EUA atrasam vistos e criam impasse para delegação do Brasil na ONU
Washington liberou parte dos vistos, mas ministros como Padilha
seguem sem documento; Itamaraty cita violação legal e ONU vê
atraso como preocupante na Assembleia
por Lucas Toth
Publicado 17/09/2025 08:10 | Editado 17/09/2025 09:27
Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional (CRE) em audiência
pública interativa com a participação do ministro das Relações Exteriores,
Mauro Vieira Foto: Alessandro Dantas
O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, afirmou nesta terça-
feira (16) que os Estados Unidos concederam apenas “alguns” dos
vistos solicitados para a delegação brasileira que participará da
Assembleia Geral da ONU, em Nova York, na próxima semana.
A declaração ocorre após manifestações de estranhamento do
próprio Itamaraty e da ONU diante da demora na liberação dos
documentos.
A assembleia ocorre entre os dias 22 e 26 de setembro e terá o
presidente Luiz Inácio Lula da Silva na abertura, no dia 23, tradição
histórica da diplomacia brasileira.
Apesar de o visto de Lula estar garantido, ainda há ministros e
autoridades sem autorização de entrada em território norte-
americano. O caso mais notório é o do ministro da Saúde, Alexandre
Padilha, que pediu renovação em agosto e segue sem resposta.
O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, também teve que solicitar
novo visto após o anterior vencer. Segundo o Itamaraty, a sinalização
de Washington é que os pedidos pendentes estão “em vias de
processamento”.
O porta-voz do secretário-geral da ONU, Stéphane Dujarric, classificou
como “preocupante” a demora dos EUA em liberar os vistos.
Como país-sede da organização, os Estados Unidos são legalmente
obrigados, pelo Acordo de Sede assinado em 1947, a garantir o
acesso de representantes de todos os Estados-membros.
Diplomatas brasileiros lembram que, em tese, uma negativa
configuraria violação desse acordo, situação inédita mesmo durante a
Guerra Fria, quando lideranças como Fidel Castro discursaram em
Nova York em meio a tensões globais.
Diante do risco de constrangimento, a delegação brasileira foi
reduzida, com corte de cargos assessores e convidados. Ainda assim,
membros do Itamaraty avaliam que o Brasil poderá recorrer a
instâncias arbitrais na ONU caso algum visto seja formalmente
negado.
O episódio se insere no quadro de deterioração das relações
bilaterais, depois que os Estados Unidos passou a ameaçar a
democracia brasileira por causa da condenação de Jair Bolsonaro a 27
anos de prisão pelo Supremo Tribunal Federal (STF).
O secretário de Estado, Marco Rubio, já declarou que os EUA vão
adotar “novas medidas” contra o Brasil.
Donald Trump, por sua vez, condiciona a suspensão das tarifas de
50% contra produtos brasileiros ao arquivamento do processo contra
o ex-presidente. Além disso, Washington revogou vistos de ministros
do STF e do ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski.
O presidente Lula viajará no fim de semana e permanecerá em Nova
York até o dia 25.
Além do discurso de abertura da Assembleia Geral, participará de
eventos sobre democracia, mudança climática e a criação do Estado
palestino. Caso os vistos pendentes não sejam liberados, ministros
como Padilha podem ser substituídos por secretários ou
simplesmente não integrar a comitiva.
Fonte: Vermelho

