“Paz americana” em Washington expõe limites de Kiev e vantagem russa

Trump ignorou apelos europeus por cessar-fogo, alinhou-se a Moscou
e deixou claro que a Ucrânia não tem autonomia nas negociações

sobre o fim da guerra

por  Lucas Toth

Publicado 19/08/2025 10:51 | Editado 19/08/2025 11:46

Trump recebeu Putin em Anchorage, no Alasca, na sexta-feira (15), no
primeiro encontro presencial entre líderes dos dois países desde o início da
guerra, gesto que simbolizou a retomada da diplomacia direta e evidenciou
a posição de vantagem da Rússia no tabuleiro internacional. Foto:
Reprodução/ Casa Branca
No meio da reunião desta segunda-feira (18)  na Casa Branca, Donald
Trump interrompeu o encontro com o presidente da Ucrânia,
Volodymyr Zelensky, e sete líderes europeus para fazer uma ligação a
Vladimir Putin.

A cena, apenas três dias depois de o presidente dos Estados Unidos
estender o tapete vermelho ao chefe do Kremlin em Anchorage, no
Alasca, no primeiro encontro presencial entre os dois desde o início
da guerra, tornou-se o símbolo da posição de vantagem dos russos
no conflito — uma reviravolta em relação à correlação de forças dos
últimos dois anos.
A reunião da última sexta-feira (15) ocorreu na base aérea de
Elmendorf-Richardson e marcou o retorno da diplomacia direta entre
Washington e Moscou, depois de anos de isolamento.
A interrupção do encontro expôs a contradição central da cúpula:
enquanto os líderes europeus correram a Washington para dar
respaldo a Zelensky e tentar impor a Trump a exigência de um cessar-
fogo como condição mínima para negociações, o presidente norte-
americano seguiu o caminho inverso.
Se antes Trump chegou a apoiar a ideia, depois de Anchorage adotou
a posição de Moscou de que qualquer acordo precisa ser abrangente,
não se limitando à suspensão temporária dos combates.
Na prática, a chamada “paz americana” apresentada na Casa Branca
não representou uma saída para a Ucrânia, mas, sim, a demonstração
clara de seus limites frente à força de manobra da Rússia.
Prova da posição vantajosa do Kremlin é a cobertura da imprensa
internacional. A Reuters destacou que “Trump tem pressionado por
um fim rápido à guerra mais letal da Europa em 80 anos, e Kiev e seus
aliados temem que ele tente impor um acordo nos termos da
Rússia”.
O texto lembrou ainda que, em Anchorage, “o presidente americano
recebeu Putin com pompa, apesar de o líder russo enfrentar
acusações de crimes de guerra no Tribunal Penal Internacional, que
ele nega”.
O New York Times, por sua vez, observou que o encontro em
Washington deixou evidente o caráter performático da diplomacia de
Trump. “Na prática, os líderes europeus se viram reféns dos impulsos
de um único homem, Trump”, escreveu o jornal.

A reportagem sublinhou que a reunião terminou sem definições
concretas, mas com a constatação de que o presidente norte-
americano “adotou grande parte da abordagem de Putin sobre a
Ucrânia” após o encontro no Alasca.
A “paz americana” e a cortina de fumaça
Trump buscou manter suspense em torno do que seriam as garantias
norte-americanas a Kiev. Não ofereceu “botas no chão”, como se
referiu a tropas em território ucraniano, mas prometeu vender armas
e ampliar negócios de empresas norte-americanas no país —
promessas vistas por Kiev como muito aquém de uma garantia de
segurança.
Na prática, como registrou Gérard Araud, ex-embaixador da França
em Washington, “em Anchorage e em Washington, foi o triunfo do
vazio e de compromissos sem significado. Nada mudou”.
A aparente cordialidade entre Trump e Zelensky, com elogios ao traje
do ucraniano e risos ensaiados no Salão Oval, funcionou como cortina
de fumaça para esconder o verdadeiro jogo: a condução de uma
negociação que já se desenha em torno dos termos de Moscou.
Durante todo o encontro, no entanto, a presença de Putin pairou
como uma sombra permanente. Trump mencionou diversas vezes
que precisava atualizar o russo e, no meio da reunião, levantou-se
para telefonar a ele.
De acordo com diplomatas europeus, os dois discutiram a
possibilidade de um encontro direto entre Putin e Zelensky, seguido
de uma cúpula trilateral. Moscou chegou a ser sugerida pelo Kremlin
como sede, mas Trump recusou.
Ainda assim, a mensagem era inequívoca: Kiev não é protagonista,
mas peça em um tabuleiro já dominado por Trump e Putin.
A vitória de Moscou e o recuo europeu
Os europeus se esforçaram para mostrar unidade, mas, na prática,
tiveram que engolir o recuo de Trump em relação ao cessar-fogo.

“Para ser honesto, todos gostaríamos de ver um cessar-fogo”, disse
Merz. “Não consigo imaginar que a próxima reunião aconteça sem
um.” Trump, porém, retrucou afirmando que já solucionou conflitos
sem precisar interromper os combates.
Emmanuel Macron, que em 2022 fracassou em dissuadir Putin da
guerra, limitou-se a declarar que “o presidente Trump está muito
confiante em sua capacidade de fechar um acordo, o que é uma boa
notícia para todos nós”.
Enquanto isso, as declarações sobre garantias de segurança se
limitaram a promessas vagas. Zelensky anunciou que Kiev se dispõe a
comprar US$ 90 bilhões em armas dos EUA, um número que apenas
reforça a dependência de um país já fragilizado.
Para Londres, Paris e Berlim, a viagem a Washington serviu mais para
conter danos do que para abrir perspectivas. “Estávamos bem
preparados e bem coordenados”, disse Merz após a reunião.
“Representamos os mesmos pontos de vista, e acho que isso agradou
ao presidente americano, que percebeu que os europeus estão
falando com uma só voz.”

Fonte: Vermelho

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