China constrange guerra comercial dos EUA ao zerar tarifas para países pobres

O cientista político Augusto Leal Rinaldi avalia que a decisão da China
mostra comprometimento com o Sul Global e uma agenda de facilitação

de intercâmbio comercial.

A China deu mais um passo em sua disputa econômica com os Estados
Unidos ao anunciar medidas que reforçam sua posição no cenário global
e ampliam sua influência nos países menos desenvolvidos. Desde 1º de
dezembro, Pequim adota uma política de tarifa zero para todos os
produtos originados de países classificados como os menos
desenvolvidos do mundo, conforme critério da ONU. A medida visa

estimular o intercâmbio comercial com essas nações e consolidar a
China como parceiro estratégico do Sul Global.
A isenção vale para países que tenham relação diplomática com a China
e renda per capita bruta inferior a US$ 1.018 dólares. Essa política deve
servir a cerca de 30 países africanos, tais como Angola, São Tomé e
Príncipe e Ilhas Salomão. A China é o primeiro país de grande porte a
oferecer essa alternativa a países com pouca inserção no comércio
internacional.
Retaliação estratégica e aproximação com o Sul Global

Augusto Leal Rinaldi

O cientista político Augusto Leal Rinaldi (PUC-SP), autor de O Brics nas
Relações Internacionais Contemporâneas: Alinhamento Estratégico e
Balanceamento de Poder Global (Appris, 2021), analisa em entrevista
ao Portal Vermelho a nova estratégia chinesa como um movimento de
duplo impacto.
“As imposições tarifárias dos Estados Unidos não serão recebidas
impunemente pela China. Os chineses têm condições de retaliar – e é o
que estão fazendo ao reduzir a exportação de minérios necessários para
a fabricação de componentes tecnológicos – e isso mostra, sobretudo à
nova administração Trump que se iniciará em 2025, que a guerra

comercial também afetará negativamente os Estados Unidos”, destacou
Rinaldi.
A decisão de isentar países menos desenvolvidos de tarifas de
importação também carrega uma mensagem geopolítica. Segundo
Rinaldi, Pequim busca se posicionar como um ator global comprometido
com a estabilidade e o desenvolvimento, particularmente da África,
contrastando com a postura isolacionista dos EUA.
“Isso demonstra a disposição da China de se apresentar como um país
comprometido com uma agenda de globalização e facilitação de
intercâmbio comercial. Os chineses aparecem como um país preocupado
com a estabilidade global e sensível aos interesses dos países de menor
desenvolvimento relativo. Parece-me ser uma estratégia de maior
alinhamento aos países do chamado Sul Global e, ao mesmo tempo, um
posicionamento de grande potência ao lidar de maneira assertiva à
postura iliberal por parte de Washington”, analisa ele.
Impactos na África e no comércio global
Com a medida, cerca de 30 países africanos poderão exportar seus
produtos à China sem tarifas, desde que mantenham relações
diplomáticas com o gigante asiático. Essa política se soma a décadas de
investimentos chineses na África. De acordo com a Iniciativa de Pesquisa
China-África (CARI), os investimentos diretos da China na região
saltaram de US$ 74,8 milhões em 2003 para US$ 4,23 bilhões em 2020.
Em setembro, o presidente Xi Jinping anunciou um financiamento
adicional de US$ 50 bilhões para os próximos dez anos.
O porta-voz do Ministério do Comércio chinês, He Yongquian, indicou
que a política tarifária busca integrar os países menos desenvolvidos ao
“vasto mercado chinês”, promovendo oportunidades econômicas mútuas.
No entanto, críticos apontam que a dependência econômica da África em
relação à China pode reforçar assimetrias no longo prazo, embora essa
dependência dos EUA e economias europeias seja mais nociva, com
ganhos principalmente para essas potências.
A cooperação China-África está alinhada com os objetivos da UNCTAD
de promover o desenvolvimento sustentável por meio de investimentos
em infraestrutura que aprimoram as capacidades de fabricação da África,
aumentando as oportunidades comerciais, fomentando a diversificação
econômica e integrando os países africanos à cadeia de valor global.
Tensões com os EUA e o futuro do BRICS
Enquanto a China avança com medidas de integração econômica, os
EUA endurecem as restrições à exportação de tecnologias avançadas

para o gigante asiático. O Bureau of Industry and Security (BIS), órgão
ligado ao Departamento de Comércio norte-americano, anunciou
controles adicionais sobre semicondutores, uma resposta à crescente
competitividade tecnológica chinesa. Pequim reagiu restringindo a
exportação de materiais críticos como germânio e gálio, essenciais para
a produção de chips, afetando diretamente a cadeia produtiva dos EUA.
A relação entre China e EUA também se aquece no âmbito do BRICS.
Donald Trump, presidente eleito dos EUA, ameaçou impor tarifas de
100% sobre os produtos de países membros caso avancem propostas
como a criação de uma moeda comum, discutida na cúpula do grupo em
outubro, em Kazan, Rússia.
A análise do especialista sugere que a disputa vai além da economia. A
retórica de Trump contra o BRICS e as restrições tecnológicas são
respostas ao crescente protagonismo chinês e à tentativa de
balanceamento de poder global. Pequim, por sua vez, busca se
consolidar como líder de uma ordem multipolar que desafia a hegemonia
dos EUA.
O que está em jogo
As recentes ações de Pequim mostram que a guerra comercial com os
EUA não é apenas uma disputa econômica, mas uma batalha pela
definição da nova ordem mundial. Enquanto os Estados Unidos reforçam
o protecionismo e a rivalidade tecnológica, a China investe em alianças
comerciais estratégicas e se apresenta como defensora da globalização
inclusiva.
O cenário para 2025 será decisivo, com a reconfiguração das políticas
externas de ambas as potências e o impacto disso sobre o BRICS e o
comércio global. A rivalidade entre Washington e Pequim deve moldar
não apenas as relações bilaterais, mas também o equilíbrio de poder no
século XXI.

Fonte: Vermelho

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