí, multiplicaram-se os anúncios de reconhecimento formal
da Palestina.
O príncipe de Mônca Albert II afirmou que seu país também dará esse
passo, afirmando que “a paz não pode ser alcançada por decreto, ela
é construída pela vontade compartilhada”.

De Luxemburgo, o primeiro-ministro Luc Frieden afirmou que
“raramente a perspectiva de uma solução de dois Estados pareceu
tão distante e, no entanto, nunca a vontade internacional foi tão
unificada”.
O premiê maltês Robert Abela rebateu o argumento de que a medida
fortaleceria o Hamas. “Uma solução de dois Estados é o pior resultado
possível para o Hamas. Não é isso que eles querem ver.”
Já o primeiro-ministro belga Bart De Wever disse que seu país envia
“um forte sinal político e diplomático ao mundo”, mas condicionou a
implementação do reconhecimento à libertação de reféns e à retirada
do Hamas do governo palestino.
Os quatro países se somaram a França no reconhecimento do estado
palestino durante a conferência desta segunda-feira.
Da América Latina, o presidente do Brasil Luiz Inácio Lula da Silva
denunciou a expansão dos assentamentos e a limpeza étnica em
curso.
“Como podemos falar de território diante de uma ocupação ilegal que
cresce a cada novo assentamento? Como manter uma população
diante da limpeza étnica que estamos testemunhando em tempo
real?”, questionou.
Já o presidente espanhol Pedro Sánchez advertiu que “é urgente que
exista um povo palestino no Estado que reivindicamos reconhecer”,
antes de concluir que “o povo palestino está sendo aniquilado” e que
o massacre precisa ser interrompido “neste exato momento”.
O presidente da África do Sul, Cyril Ramaphosa, reafirmou a denúncia
de genocídio e lembrou a ação movida por Pretória na Corte
Internacional de Justiça.
“Israel desencadeou uma punição desproporcional contra o povo da
Palestina. A única solução é a de dois Estados”, disse. Poucos dias
antes, o neto de Nelson Mandela declarara que a vida sob ocupação
israelense é “pior que o apartheid”.

O contraste com Tel Aviv e Washington foi inevitável. Netanyahu
repetiu que “um Estado palestino não será estabelecido a oeste do
Jordão” e o embaixador israelense na ONU, Danny Danon, chamou o
encontro de “circo”.
A Casa Branca afirmou que os reconhecimentos seriam um “presente
ao Hamas”, enquanto o secretário de Estado Marco Rubio havia
tentado barrar a conferência desde junho.
“Os EUA estão completamente isolados”, resumiu o senador
democrata Chris Van Hollen, que criticou a submissão do governo
Trump a Netanyahu.
O saldo da conferência foi inequívoco: pela primeira vez em décadas,
grandes potências europeias se somaram em bloco ao Sul Global
para defender a Palestina, deixando Estados Unidos e Israel cada vez
mais encurralados.
Entre os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da
ONU, apenas Washington manteve objeção.
No encerramento, restou a impressão de que, diante de uma
ocupação cada vez mais brutal e de uma diplomacia norte-americana
rendida a Tel Aviv, cresce o consenso de que a solução de dois
Estados não é apenas urgente, mas inevitável.

Fonte: Vermelho

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