Trump e Lula se encontram, agendam reunião e frustram bolsonaristas
Assessoria da Presidência da República confirmou o contato noticiado
por Trump e afirmou que a reunião entre os dois líderes deve ocorrer
na próxima semana
por André Cintra
Publicado 23/09/2025 16:08 | Editado 24/09/2025 08:05
Foto: Ricardo Stuckert / PR
Numa vitória para o Brasil, o governo Lula conseguiu restabelecer
pontes com a Casa Branca e viabilizar uma reunião direta entre os
dois países para negociar o tarifaço. Nesta terça-feira (23), no
intervalo entre os discursos de Lula e de Donald Trump na
Assembleia Geral da ONU, em Nova York, os dois líderes conversaram
brevemente.
Quem deu a notícia, de modo surpreendente, foi o próprio Trump, na
parte final de seu interminável pronunciamento ao Debate Geral da
Assembleia. “Preciso dizer a vocês: eu estava subindo aqui (no
plenário da ONU) e o líder do Brasil estava saindo. Eu o vi, ele me viu e
nós nos abraçamos”, disse o presidente dos Estados Unidos, num tom
algo debochado. “Na verdade, combinamos que vamos nos encontrar
na semana que vem. Não tivemos muito tempo para conversar.”
A assessoria da Presidência da República confirmou o contato e
afirmou que a reunião deve ocorrer mesmo na próxima semana. De
acordo com o Itamaraty, o Brasil lançou uma única exigência para
aceitar a reunião: que a negociação não envolva temas políticos,
como a condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), aliado de
Trump.
O encontro bilateral pode ocorrer em Washington, presencialmente –
mas o governo Lula prefere que essa primeira rodada de negociação
seja por telefone. Tampouco está certo se o gesto de Trump é um
indício de possível recuo em relação aos termos arbitrários do
tarifaço de 50% imposto a centenas de produtos brasileiros
exportados para os Estados Unidos.
Mas a declaração espontânea de Trump já foi o suficiente para
frustrar o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP), que
reivindicava a condição de único elo entre a Casa Branca e o Brasil.
Vendo a repercussão negativa para o bolsonarismo – que já vem de
um setembro repleto de reveses –, o “filho 03” do ex-presidente Jair
Bolsonaro contemporizou.
“Para quem conhece as estratégias de negociação de Donald Trump,
nada do que aconteceu foi surpresa. Ele fez exatamente o que
sempre praticou: elevou a tensão, aplicou pressão e, em seguida,
reposicionou-se com ainda mais força à mesa de negociações”,
postou Eduardo no X. Não colou. Os apoiadores mais radicais do ex-
presidente temem que mesmo o governador, Tarcísio de Freitas
(Republicanos-SP), cada vez mais obcecado em concorrer à sucessão
de Lula, pode se beneficiar da flexão de Trump.
“Química”
Na ONU, em menos de um minuto, Trump deu duas versões sobre a
duração do encontro com Lula. “Foi em torno de 20 segundos. Mas,
olhando para trás, que bom que esperei”, afirmou inicialmente, para
depois se contradizer: “Por cerca de 39 segundos, tivemos uma
química excelente – e isso é um ótimo sinal.”
Se foram 20 ou 39 segundos, se foi um aperto de mão ou um abraço,
não importa. O fato é que, pela primeira vez desde o anúncio do
tarifaço, em julho, Trump fez elogios a Lula e sinalizou disposição para
o diálogo.
“Conversamos, tivemos uma boa conversa e combinamos de ter uma
reunião na próxima semana se houver interesse. Mas ele pareceu um
bom homem”, disse Trump, com alguma dissimulação no rosto. “Ele
gostou de mim, eu gostei dele – e eu só faço negócios com gente de
quem eu gosto.”
Curiosamente, esse princípio de distensão ocorre no mesmo dia do
mais duro ataque brasileiro aos Estados Unidos em 80 edições da
Assembleia Geral da ONU. “Não há justificativa para as medidas
unilaterais e arbitrárias contra nossas instituições e nossa economia.
A agressão contra a independência do Poder Judiciário é inaceitável”,
disparou Lula.
Ao se referir ao conflito em Gaza, ele voltou a denunciar a postura
pró-genocídio dos Estados Unidos nos organismos multilaterais.
Segundo Lula, um Estado palestino “independente e integrado à
comunidade internacional (…) é a solução defendida por mais de 150
membros da ONU, reafirmada ontem, aqui neste mesmo plenário,
mas obstruída por um único veto. É lamentável que o presidente
Mahmoud Abbas tenha sido impedido pelo país anfitrião de ocupar a
bancada da Palestina nesse momento histórico”.
Da mesma maneira, nenhum chefe de Estado norte-americano havia
criticado tão ostensivamente o Brasil na ONU como fez Trump em seu
discurso: “O Brasil agora enfrenta tarifas pesadas em resposta aos
seus esforços sem precedentes para interferir nos direitos e
liberdades dos nossos cidadãos norte-americanos e de outros, com
censura, repressão, armamento, corrupção judicial e perseguição de
críticos políticos nos EUA”.
Fonte: Vermelho

