Versões de Braga Netto desmoronam diante de provas e delações sobre trama golpista
Interrogado por videoconferência no STF, general diz que acusações são
“fora de contexto” e nega repasse de dinheiro em caixa de vinho para
militares envolvidos em suposta trama golpista
por Cezar Xavier
Publicado 10/06/2025 19:31 | Editado 10/06/2025 20:56
Bolsonaro assiste seu ex-vice Braga Netto depor direto da prisão nos
interrogatórios dos réus da Ação Penal (AP) 2668. Foto: Antonio Augusto/STF
O general da reserva Walter Souza Braga Netto, ex-vice na chapa de Jair
Bolsonaro e um dos principais alvos da investigação sobre a tentativa de
golpe de Estado em 2022, fracassou ao ser interrogado nesta terça-feira
(10) pela Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal. Da prisão no Rio
de Janeiro, onde está detido desde dezembro por obstrução à Justiça,
Braga Netto negou envolvimento na articulação golpista, em ataques aos
comandantes das Forças Armadas e em operações secretas para
financiar ações violentas contra autoridades da República.
Suas negativas, porém, contrastam com um conjunto robusto de provas
documentais, delações, mensagens de WhatsApp e contradições já
mapeadas pela Procuradoria-Geral da República. O general é acusado
de ter atuado ativamente para pressionar os então comandantes do
Exército, general Freire Gomes, e da Aeronáutica, brigadeiro Baptista
Júnior, ambos resistentes à tentativa de ruptura institucional liderada por
Bolsonaro e seus aliados.
A mensagem que Braga Netto diz “não lembrar”
Durante o interrogatório, o relator do caso, ministro Alexandre de Moraes,
confrontou o general com uma mensagem obtida nas
investigações: “Para sentar o pau nele, preservar o almirante Garnier,
mas também criticar o brigadeiro Baptista Júnior”. A frase, atribuída a
Braga Netto, sugere articulação direta para direcionar ataques virtuais a
integrantes das Forças Armadas que se recusaram a apoiar a
conspiração.
O general afirmou não lembrar da mensagem e disse que, se de fato a
escreveu, ela foi “descontextualizada”. A estratégia de desqualificar os
elementos do inquérito como “fora de contexto” repete-se entre os réus,
mas tem sido confrontada com o volume de mensagens, registros de
reuniões e colaborações premiadas, como a de Mauro Cid, ex-ajudante-
de-ordens de Bolsonaro.
Dinheiro em caixa de vinho: uma explicação frágil
Outro ponto crítico do interrogatório envolveu a entrega de dinheiro vivo
dentro de uma caixa de vinho a militares do grupo chamado “kids-pretos”,
apontados como executores do plano violento contra o presidente Lula, o
vice Geraldo Alckmin e o próprio Moraes. Braga Netto admitiu ter
encaminhado o tenente-coronel Mauro Cid ao tesoureiro do PL, mas
alegou acreditar que se tratava apenas de recursos remanescentes de
campanha.
Essa alegação contrasta com o depoimento de Cid, que afirmou ter
recebido ordens do próprio Braga Netto para a entrega dos valores — e
com o contexto da movimentação financeira identificada como parte de
um financiamento do plano golpista. A justificativa do general
desconsidera ainda o fato de que os recursos circulavam em espécie,
sem qualquer registro oficial de despesas eleitorais.
Plano de assassinato: “nunca ouvi falar”
Braga Netto também tentou se desvincular do núcleo mais extremo da
conspiração. Disse jamais ter ouvido falar nas operações Punhal Verde e
Amarelo e Copa 2022, que previam o assassinato de autoridades caso o
golpe avançasse. As investigações apontam que esses planos seriam
executados por uma elite militar infiltrada, com apoio logístico e político
— e que Braga Netto, à época figura central no círculo de confiança de
Bolsonaro, não apenas sabia como ajudou a viabilizá-los.
Ao negar até mesmo o conhecimento sobre esses codinomes, o general
adotou uma linha de defesa já desmontada por outras provas do
inquérito e por depoimentos de réus colaboradores. A narrativa da
ignorância deliberada vai na contramão de sua posição de liderança
dentro da estrutura conspiratória.
O silêncio que busca proteger o todo
Braga Netto também rejeitou a versão de que teria buscado informações
sobre o acordo de colaboração premiada firmado por Mauro Cid. Disse
que apenas atendeu a um pedido do pai de Cid, o general Lourena Cid,
que lhe pediu apoio político. Ainda assim, interceptações mostram
tentativas de acesso indevido a trechos da delação — justamente o
motivo pelo qual Braga Netto foi preso preventivamente.
O interrogatório desta terça-feira encerra a fase de oitivas dos réus do
chamado Núcleo 1 da ação penal sobre a trama golpista. Além de Braga
Netto, já prestaram depoimento o ex-presidente Jair Bolsonaro, o ex-
diretor da Abin Alexandre Ramagem, o ex-ministro da Justiça Anderson
Torres, o ex-ministro do GSI Augusto Heleno, o ex-ministro da Defesa
Paulo Sérgio Nogueira e o almirante Almir Garnier — este último
apontado como o único comandante militar que teria aderido à tentativa
de golpe.
O julgamento à vista
Com a conclusão dos interrogatórios, o Supremo se prepara para o
julgamento do caso, previsto para o segundo semestre. A Corte deverá
decidir se condena ou absolve os envolvidos na tentativa de ruptura da
ordem democrática — uma decisão que terá impacto profundo não só
sobre os réus, mas sobre a solidez das instituições diante de ameaças
golpistas.
As negativas evasivas de Braga Netto, somadas à evidência de que ele
ocupava posição estratégica e de comando na conspiração, parecem
fazer parte de uma engrenagem de silenciamento e blindagem do grupo
político-militar que tentou levar o País à ruptura. O julgamento promete
pôr à prova não apenas os fatos, mas também a capacidade da Justiça
de enfrentar as sombras ainda presentes nas estruturas do poder.
Fonte: Vermelho

