Crise do INSS teve raízes no governo Bolsonaro, diz ministro da Previdência
Em depoimento à Comissão de Previdência da Câmara, Wolney Queiroz
detalha escândalo de descontos indevidos em aposentadorias e aponta
negligência do governo anterior
por Cezar Xavier
Publicado 11/06/2025 17:43 | Editado 11/06/2025 18:21
Exposição da agenda estratégica do Ministério da Previdência Social e
exposição sobre irregularidades no INSS. Ministro de Estado – Ministério da
Previdência Social, Wolney Queiroz Maciel foto: Vinicius Loures / Câmara dos
Deputados
O ministro da Previdência Social, Wolney Queiroz, afirmou em audiência
pública na Câmara dos Deputados que a fraude nos descontos
associativos indevidos em aposentadorias e pensões do INSS teve início
em 2017, mas se agravou durante o governo Bolsonaro. Segundo o
ministro, alterações legislativas e flexibilizações regulatórias adotadas
entre 2019 e 2022 criaram um ambiente propício para esquemas de
corrupção, afetando cerca de 9,4 milhões de beneficiários .
“Esses desvios não são novos, mas ganharam escala com políticas que
priorizaram a liberalização dos consignados sem mecanismos de
controle”, afirmou Queiroz, destacando que a atual gestão identificou R$
200 bilhões em supostas fraudes, embora tenha alertado que parte
desses valores é resultado de “desinformação e números inflados”.
Ações do governo Lula: ressarcimento, biometria e combate à
corrupção
O ministro detalhou as medidas adotadas para reparar os danos, desde
que assumiu o ministério:
Validação biométrica: desde maio de 2025, a liberação de
empréstimos consignados exige confirmação facial vinculada à
base do TSE, dificultando fraudes.
Ressarcimento imediato: até o momento, 685 mil aposentados
foram atendidos por meio de parcerias com os Correios, além do
uso de “PreviBarcos” e “PrevMóveis” para alcançar populações
vulneráveis.
Plano de Integridade: lançado com apoio da CGU, o documento
mapeia riscos e estabelece auditorias internas para evitar novos
abusos.
Queiroz reforçou que o presidente Lula determinou uma investigação
rigorosa: “Foi o nosso governo que chamou a polícia, suspendeu os
convênios e cortou na carne. Não há espaço para acobertamento.”
Responsabilidade histórica: deputados acusam omissão de
Bolsonaro e Temer
A fala do ministro foi recebida com apoio unânime, mas também
cobranças por parte dos parlamentares:
Para o deputado Renildo Calheiros (PCdoB-PE), Wolney Queiroz
conseguiu esclarecer de forma inequívoca que a atual gestão não só não
tem relação com o escândalo, como foi responsável direta pela sua
interrupção. Ele também destacou que as três associações que mais
lesaram aposentados firmaram convênios com o INSS no segundo
semestre de 2022 — às vésperas das eleições presidenciais — o que,
para o deputado, “revela a pressa em formalizar os esquemas antes da
possível troca de governo”.
Ele reforçou a necessidade de agilidade na devolução dos recursos aos
aposentados mais vulneráveis: “O presidente Lula determinou que
ninguém ficará no prejuízo. Vamos devolver cada centavo e
responsabilizar quem atacou o nosso sistema de proteção social.” E
justificou: “Muitos idosos sobrevivem apenas da aposentadoria, às vezes
com problema de
saúde, e não pode ficar aguardando os demorados
processos judiciais.”
O parlamentar ainda sugeriu medidas legislativas para agilizar o
ressarcimento dos prejudicados, especialmente os idosos em situação de
vulnerabilidade, defendendo que “cada centavo seja devolvido” e que “os
culpados não escapem da punição”.
A deputada federal Jandira Feghali (PCdoB-RJ) foi uma das vozes mais
incisivas no apoio ao ministro e na crítica ao governo anterior. Em sua
intervenção, ela ressaltou que a origem da fraude se deu ainda no
mandato de Jair Bolsonaro, quando foi revogada a revalidação trimestral
das entidades conveniadas com o INSS — brecha que permitiu a
continuidade e expansão do esquema.
“Se essa investigação tivesse sido divulgada lá atrás, em 2023, ninguém
hoje estaria dizendo que o nosso governo está envolvido. Ela foi iniciada
por este governo, pela CGU, e paralisou o processo fraudulento iniciado
no governo anterior”, disse a deputada.
Jandira afirmou ainda que a atual gestão “não tem culpa nem
responsabilidade nessa fraude” e que “quem lavou dinheiro ou participou
do esquema será identificado pela investigação”. Ela defendeu a
reparação imediata aos aposentados prejudicados: “É dinheiro pequeno,
mas é o que garante a sobrevivência de milhares de pessoas que foram
vítimas desse golpe”.
Oposição muda o tom e reconhece trajetória de Queiroz
Apesar de o clima político ser de tensão, até mesmo parlamentares da
oposição moderaram seu discurso diante da postura firme e técnica de
Queiroz. Calheiros chegou a elogiar o “respeito com que a oposição
tratou o ministro”, atribuindo isso à “conduta ilibada” e à “trajetória pública
de integridade” do pernambucano.
A sessão também coincidiu com o depoimento do ex-presidente Jair
Bolsonaro ao Supremo Tribunal Federal, em que ele admitiu ter feito
acusações falsas contra ministros da Corte. A coincidência temporal
reforçou, para aliados do governo, o contraste entre a condução atual da
Previdência e os desmandos do passado recente.
Fraude sistêmica e impunidade no alvo do Congresso
Deputados da base defenderam a continuidade das investigações com
prioridade absoluta. A CPI do INSS, já instaurada, deve aprofundar o
rastreamento do caminho do dinheiro desviado e os vínculos das
associações com agentes públicos da gestão passada.
O consenso entre os parlamentares da base é que o escândalo dos
consignados não é apenas um episódio de corrupção, mas uma das
faces mais cruéis da má gestão do governo Bolsonaro, que teria exposto
idosos a um esquema fraudulento com prejuízos que ainda estão sendo
contabilizados.
Desafios futuros: entre proteção social e segurança institucional
O depoimento do ministro evidenciou a urgência de reformular o sistema
previdenciário:
Proteção ao idoso: propostas de projetos de lei exigem
renovação anual de autorizações para descontos e fiscalização
tecnológica.
Punição exemplar: deputados pedem bloqueio de bens das
entidades envolvidas e aceleração das investigações da PF.
Digitalização segura: a integração do Meu INSS com a base do
TSE busca evitar novos esquemas, mas requer investimentos em
cibersegurança.
Fonte: vermelho

