Brasil denuncia tarifas de Trump na OMC e alerta para uso político do comércio
Brasil denunciou o uso de tarifas como forma de coerção política em
reunião da OMC. Discurso teve apoio de 40 países, incluindo China,
Rússia, Índia, Canadá e União Europeia.
por Lucas Toth
Publicado 23/07/2025 10:21 | Editado 23/07/2025 11:07
Presidente Lula (PT), durante sessão de abertura da 3º Conferência das
Nações Unidas sobre os Oceanos (UNOC3) em Nice – França | Foto: Ricardo
Stuckert / PR
O governo brasileiro denunciou nesta quarta-feira (23), em reunião do
Conselho Geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), o uso
político de tarifas comerciais por parte dos Estados Unidos.
O Brasil obteve apoio de cerca de 40 países, incluindo China, Rússia,
Índia, Canadá e a União Europeia.
Sem mencionar diretamente o nome de Donald Trump, o Itamaraty
acusou a prática de representar uma tentativa de interferência em
assuntos internos e uma ameaça à estabilidade do comércio
internacional.
A manifestação ocorreu em Genebra e foi conduzida pelo embaixador
Philip Fox-Drummond Gough, secretário de Assuntos Econômicos e
Financeiros do Itamaraty.
Segundo ele, a imposição de tarifas arbitrárias, como as anunciadas
por Trump contra produtos brasileiros, ameaça lançar a economia
global em uma espiral de preços altos e estagnação.
No centro da denúncia está a tarifa de 50% anunciada por Trump
sobre produtos brasileiros, prevista para entrar em vigor em 1º de
agosto. O ex-presidente norte-americano vinculou publicamente a
medida à forma como o Brasil tratou Jair Bolsonaro, aos supostos
“ataques às eleições livres” e à “falta de reciprocidade” nas relações
comerciais.
Para o governo brasileiro, trata-se de uma violação flagrante das
regras da OMC.
Durante o discurso no plenário da OMC, o embaixador brasileiro
alertou que “as negociações baseadas em jogos de poder são um
atalho perigoso para a instabilidade e a guerra”.
Ele afirmou que as tarifas estão sendo utilizadas como ferramentas
de coerção política, em detrimento do sistema multilateral baseado
em regras comuns.
Segundo Gough, a prática rompe princípios históricos do comércio
internacional, como o tratamento da nação mais favorecida e a não
discriminação. “Essas medidas levantam questões fundamentais com
relação à previsibilidade jurídica e ao equilíbrio das condições de
acesso ao mercado negociadas há décadas no âmbito do GATT
[Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio] e da OMC”, afirmou.
O diplomata também denunciou que, ao paralisar o sistema de
solução de controvérsias da OMC, os Estados Unidos fragilizam ainda
mais a governança comercial global. O Brasil defendeu a retomada do
funcionamento pleno do órgão e pediu esforços coletivos pela
reforma estrutural da entidade.
Apoios e articulação internacional pela reforma da OMC
A posição brasileira foi apoiada por cerca de 40 delegações, incluindo
potências como China, Rússia, Canadá, Índia e os países da União
Europeia. A China, em sua intervenção, apresentou dados alarmantes:
19,4% das importações mundiais estão atualmente submetidas a
tarifas elevadas, ante 12,5% há seis meses. O volume de comércio
afetado já chega a US$ 2,7 trilhões.
Pequim também criticou acordos bilaterais recentes firmados pelos
EUA, como o caso da Indonésia, que aceitou tarifas de 19% para seus
produtos em troca de entrada livre para bens norte-americanos. Para
a China e o Brasil, essas práticas aprofundam a fragmentação do
sistema e violam os princípios da OMC.
Nos bastidores, o embaixador brasileiro se reuniu com a diretora-
geral da OMC, Ngozi Okonjo-Iweala, e com outras delegações-chave,
buscando apoio à proposta brasileira de uma reforma ampla da
organização. “Ainda temos tempo para salvar o Sistema Multilateral
de Comércio”, afirmou Gough.
Brasil mantém aposta no diálogo, mas acena com reação
Apesar do tom crítico, o governo brasileiro reiterou que continuará a
priorizar o diálogo com os Estados Unidos. O Brasil enviou carta
formal a Washington solicitando negociações e possíveis exceções à
tarifa. Até o momento, não houve resposta oficial, mas o Itamaraty
não descarta uma missão diplomática a Washington nos próximos
dias.
Caso as negociações fracassem, o Brasil poderá recorrer ao
mecanismo de solução de controvérsias da OMC — mesmo com seu
funcionamento prejudicado pelo boicote dos EUA. “Vamos recorrer a
todos os meios legais disponíveis para defender nossa economia e
nosso povo”, disse Gough.
Internamente, o governo já se prepara para respostas mais
contundentes. Foi criado um Comitê Interministerial de Negociação e
Contramedidas Econômicas e Comerciais, coordenado pelo MDIC com
participação da Fazenda, da Casa Civil e do Itamaraty. Além de tarifas
de retaliação, o Brasil avalia aplicar sanções sobre propriedade
intelectual e produtos culturais norte-americanos, com base na nova
Lei da Reciprocidade.
Fonte: Vermelho

