EUA revogam vistos e atacam Mais Médicos em nova ofensiva contra o Brasil

Decisão de Trump, articulada por aliados bolsonaristas, mira
autoridades ligadas ao programa e reforça escalada de sanções e

ataques à soberania brasileira

por  Lucas Toth

Publicado 14/08/2025 10:56 | Editado 14/08/2025 11:03

O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, durante anúncio a expansão do
programa Mais Médicos com a oferta de novas vagas no primeiro edital de
2025 – Marcelo Camargo/Agência Brasil
Em nova rodada de ataques a soberania do Brasil, o governo dos
Estados Unidos anunciou nesta quarta-feira (13) a revogação de vistos
e a imposição de restrições de entrada a dois integrantes do
Executivo brasileiro e ex-dirigentes da Organização Pan-Americana da
Saúde (OPAS) por terem atuado na implementação do programa Mais
Médicos.

O alvo da medida são Mozart Júlio Tabosa Sales, secretário de
Atenção Especializada à Saúde, e Alberto Kleiman, coordenador-geral
para a COP30 na Organização do Tratado de Cooperação Amazônica
(OTCA).
A decisão atinge também familiares dos sancionados e impede a
entrada deles em território norte-americano.
A iniciativa integra a escalada de ataques de Donald Trump contra o
Brasil, articulada por figuras da extrema direita brasileira como o
deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) e o ex-apresentador Paulo
Figueiredo.
Foi o secretário de Estado Marco Rubio quem tornou pública a
medida, afirmando que “o programa Mais Médicos foi uma fraude
diplomática inconcebível de missões médicas estrangeiras” e
acusando Brasil e OPAS de agirem como intermediários para viabilizar
o envio de médicos cubanos, driblando sanções impostas a Havana.
Segundo a declaração oficial, “esses funcionários foram responsáveis
por, ou envolvidos em, facilitar o esquema coercitivo de exportação
de trabalho do regime cubano, que explora trabalhadores médicos
cubanos por meio de trabalho forçado” e “esse esquema enriquece o
corrupto regime cubano e priva o povo cubano de cuidados médicos
essenciais”.
As declarações se inserem em uma longa série de ataques da
extrema direita norte-americana a Cuba. Não é de hoje que Marco
Rubio, senador de origem cubana e atual secretário de Estado, usa o
aparato diplomático de Washington para ampliar sanções e
pressionar politicamente a Ilha.
A narrativa que ele repete contra o Mais Médicos ecoa campanhas
anteriores de isolamento e criminalização de programas de
cooperação internacional mantidos por Havana, ignorando seu
histórico de envio de profissionais de saúde para dezenas de países.
Ao incluir o Brasil nesse alvo, a gestão Trump reforça o alinhamento
com uma agenda hostil à integração latino-americana e tenta atingir
políticas públicas que simbolizam a presença do Estado em áreas
vulneráveis.

O ataque ao Mais Médicos, nesse contexto, não se limita a uma
disputa diplomática, mas integra uma estratégia de enfraquecimento
de projetos que contrariam a lógica privatista defendida por setores
conservadores nos Estados Unidos.
Mais Médicos: política pública alvo da retaliação norte-americana
Criado em 2013 no governo Dilma Rousseff, o Mais Médicos nasceu
para suprir a carência de profissionais de saúde em áreas remotas,
comunidades indígenas e municípios do interior onde médicos
brasileiros não costumavam trabalhar.
Por meio de um convênio com a OPAS, o programa trouxe ao país
milhares de médicos cubanos até 2018, quando a parceria foi
encerrada pelo governo de Jair Bolsonaro após ataques à cooperação
com Cuba.
No auge, em 2016, havia 18 mil médicos atendendo quase 63 milhões
de pessoas em quatro mil municípios.
Retomado no terceiro governo Lula, o programa voltou a ampliar a
cobertura, mas sem a participação de cubanos. Segundo Alexandre
Padilha, “nesse governo atual, em dois anos, dobramos a quantidade
de médicos no Mais Médicos” e “temos muito orgulho de todo esse
legado que leva atendimento médico para milhões de brasileiros que
antes não tinham acesso à saúde”.
Além do impacto social, o programa tornou-se um símbolo da
cooperação Sul-Sul e da capacidade do Brasil de implementar
políticas universais de saúde.
Sua interrupção no governo Bolsonaro e a retirada dos médicos
cubanos em 2018 tiveram forte repercussão internacional e interna,
com prejuízos no atendimento de comunidades vulneráveis. A nova
ofensiva de Trump é vista no Planalto como um ataque não apenas a
um programa, mas à concepção de saúde como direito de todos.
Reações no Brasil reforçam defesa da soberania e do SUS
O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, reagiu afirmando que “o
Mais Médicos, assim como o PIX, sobreviverá a ataques injustificáveis

de quem quer que seja” e que o programa “salva vidas e é aprovado
por quem mais importa: a população brasileira”.
Ele declarou que “não nos curvaremos a quem persegue as vacinas,
os pesquisadores, a ciência e, agora, duas das pessoas fundamentais
para o Mais Médicos na minha primeira gestão como ministro”.
A deputada Jandira Feghali (PCdoB-RJ) afirmou que o Mais Médicos
“salvou vidas, levou assistência a quem nunca tinha visto um médico e
fortaleceu o maior sistema de saúde pública do mundo: o SUS”,
defendendo que ataques estrangeiros e da extrema direita “não
desmontarão conquistas que pertencem ao Brasil”.
O senador Humberto Costa (PT-PE) disse que os EUA atacam a
própria ideia de saúde pública gratuita e universal. Já o deputado
Guilherme Boulos (PSOL-SP) afirmou que “a ousadia do complô
bolsonarista contra o Brasil não tem limites” e que Trump está
punindo servidores que ajudaram milhões de brasileiros a ter
atendimento médico.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, durante evento no Planalto,
criticou a postura de Trump em medidas anteriores contra
autoridades brasileiras, chamando a cassação de vistos de ministros
do Supremo Tribunal Federal (STF) de “mau exemplo para a
humanidade” e comportamento “inaceitável e totalmente
inexplicável”.
Sanções se somam a ataques anteriores de Trump ao Brasil
A medida contra Mozart Sales e Alberto Kleiman é mais um capítulo
na ofensiva iniciada em julho, quando os EUA cancelaram vistos de
oito ministros do Supremo Tribunal Federal, impuseram sanção
financeira contra Alexandre de Moraes com base na Lei Magnitsky e
aplicaram tarifa de 50% sobre produtos brasileiros.
Essas ações foram justificadas por Washington como resposta a
suposta censura a empresas e cidadãos americanos, além de
perseguição a Jair Bolsonaro.
As decisões foram influenciadas por uma campanha organizada por
Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo desde a posse de Trump. O

Departamento de Estado já acusou o governo brasileiro de reprimir “o
debate democrático” e restringir a expressão de apoiadores de
Bolsonaro, enquanto relatório anual enviado ao Congresso dos EUA
afirma que a situação dos direitos humanos no Brasil se deteriorou
em 2024.

Fonte: Vermelho

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *