Papa Francisco deixa legado sem precedentes de apoio ao movimento sindical

Em discursos e encontros históricos, o pontífice argentino reforçou a
importância dos sindicatos como defensores da dignidade do trabalho e
instrumentos de transformação social, deixando um legado que ressoará

por gerações, por  Cezar Xavier.

Publicado 23/04/2025 17:16 | Editado 23/04/2025 18:33

O Papa Francisco é recebido por jovens durante uma audiência para escolas
de ensino fundamental pertencentes ao grupo “Cavalieri”, que promove a vida
cristã para jovens, na Sala Paulo VI, no Vaticano, sexta-feira, 2 de junho de
2017. (Crédito: L' Osservatore Romano)

Ao longo de seu papado, o papa Francisco destacou-se não apenas
como líder espiritual, mas também como uma voz incisiva na luta pelos
direitos dos trabalhadores e dos marginalizados. Em diversas ocasiões,
ele exaltou o papel central dos sindicatos na construção de uma
sociedade mais justa e igualitária. Com sua morte nesta segunda-feira
(21), o mundo reflete sobre suas palavras visionárias e seu compromisso
inabalável com a classe trabalhadora.
Francisco foi um dos poucos líderes globais a defender abertamente os
sindicatos como “vozes dos sem-voz” e a denunciar as estruturas
econômicas que colocam o lucro acima da vida humana. Seu legado é
marcado por elogios sem precedentes ao movimento sindical e pela
convocação para que essas entidades se renovem sem perder sua
essência combativa.
“Os sindicatos são chamados a serem sentinelas”
Em junho de 2017, durante um encontro com representantes sindicais no
Vaticano, Francisco proferiu uma das declarações mais emblemáticas
sobre o papel dos sindicatos: “Os sindicatos nascem e renascem todas
as vezes que, como os profetas bíblicos, dão voz a quem não a tem,
denunciam os poderosos que pisam nos direitos dos trabalhadores mais
frágeis e defendem a causa dos estrangeiros, dos últimos e dos
rejeitados.”
O pontífice enfatizava que os sindicatos não podem se limitar a funções
administrativas ou institucionais. Para ele, essas organizações devem
estar nas periferias, escutando a realidade dos explorados e excluídos.
“Não existe uma boa sociedade sem um bom sindicato”, afirmou em uma
mensagem que ecoou profundamente entre os movimentos trabalhistas.
Cinco preocupações centrais no mundo do trabalho
Em seus pronunciamentos, Francisco destacou três grandes
preocupações contemporâneas relacionadas ao trabalho:
1. Segurança dos trabalhadores
O papa lamentou o elevado número de mortes e acidentes laborais,
classificando cada tragédia como uma derrota para toda a sociedade.
“Cada morte no trabalho é uma derrota para toda a sociedade”, disse.
Ele criticou duramente a mentalidade que coloca o lucro no mesmo
patamar que a vida humana, alertando: “Não permitamos que ponham o
lucro e a pessoa no mesmo nível.”
2. Exploração e precarização

Francisco condenou veementemente o trabalho precário e análogo à
escravidão, além das jornadas exaustivas que impedem os trabalhadores
de sustentar suas famílias. “Há pessoas que, apesar de terem um
emprego, não conseguem ter esperança no futuro”, afirmou,
denunciando as injustiças de um sistema econômico que privilegia os
ricos às custas dos vulneráveis.
3. Situação de jovens e mulheres
O pontífice também chamou atenção para as condições desiguais
enfrentadas por jovens e mulheres no mercado de trabalho. Ele criticou
contratos precários que submetem a juventude a formas modernas de
escravidão e cobrou isonomia salarial para as mulheres. “A dignidade
humana é pisoteada pela discriminação de gênero. Por que uma mulher
deveria ganhar menos que um homem?”, questionou.
4. Redução da jornada e trabalho infantil
Durante seu  encontro com sindicalistas em 28 de junho de 2017 ,
Francisco também discursou sobre o “direito ao ócio”. “Quando pergunto
a um homem, a uma mulher que tem dois, três filhos: ‘Mas, diga-me,
você brinca com os seus filhos? Pratica este ócio?’ — ‘É, sabe, quando
saio para o trabalho, eles ainda dormem, e quando volto, já estão na
cama’. Isto é desumano. Por isso, ao lado do trabalho deve caminhar
também a outra cultura. Porque a pessoa não é só trabalho, pois nem
sempre trabalhamos, e nem sempre devemos trabalhar”, defendeu ele,
aproveitando para afirmar a necessidade das crianças e jovens
estudarem e não serem obrigadas a trabalhar.
5. Aposentadoria justa
Também mencionou aqueles que não têm uma aposentadoria justa e
precisam trabalhar na velhice. “É urgente um novo pacto social humano,
um novo pacto social para o trabalho, que diminua as horas de trabalho
de quem está na última fase laboral, a fim de criar trabalho para os
jovens que têm o direito-dever de trabalhar”, disse.
Uma espiritualidade enraizada na justiça social
Para Francisco, a fé não podia ser dissociada da luta por justiça social.
Sua espiritualidade estava profundamente conectada à solidariedade e à
ação concreta. Ele afirmava que rezar sem enfrentar as causas da
pobreza e da exploração era insuficiente. “Não adianta rezar e fechar os
olhos para quem passa fome”, declarou em uma homilia marcante.
Essa postura incomodava os poderosos, mas inspirava milhões ao redor
do mundo. Para os sindicalistas, Francisco era uma voz que ecoava nas

assembleias, mutirões de regularização, cursos de formação e
campanhas por melhores condições de trabalho.
Críticas ao capitalismo e defesa dos pobres
Francisco não hesitava em criticar os aspectos mais nefastos do
capitalismo financeiro. Em setembro de 2024, durante uma homilia, ele
reiterou que colocar os pobres no centro do debate não é comunismo,
mas “puro Evangelho”.
“Enquanto não se resolverem radicalmente os problemas dos pobres,
renunciando à autonomia absoluta dos mercados e da especulação
financeira, e atacando as causas estruturais da iniquidade, não se
resolverão os problemas do mundo”, afirmou. Essas palavras reforçaram
sua posição como um crítico ferrenho das desigualdades sociais e
econômicas.
Reconhecimento e homenagens dos movimentos sociais
A morte de Francisco gerou comoção entre movimentos sociais e
sindicatos, que reconheceram nele um aliado incondicional. O Movimento
dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) lembrou que o pontífice foi
“um fiel aliado dos mais pobres, marginalizados, excluídos e violentados
pelo capitalismo”. destacou o papel crucial que o Papa Francisco
desempenhou ao longo de seu pontificado, especialmente em tempos de
grande polarização e crise. Para a União Nacional dos Estudantes
(UNE), o papa foi um símbolo na luta pela igualdade social e pela
educação, lembrando que “é através da educação que o ser humano
alcança seu potencial máximo”.
O presidente da CTB (Central de Trabalhadores e Trabalhadoras do
Brasil), Adilson Araújo, afirmou que “o Papa Francisco cumpriu uma
importante missão. A luz dos problemas contemporâneos passou pelo
Papa, e ele foi um revolucionário em seu tempo.” Ao longo de seu
pontificado, completou, o Papa Francisco se posicionou de maneira clara
e firme sobre temas que afligem a sociedade contemporânea. Araujo
apontou como o Papa abordou com empatia questões cruciais como a
desigualdade social, as guerras em várias partes do mundo e,
especialmente, sua solidariedade ao povo palestino.
“O Papa Francisco sempre se destacou pelo olhar voltado para os mais
marginalizados. Sua solidariedade com o povo palestino, sua postura
frente às desigualdades sociais, e sua crítica ao capitalismo desenfreado,
desenham de maneira emblemática o sentimento de seu pontificado”,
afirmou Adilson. Para Araujo, quem sonha com um mundo mais humano
e menos desigual, certamente vê o pontificado de Francisco como um
símbolo de resistência e esperança.

Já a Central Única dos Trabalhadores (CUT) destacou sua disposição
para o diálogo e seu reconhecimento da importância pública dos
sindicatos. A União Geral dos Trabalhadores (UGT) afirmou que
Francisco compreendeu o valor das periferias e levou sua mensagem de
fé e esperança aos cantos mais esquecidos do mundo.
Um legado de luta e esperança
O papa Francisco deixa um legado inédito de apoio ao movimento
sindical e à luta pelos direitos dos trabalhadores. Suas palavras e ações
continuam a inspirar milhões em todo o mundo, especialmente em
momentos de crescente precarização e exclusão social.
“O dinheiro deve servir, não governar”, disse Francisco em um de seus
discursos mais memoráveis. Essa máxima resume sua visão de uma
economia centrada na vida e na dignidade humana.
Seu pontificado será lembrado como um chamado à ação, um convite
para que os sindicatos e os movimentos sociais sigam firmes na defesa
dos direitos dos mais vulneráveis. Francisco mostrou que a Igreja pode –
e deve – estar ao lado dos trabalhadores, lutando por um mundo mais
justo e solidário.

Fonte: Vermelho

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