Empresas de tecnologia dos EUA adotam jornada de 72 horas semanais, proibida na China

Startups de inteligência artificial instituem “escravidão moderna” para
seus funcionários, inspirada em modelo combatido na China,
argumentando busca de hiperprodutividade para vencer corrida pela

IA

por  Cezar Xavier

Publicado 11/08/2025 14:55 | Editado 11/08/2025 16:33
Anúncios de emprego de algumas empresa de Inteligência Artificial só
contratam jovens talentos dispostos a trabalhar 70 horas por semana •
Foto: Divulgação/Lendico
A cultura de trabalho “996” — das 9h às 21h, seis dias por semana —
nasceu no setor de tecnologia chinês, mas foi declarada ilegal em
2021 pelo Supremo Tribunal Popular e pelo Ministério de Recursos
Humanos da China. A decisão veio após denúncias de “escravidão
moderna” e protestos contra o excesso de trabalho, associado a
mortes e crises de saúde mental. O que Pequim classificou como
ilegal por ferir direitos básicos, algumas empresas californianas estão
vendendo como “compromisso com a missão” — um eufemismo para
exploração aberta.
O modelo está sendo ressuscitado, agora no coração do Vale do
Silício, a região californiana que concentra as maiores empresas de
tecnologia dos EUA, especialmente entre startups de IA (inteligência
artificial) dispostas a tudo para acelerar seus produtos e disputar a
liderança global no setor.
Este cenário atual é o oposto do que empresas como Google
costumavam exibir como atrativo para talentos jovens no início do
século: ambientes lúdicos e relaxantes com ioga, jogos e estímulos
criativos, além de benefícios incomuns para o mercado de trabalho da

época. Com a era Trump, até mesmo políticas de diversidade foram
abandonadas, revelando o marketing farsesco que representavam.
Startups assumem discurso “hardcore” e colocam 70 horas
semanais como requisito
A Rilla, especializada em IA, é um exemplo emblemático. Suas vagas
deixam claro: só se candidate se estiver “animado” para trabalhar
cerca de 70 horas por semana, presencialmente, ao lado de “algumas
das pessoas mais ambiciosas de Nova York”. Quase todos os seus 80
funcionários seguem o modelo 996.
Outras empresas criam incentivos para adesão total. A Fella & Delilah,
de telessaúde, oferece aumento salarial de 25% e o dobro de
participação acionária a quem aceitar a jornada — embora menos de
10% do time tenha topado. Bônus e ações são usados como moeda
para comprar desgaste físico e mental, criando um mercado de
“talentos descartáveis” onde só fica quem aceita se sacrificar.
Pressão da corrida pela IA e o medo de ficar para trás
O avanço de concorrentes chinesas como a DeepSeek, que lançou um
modelo de IA comparável aos líderes dos EUA, elevou a tensão no
setor. Investidores e executivos argumentam que jornadas mais
longas são necessárias para “não perder a corrida”.
Figuras como Elon Musk e Sergey Brin já defenderam publicamente a
produtividade extrema, e vozes como a do investidor Harry Stebbings
vão além: para construir uma empresa de US$ 10 bilhões, “sete dias
por semana é a velocidade necessária para vencer agora”. Com isso,
Stebbings chega a sugerir que talvez o 996 seja “pouco” diante da
urgência atual.
Críticas alertam para esgotamento e riscos jurídicos
Especialistas em recursos humanos e saúde alertam que jornadas
desse tipo minam a produtividade em trabalhos de alta demanda
cognitiva e aumentam riscos de burnout. Consequência: rotatividade
alta, erros custosos em produtos e aumento explosivo de custos
indiretos. Este impacto social negativo foi percebido na China, que
passou a combater este tipo de abuso.

Na Califórnia, onde as leis trabalhistas são rígidas, advogados
afirmam que startups podem estar “claramente em descumprimento”
ao exigir 996, o que pode gerar litígios caros.
Ao ignorar a experiência chinesa, o Vale do Silício arrisca trocar sua
reputação de vanguarda por um modelo que combina o pior do
corporativismo autoritário com a precarização neoliberal. Para
críticos, a aposta pode sair pela culatra: o esgotamento é uma das
principais causas de fracasso de startups em estágio inicial, segundo
investidores de risco.
Histórico cruel de colapsos por excesso de jornadas
A cultura de exaustão não é exclusividade do Vale do Silício. Na
década de 1980, o setor financeiro — especialmente o de Wall Street
— se notabilizou pela expressão “burnout banks”, com funcionários
entrando em colapso por excesso de trabalho. Há casos de traders
que passaram dias sem dormir, resultando em erros multimilionários
e demissões em massa.
No Vale do Silício, gigantes como Uber já se viram envolvidos em
denúncias de “cultura do hustle”, com relatos de motoristas e
funcionários em burnout extremo — o que provocou crises internas e
críticas públicas sobre ineficiência e insustentabilidade da jornada.
Em 2019, a startup de saúde populacional “CityHealth” implementou
esquema de horas suplementares não remuneradas que culminou
em burnout coletivo e queda na produtividade. A confiança dos
investidores evaporou, e a empresa acabou falindo meses depois —
evidência prática do risco de exaustão como fator de colapso.
Entre a ambição e o desgaste: a disputa por um futuro
sustentável
A adoção do 996 no Vale do Silício reflete uma contradição. Enquanto
executivos celebram a “cultura de sacrifício” como combustível para a
inovação, cresce o coro de quem vê na medida uma repetição dos
erros já cometidos — e corrigidos — por países bem sucedidos na
produtividade tecnológica, como a China.

A questão que paira sobre o setor é se, na corrida pela supremacia
em IA, a vitória virá antes que as engrenagens humanas parem de
girar.

Fonte: Vermelho

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