Ocupação na Faria Lima escancara desigualdades e exige taxação dos bilionários
Manifestantes ocupam sede do Itaú BBA e denunciam privilégios
fiscais das elites financeiras; mobilizações devem continuar até o
plebiscito popular de setembro
por Cezar Xavier
Publicado 03/07/2025 18:21 | Editado 03/07/2025 20:03
MTST faz ato pela taxação de bilionários Foto: Frente Povo Sem Medo
Na manhã desta quinta-feira (3), cerca de 300 ativistas da Frente Povo
Sem Medo ocuparam o saguão do edifício do Itaú BBA, na Avenida
Faria Lima, em São Paulo. Com faixas, cartazes e palavras de ordem
como “O povo não vai pagar a conta” e “Chega de mamata”, o protesto
denunciou a inequidade fiscal no Brasil e exigiu a taxação dos super-
ricos.
Simultaneamente ao ato na Faria Lima, mais de 70 organizações
sociais, sindicais e populares lançaram a carta “Em defesa da justiça
tributária e pelo fim dos privilégios”, que denuncia o sistema fiscal
brasileiro por penalizar os mais pobres e proteger os mais ricos.
Leia mais: Plebiscito Popular mobiliza o Brasil por redução de
jornada e IR mais justo
O local escolhido para a ação não foi casual. Com fachada
envidraçada e avaliado em R$ 1,5 bilhão, o prédio é símbolo do poder
financeiro do país — e do abismo social que o acompanha. A
manifestação durou cerca de uma hora e foi acompanhada por forte
repercussão nas redes sociais.
“Ocupar o coração do mercado financeiro é uma denúncia clara: os
donos do Itaú pagam menos imposto que a maioria do povo
brasileiro, que luta para pagar aluguel e comida”, declarou
o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), que compõe a
frente.
Contra o “Centrão inimigo do povo”
MTST faz ato pela taxação de bilionários em frente a sede do Itaú, em São Paulo Foto: Frente Povo Sem Medo
A ação marca o início de uma jornada de mobilizações populares que
culminará no próximo dia 10 de julho, com ato na Avenida Paulista,
em frente ao MASP, convocado pelas Frentes Povo Sem Medo e Brasil
Popular sob o mote “Centrão inimigo do povo”.
O estopim foi a derrota sofrida pelo governo Lula na Câmara dos
Deputados, que derrubou a proposta de aumento do Imposto sobre
Operações Financeiras (IOF) — medida voltada a aumentar a taxação
sobre especuladores financeiros. Em resposta, foi lançada a
campanha “Taxação BBB” (bilionários, bets e bancos), e o próprio
presidente Lula levantou um cartaz pela “taxação dos super-ricos” em
evento na Bahia, nesta quarta (2).
Manifesto por justiça tributária
A carta “Em defesa da justiça tributária e pelo fim dos privilégios” tem
entre os signatários entidades como UNE, CMP, MST, MTST, Ibase,
Inesc, Dieese, Oxfam Brasil, MNU, UBM e Marcha Mundial das
Mulheres. O documento cobra:
Isenção do Imposto de Renda (IR) para quem ganha até R$ 5
mil;
Tributação de quem ganha mais de R$ 50 mil por mês;
Taxação de lucros e dividendos, fundos de investimento e
empresas exportadoras;
Revisão das renúncias fiscais, que chegam a 4,8% do PIB;
Fim dos supersalários no Judiciário e Forças Armadas;
Limitação das emendas parlamentares, que ultrapassam R$ 50
bilhões ao ano.
“O Congresso atua como guardião dos privilégios das elites
econômicas e políticas”, afirma a carta. “Querem empurrar para o
povo a conta de um sistema desigual.”
Resistência no campo e nas cidades
Manifestação reuniu cerca de 300 militantes no prédio que custou R$ 1,5 bi. Foto: Frente Povo Sem Medo
O documento e as mobilizações também expressam preocupação
com cortes orçamentários em áreas sociais, uma possível nova
reforma da Previdência, e a tentativa de desvincular aposentadorias
do salário mínimo.
O movimento ganha força ao mesmo tempo em que o campo e as
periferias urbanas sentem os efeitos da exclusão fiscal. O temor é de
que o desmonte social também avance por via fiscal, favorecendo o
rentismo e sacrificando os serviços públicos.
“Plebiscito Popular Por um Brasil Mais Justo”
As entidades também anunciaram o lançamento do Plebiscito
Popular Por um Brasil Mais Just o, que vai até o dia 7 de setembro. A
consulta nacional deve reunir milhares de votos populares sobre três
eixos principais:
1. Isenção do IR para quem ganha até R$ 5 mil;
2. Taxação de quem ganha mais de R$ 50 mil mensais;
3. Fim da jornada 6×1 de trabalho.
A proposta inclui mobilizações em universidades, escolas, centros
comunitários e feiras livres, com cartilhas de orientação e pontos de
votação organizados por movimentos populares.
Mercado calado, sociedade em ebulição
Procurado pela imprensa, o Itaú preferiu não comentar a
manifestação. Enquanto isso, nas redes sociais, as imagens da
ocupação viralizaram como um chamado à ação contra a
desigualdade.
Para os organizadores, o protesto na Faria Lima foi apenas o início de
uma série de ações. “Não é possível que quem lucra bilhões fique fora
do esforço coletivo para financiar o país”, afirma o deputado
Guilherme Boulos, liderança do MTST. “O Brasil não pode continuar
sendo um paraíso fiscal para bilionários e um inferno tributário para
o povo.”
A mobilização segue com um recado direto ao Congresso: ou o
sistema tributário será reformado, ou a pressão das ruas aumentará.
Como diz o manifesto que circula entre os militantes: “Se o povo não
tem vez no orçamento, vai ter voz na mobilização.”
Fonte: Vermelho

