Movimento social tem de reagir ao lobby do mercado, defendem economistas
Luiz Gonzaga Beluzzo e Paulo Kliass veem como crucial a mobilização
de movimento social e sindicatos não só para influenciar na luta
contra os juros altos, mas também em defesa de um novo rumo para
a economia
por Iram Alfaia
Publicado 24/06/2025 14:50 | Editado 24/06/2025 19:22
Ato das Centrais em frente ao Banco Central, na Av Paulista, em 30 de julho
de 2024. Foto de Roberto Parizotti
Sob pressão no Congresso, o governo do presidente Luiz Inácio Lula
da Silva encontra dificuldades para aprovar medidas em direção a um
sistema tributário mais justo em que os pobres paguem menos e os
super-ricos contribuem com o que devem.
Em entrevista ao Portal Vermelho, os economistas Luiz Gonzaga
Beluzzo e Paulo Kliass veem como fundamental a mobilização urgente
dos sindicatos e do movimento social não só para influenciar nessa
briga, mas em defesa de um novo rumo para a política econômica.
Beluzzo diz que há uma relação de poder desfavorável ao governo
por conta do lobby do mercado financeiro.
“Você junta o mercado financeiro como um coletivo que tem muito
poder. O governo, na medida em que está cercado, vai tentando
convencer os que participam do mercado que ele vai agir de forma
correta para não causar instabilidade”, disse o professor.
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dos super-ricos
De acordo com ele, para contornar a situação é preciso maior poder
político. “Como, na verdade, o governo não consegue ganhar no
Congresso, está sendo bloqueado o tempo inteiro. Essa é a questão
central, porque não há nenhum caso de calote na dívida pública”,
lembra.
Segundo o experiente economista, os índices são favoráveis ao
governo, como a reserva cambial de US$ 360 bilhões e a relação
dívida Produto Interno Bruto (PIB) em torno de 78%.
“A dívida líquida, na qual você tem que descontar as reservas e mais
alguma coisa, está em torno de 60%. Por que ninguém fala da dívida
líquida?”, diz Beluzzo. “É um estratagema do mercado para enrolar as
pessoas. E o poderio deles não é só no Congresso – eles têm a
chamada mídia corporativa ao lado para propagar corte de gasto e
questão fiscal o tempo inteiro.”
Por outro lado, o professor critica o compromisso com a política
econômica da meta de déficit zero, o que prejudica os investimentos.
“Você tem um compromisso, digamos assim, de levar a inflação para a
meta. O sistema de meta é muito falho, muito imperfeito”, critica.
(Foto: Reprodução/Agência PT)
Dívida Pública
Kliass concorda com Belluzo e também vê o mercado financeiro
extremamente beneficiado com o sistema da dívida pública.
“Quando você aumenta a taxa Selic, o que que acontece? Você
provoca um aumento nas despesas financeiras com os juros, porque
a Selic é a taxa referencial de juros. Ela é a referência pro pagamento
dos juros do estoque da dívida”, explica. “Ao longo dos últimos 12
meses, o governo gastou alguma coisa em torno de R$ 950 bilhões
para pagamento de juros, aproximando de despesas financeiras na
ordem de R$ 1 trilhão por ano.”
Na gestão Gabriel Galípolo, que assumiu a presidência do Banco
Central (BC) no governo Lula, Kliass diz que o aumento da Selic foi de
2,75 pontos percentuais, o que representa uma despesa anual extra
de juros de R$ 220 bilhões.
Em sua opinião, há um problema que nunca mudou desde o primeiro
mandato Lula: fazer uma diferença entre despesas financeiras e as
não financeiras. Desse modo, o economista critica o equilíbrio fiscal
primário propagado pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad.
“Esse adjetivo, ‘primário’, é toda a malandragem. Pela definição
metodológica, é uma tautologia. A conta primária é a conta não
financeira”, diz. “Se quero fazer o equilíbrio fiscal primário, tudo você
consegue comprimindo despesas primárias, que são saúde,
educação, previdência, assistência social, segurança pública,
saneamento e salários de servidores públicos em geral.”
Por isso, o economista vê como urgente o movimento social
pressionar o governo para mudar a política econômica na questão
dos juros e do corte de despesas.
“Tem que começar ontem a fazer essa mudança, porque se não a
gente caminha para uma certeza de derrota nas eleições de outubro
do ano que vem”, projeta. “A situação está muito grave e o comando
tem de ser do presidente Lula. Ele precisa tomar as rédeas e mudar o
eixo da política econômica.”
Fonte: Vermelho

