Registros indicam fraude nas câmeras usadas por oficiais da PM de SP

Plataforma usada para armazenar vídeos permite adulterações com
usuários anônimos; gravação de homicídio foi apagada por major

ligada à cúpula da corporação

por  Cezar Xavier

Publicado 28/07/2025 18:18 | Editado 29/07/2025 07:51

Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil
Um esquema de adulteração de provas envolvendo câmeras
corporais da Polícia Militar de São Paulo veio à tona após o
portal Metrópoles obter registros exclusivos da plataforma Evidence,
usada para armazenar imagens gravadas por policiais. O sistema
permite que usuários alterem permissões, editem metadados e até
deletem vídeos — inclusive de ocorrências letais — sem deixar rastros
confiáveis.
A investigação aponta para a participação da major Adriana Leandro
de Araújo, subordinada ao alto comando da corporação. Ela teria
atuado diretamente para deletar uma gravação crítica relacionada à
morte de Joselito dos Santos Vieira, de 47 anos, durante a Operação

Verão, em março de 2024, na comunidade do José Menino, em Santos
(SP).
Imagens de homicídio sumiram após adulterações no sistema
O vídeo em questão foi gravado pela câmera do soldado Thiago da
Costa Rodrigues, que estava na viatura com outros três policiais que
efetuaram os disparos fatais. Dias após o ocorrido, a major acessou a
plataforma Evidence e alterou o nome do autor, a data da ocorrência
e reclassificou o tipo de operação, dificultando a localização do vídeo.
No dia seguinte, apagou o arquivo.
O caso foi arquivado em junho, e a Secretaria de Segurança Pública
afirma que apura o episódio em sindicância interna.
Especialistas: plataforma é vulnerável e descumpre normas
legais
Especialistas ouvidos pelo Metrópoles apontam falhas graves no
sistema da Axon, fornecedora da plataforma. Bruno Dias, ex-soldado
da PM e um dos idealizadores do projeto das câmeras corporais no
estado, afirma que “qualquer policial com acesso pode se tornar
administrador e manipular os vídeos”.
Já o perito forense Sergio Hernandez afirma que o sistema não
garante cadeia de custódia, um requisito legal essencial para validade
das provas. O código de autenticação digital (hash) só é aplicado após
o upload do vídeo, o que permite edições prévias sem deixar marcas
forenses.
“Sem proteção desde a coleta até o armazenamento, qualquer
evidência pode ser manipulada antes da aplicação do hash. Isso torna
o sistema inválido conforme o Código de Processo Penal”, alerta
Hernandez.
Histórico de retrocessos: novo modelo de câmeras piora o
cenário
Embora as câmeras corporais tenham sido implementadas em larga
escala a partir de 2021 e resultassem em queda nos índices de
violência policial, a gestão do governador Tarcísio de Freitas

(Republicanos) decidiu substituir os equipamentos por um novo
modelo, da Motorola, que não grava de forma contínua. As novas
câmeras só registram vídeo mediante comando remoto — o que,
segundo especialistas, fragiliza ainda mais a integridade das provas.
“O sistema anterior trouxe resultados expressivos e ajudou a mudar a
cultura dentro da corporação. Abandonar esse modelo é um grande
retrocesso”, afirma Bruno Dias.
PM e SSP prometem apuração rigorosa
A Secretaria de Segurança Pública afirmou, em nota, que os fatos
mencionados estão sendo apurados com “o máximo rigor” por meio
de uma sindicância instaurada pela própria Polícia Militar.
“A instituição reafirma seu compromisso com a legalidade, a
transparência e, acima de tudo, com a defesa da vida. Condutas
incompatíveis com os princípios da instituição não serão toleradas”,
diz o comunicado.
A reportagem não obteve retorno dos demais personagens
envolvidos.

Fonte: Vermelho

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