Banco Central empurra Brasil rumo a gasto recorde de R$ 1 trilhão com juros
Política do Banco Central de juros estratosféricos pressiona dívida
pública, freia crescimento e acentua desigualdade ao privilegiar o
mercado financeiro, por Cezar Xavier.
Publicado 09/04/2025 17:32
O presidente do Banco Central Gabriel Galípolo tem diante de si a decisão de
continuar sangrando os recursos do país para beneficiar especuladores ou
interromper o ciclo de juros altos e favorecer o investimento público e o
desenvolvimento nacional. Foto Lula Marques/ Agência Brasil
O Brasil pode atingir, ainda em 2025, um marco alarmante e inédito: o
gasto de R$ 1 trilhão apenas com o pagamento de juros da dívida
pública. O custo, que já chegou a R$ 924 bilhões nos 12 meses
encerrados em fevereiro, é consequência direta da política de juros altos
mantida pelo Banco Central (BC), sob o comando de um Comitê de
Política Monetária (Copom) alinhado a uma lógica que muitos
economistas e movimentos sociais consideram ultrapassada e
socialmente injusta.
A alta da taxa Selic — atualmente em 14,25% ao ano , com previsão de
novos aumentos pelo Comitê de Política Monetária (Copom) — é o
principal motor dessa sangria. Enquanto o BC prioriza o controle da
inflação via juros, o custo da dívida pública consome recursos que
poderiam ser direcionados a saúde, educação e programas sociais.
Copom: guardião dos privilegiados
Desde que o Banco Central se tornou independente, durante o governo
Bolsonaro, com um presidente indicado por ele, o Ministério da Fazenda
não tem mais incidência sobre as decisões do órgão. Dominado por
agentes dos bancos, – excluindo agentes da indústria, comércio, trabalho
e consumo, que também compõem o “mercado” -, o BC atende suas
demandas especulativas e recusa toda e qualquer lógica de defesa de
interesses nacionais.
Essa escalada significa não apenas mais pressão sobre o orçamento
público, mas também o comprometimento de áreas estratégicas para o
desenvolvimento social e econômico — como infraestrutura, saúde,
educação e programas sociais.
Enquanto o governo corta R$ 71 bilhões em áreas essenciais como
saúde, previdência e saneamento para cumprir metas de “superávit
primário”, não há limite para os gastos com juros. A rubrica de juros é
classificada como “não primária”, o que a torna intocável pelas regras
fiscais atuais.
Um trilhão que poderia estar no SUS, no PAC ou na merenda
escolar
Segundo a própria estimativa do Banco Central, cada ponto percentual a
mais na Selic representa cerca de R$ 50 bilhões a mais em gastos com
juros. Ou seja, só as últimas altas da taxa já custaram ao país algo em
torno de R$ 200 bilhões — valor superior ao orçamento anual de
ministérios inteiros.
Para efeito de comparação, o Orçamento da Previdência Social — que
atende milhões de aposentados, pensionistas e pessoas com deficiência
— gira em torno de R$ 1 trilhão por ano. A cifra histórica prevista com
juros representa, portanto, um escoamento de recursos públicos
equivalente a tudo o que é investido na seguridade social brasileira.
Mesmo com déficit sob controle, a dívida continua crescendo com a Selic
elevada. O país está entrando num ciclo vicioso em que não se investe
em desenvolvimento, favorecendo a especulação financeira e o rentismo.
Empresários perdem o interesse em investir em produção, quando pode
acumular parasitariamente em juros do Tesouro Nacional.
O BC evita destacar os números em suas comunicações, preferindo
focar dados positivos como a queda no desemprego, que nada tem a ver
com sua política recessiva. No entanto, especialistas alertam: sem uma
reforma estrutural na gestão da dívida, o país caminha para um colapso
fiscal.
Rentismo que paralisa a economia e aprofunda desigualdades
Os juros altos não afetam apenas os cofres públicos. Com a Selic em
patamar recorde, os empréstimos e financiamentos se tornam mais caros
para empresas e consumidores. Isso freia o consumo, desestimula o
investimento produtivo e sufoca pequenos negócios. A economia
desacelera, o desemprego pode crescer e a arrecadação do governo
tende a cair.
O efeito colateral é também político: a alta da dívida gera pressões por
cortes de gastos, o que atinge os mais vulneráveis. Cortar gastos para
pagar juros é um alerta que significa abandonar o SUS, as escolas, os
programas sociais e os investimentos em infraestrutura.
Além disso, o juro elevado concentra renda. Quem mais se beneficia são
os detentores dos títulos da dívida — ou seja, os ricos que compram
esses títulos. O país transfere riqueza para o topo da pirâmide, a minoria
bilionária, enquanto a base de maioria assalariada sofre com cortes e
abandono.
Cenário pior que crises históricas
Enquanto o Orçamento da União prevê R$ 5,8 trilhões para 2025, os
juros já representam 7,8% do PIB , nível próximo aos picos registrados
durante crises históricas, como o Plano Collor, podendo passar de 8%
nos próximos meses. A marca só foi atingida em momentos dramáticos
da história recente: nas crises de 2002/2003 e de 2015/2016.
Desde 2002, a média dessa relação gira em torno de 6%. Ou seja, o
Brasil está desviando 2 pontos percentuais a mais do seu PIB apenas
para remunerar o capital financeiro.
Há uma clara desconexão entre a política econômica e os interesses
nacionais, desde que o BC desligou-se de seus vínculos orgânicos com o
governo. Desde então, os gastos crescentes com serviços da dívida não
representam uma contrapartida em investimentos para o país, apenas
paralisia e aprofundamento da crise monetária.
O caminho do conflito distributivo
No fundo, o que está em disputa é quem vai pagar a conta. Ao manter a
Selic elevada, o Banco Central beneficia os detentores do capital
financeiro e penaliza a maioria da população. O dinheiro que poderia ser
usado para financiar uma transição ecológica, gerar empregos, ampliar
universidades e hospitais, ou mesmo zerar o déficit habitacional, vai
direto para os bancos e fundos de investimento.
A política monetária deixou de ser uma ferramenta técnica e virou um
instrumento de transferência de renda — de baixo para cima. Muito se
falou que o impeachment de Dilma, nada mais foi que um golpe originado
nesse conflito distributivo, conforme se pagava menos para a
especulação e se compartilhava mas com a base da pirâmide. O golpe
foi se conformando em reformas trabalhista, política, teto de gastos,
desmontes do estado, culminando no Banco Central independente.
Um alerta para o futuro próximo
Com uma nova reunião do Copom marcada para 6 e 7 de maio, tudo
indica que a taxa pode subir ainda mais. A continuar nesse ritmo, o gasto
com juros ultrapassará a barreira do trilhão sem que o país colha
benefícios equivalentes.
A discussão sobre o papel do Banco Central, sua autonomia e sua
responsabilidade social e fiscal ganha urgência política. Afinal, um país
que sangra R$ 1 trilhão ao ano para remunerar a especulação precisa
decidir se vai continuar financiando o rentismo ou investindo no futuro.
A trajetória atual é insustentável. Enquanto o governo é forçado pelo
Banco Central a gastar R$ 1 trilhão em juros, milhões de brasileiros
sobrevivem com um salário mínimo que sequer cobre o custo básico de
vida.
Fonte: Vermelho

