Operação contra PCC expõe brechas das fintechs e avanço da cooperação institucional
Economista vê marco para regular fintechs e recuperar bilhões em
impostos. Para advogado, ação inédita mostra integração entre
órgãos como chave para enfraquecer o crime e atacar seu capital
por Cezar Xavier
Publicado 29/08/2025 19:21 | Editado 31/08/2025 13:25
Brasília (DF), 28/08/2025 – O diretor-geral da Polícia Federal, Andrei
Rodrigues, durante entrevista coletiva para detalhar duas operações da
Polícia Federal para combater a atuação do crime organizado no setor de
combustíveis. Foto: José Cruz/Agência Brasil
A megaoperação contra o PCC, ocorrida nesta quinta-feira (28),
marcou um ponto de virada no combate ao crime organizado no
Brasil. Segundo especialistas consultados pelo Portal Vermelho, a
ação mostrou, por um lado, que as fintechs e setores da economia
formal viraram o principal canal de lavagem de dinheiro da facção, o
que expõe falhas regulatórias e gera perdas bilionárias em impostos.
Por outro lado, a integração inédita entre Receita Federal, Conselho
de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), Ministério Público (MP) e
Polícia Federal (PF) é mais eficaz do que prisões isoladas, porque
atinge diretamente o capital da organização criminosa. Com isso, o
PCC já não depende só do tráfico, mas de negócios legais; e para
enfrentá-lo, o Estado precisa seguir o dinheiro, fechar brechas
regulatórias e manter a cooperação entre instituições.
O economista José Luis Oreiro, professor da UnB, avalia que a
megaoperação deflagrada nesta quinta-feira (28) pela Polícia Federal,
Receita Federal e Ministério Público representa um divisor de águas
na regulação das fintechs no Brasil.
O economista José Luís Oreiro, da UnB
“Desde que as fintechs foram criadas, elas tiveram uma regulação
muito mais leve do que a das instituições financeiras tradicionais. Isso
deu vantagem competitiva, mas também abriu espaço para lavagem
de dinheiro em larga escala”, afirmou Oreiro em entrevista ao Portal
Vermelho.
Segundo ele, a ofensiva expôs que a ausência de fiscalização
adequada permitiu ao PCC criar “bancos paralelos” e movimentar
valores que escapavam do controle do Banco Central e do Coaf.
Oreiro destacou que, além do impacto na segurança pública, a
operação tem efeitos fiscais imediatos:
“As estimativas de perda de arrecadação estão em torno de R$ 10
bilhões. Seguir o dinheiro é o primeiro passo para realmente
enfraquecer o crime. Prender e matar não resolve, porque sempre há
reposição na base. Secar a fonte é o caminho.”
Integração como arma estratégica
Já o consultor de segurança pública e advogado José Carlos
Pires ressalta ao Vermelho que a maior inovação da megaoperação
foi a coordenação entre múltiplas instituições.
José Carlos Pires, advogado
“A integração de Receita, Coaf, Ministério Público Federal, Ministérios
Públicos Estaduais e a Polícia Federal mostra que o Brasil começou a
agir de forma sistêmica. Antes, isso avançava de forma muito lenta.
Agora demos um salto”, disse.
Para Pires, a operação é inédita justamente porque atacou o crime na
sua engrenagem econômica real, e não apenas nas periferias urbanas
com ações ostensivas:
“O PCC transformou dinheiro ilícito em negócios lícitos: postos de
gasolina, lojas de conveniência, usinas de etanol, construção civil.
Estamos diante de uma facção que já não depende principalmente do
tráfico, mas da infiltração no mercado formal.”
Ele defende que os municípios também sejam integrados nas
estratégias futuras, já que são eles que autorizam postos e
estabelecimentos suspeitos:
“A lavagem de dinheiro envolve licenciamento local. É preciso que
União, estados e municípios atuem juntos, sob o guarda-chuva do
SUSP (Sistema Único de Segurança Pública).”
Do tráfico à economia formal
As análises convergem para um diagnóstico: o crime organizado no
Brasil mudou de patamar.
Se antes o narcotráfico era o eixo central de financiamento, hoje o
PCC atua com sofisticação financeira, comprando empresas e
usando fundos de investimento, fintechs e instrumentos digitais para
ocultar capital.
A operação revelou movimentações de até R$ 46 bilhões em apenas
uma fintech ligada à facção.
Segundo Oreiro, isso só foi possível porque os bancos digitais
menores estavam fora do mesmo escrutínio que os grandes bancos.
Já Pires aponta que esse “novo PCC” é menos visível e mais resiliente:
“Quando se prende um operador da base, ele é substituído. Mas
quando se bloqueia R$ 1 bilhão, quando se desmonta uma cadeia
inteira de combustíveis, o golpe é estrutural.”
Desdobramentos e riscos
Apesar da repercussão positiva, a ofensiva também expôs disputas
internas: Polícia Federal e Ministério Público de São Paulo chegaram a
dar entrevistas simultâneas, e há suspeita de vazamento que permitiu
que apenas 6 dos 14 alvos de prisão fossem capturados. Pires
acredita que o tema da Segurança Pública está em disputa pela
eleição nacional que se avizinha.
Para Pires, é cedo para dizer se o PCC sai enfraquecido: “Eles vão
buscar alternativas. O fundamental é que a ação não fique restrita ao
impacto imediato, mas que se torne política de Estado perene e
integrada.”
Oreiro concorda: “É o primeiro passo de uma jornada longa. A boa
notícia é que mostrou que é possível moralizar um setor inteiro da
economia quando o Estado decide agir.”
O que a operação ensinou
1. Fintechs precisam de regulação equiparada a bancos, para
evitar brechas que favorecem o crime.
2. O crime organizado migrou para a legalidade, com forte
presença em setores estratégicos como combustíveis.
3. Integração entre órgãos federais e estaduais é decisiva, mas
precisa incluir os municípios.
4. Seguir o dinheiro é mais eficaz do que prender na base, porque
atinge a pirâmide do crime em sua estrutura financeira.
5. Disputas institucionais enfraquecem a ofensiva, e precisam ser
superadas para dar continuidade à estratégia.
Fonte: Vermelho

